Opinião | Mais motocicletas nas ruas, mais riscos à segurança e saúde no trânsito

Sem políticas públicas nem iniciativas de educação e infraestrutura, o aumento no número de motociclistas continuará a ser acompanhado por números alarmantes de acidentes e mortes

Por César Rubens da Costa Fontenelle

O mercado de motocicletas no Brasil está em plena expansão. Nos primeiros seis meses deste ano, houve um aumento de 20% nas vendas de motocicletas em comparação ao ano anterior, de acordo com dados recentes. Esse crescimento acelerado inclui um salto de quase 15% nas vendas gerais de motos e um impressionante aumento de 31,9% no segmento de scooters. Entretanto, esse crescimento no mercado vem acompanhado de desafios cada vez maiores em termos de segurança no trânsito.

Uma pesquisa quantitativa nacional, realizada pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), em setembro de 2024, trouxe dados preocupantes sobre a realidade dos motociclistas no Brasil. O estudo foi feito com mil pessoas entrevistadas, entre motociclistas, motoristas e pedestres, e cerca de 76,8% dos respondentes se identificaram como motociclistas. Entre eles, 53,6% utilizam a motocicleta principalmente para o trabalho.

A pesquisa trouxe diversos dados sobre como eles atuam no trânsito e um dado chama muita atenção: 26,2% desses motociclistas não possuem carteira de habilitação (CNH), aumentando consideravelmente os riscos no trânsito. A pesquisa também destacou que 71,6% dos motociclistas consideram o trânsito atual mais perigoso para sua categoria. Embora 93,6% dos entrevistados afirmem usar capacete sempre, o uso de outros itens de segurança, como jaquetas e luvas, ainda é menos comum, com 68,6% e 61,8% de adesão, respectivamente.

Esses números ressaltam a necessidade de maior conscientização e de medidas de proteção para esses condutores, especialmente em um cenário de crescente violência no trânsito. Em 2023, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), 28.245 motociclistas ficaram feridos, sendo 8.253 em estado grave, uma média de 77 feridos por dia nas rodovias federais.

Outro aspecto crítico levantado pelo estudo da SBOT foi a saúde dos motociclistas. Cerca de 46,4% dos entrevistados relataram sentir desconforto físico regular ao pilotar, principalmente dores nas costas, punhos ou joelhos. Apesar disso, 82,7% disseram realizar exames médicos regularmente, mas 79,2% afirmaram não ter acesso a programas de saúde voltados para motociclistas, evidenciando a falta de suporte preventivo específico para essa categoria.

A análise também abordou os acidentes de trânsito e as consequências físicas para os motociclistas. Um estudo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), que analisou dados de 2008 a 2018, revelou que apenas 10% dos motociclistas internados devido a acidentes de trânsito recebem alta sem prejuízos ou incapacidade. Ou seja, as chances de sair ileso de um acidente envolvendo motocicletas são muito pequenas. Entre 2012 e 2021, segundo dados do Datasus, 119.735 motociclistas perderam a vida em acidentes no Brasil, o que equivale a 33 mortes diárias.

Além dos desafios de segurança e saúde, a pesquisa da SBOT também revelou comportamentos de risco no trânsito. Entre os motociclistas entrevistados, 38,9% admitiram cometer infrações como andar entre os veículos, e 6,8% relataram ter se envolvido em acidentes nos últimos dois anos. O uso irregular de capacetes e outros equipamentos de proteção, somado à falta de educação no trânsito, agrava essa situação. Embora 84,4% dos motociclistas reconheçam a importância da educação no trânsito, apenas 48,6% afirmaram ter participado de cursos de direção defensiva.

Em termos de fatalidade, os motociclistas se destacam como as principais vítimas no trânsito brasileiro. Em 2021, mais de um terço (35%) das vítimas fatais no trânsito eram motociclistas, representando um aumento significativo em relação a 2012, quando essa parcela era de 28%. Esse crescimento reflete a maior exposição desses condutores ao perigo, especialmente em grandes centros urbanos, onde a infraestrutura não acompanha o aumento do número de motocicletas.

Diante de um cenário tão preocupante, a pesquisa da SBOT sugere a necessidade urgente de ações voltadas para a segurança dos motociclistas. Entre as principais demandas, 58,5% dos entrevistados consideram extremamente necessário a criação de motovias, faixas exclusivas para motocicletas, nas grandes cidades. Além disso, maior fiscalização no trânsito e melhorias na pavimentação das vias foram apontadas como medidas essenciais para reduzir os acidentes.

Com o mercado de motocicletas crescendo em ritmo acelerado, é inegável que as políticas públicas e as iniciativas de educação e infraestrutura acompanhem esse crescimento. Sem essas ações, o aumento no número de motociclistas continuará a ser acompanhado por números alarmantes de acidentes e mortes. A melhoria das condições de segurança no trânsito não pode esperar.

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MÉDICO ORTOPEDISTA, É PRESIDENTE DO 56.º CONGRESSO ANUAL DE ORTOPEDIA E TRAUMATOLOGIA

Opinião por César Rubens da Costa Fontenelle

Médico ortopedista, é presidente do 56.º Congresso Anual de Ortopedia e Traumatologia