Rota turística: pequenos negócios de Salvador prezam por sustentabilidade

Por trás da boa comida e da hospedagem aconchegantes, empreendedores fomentam a cultura, a história e a economia locais com práticas de menor impacto ambiental

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Por Ludimila Honorato
6 min de leitura

“Você já foi à Bahia, nega? / Não? / Então vá!”, incentiva Dorival Caymmi em música lançada em 1941, com bons motivos para a visita. Lá tem comida boa, música, história e um jeito que só a Bahia tem. O resultado não seria diferente: “Quem vai ao Bonfim, minha nega / Nunca mais quer voltar”, ele completa.

Em 2021, a Bahia teve a segunda maior receita do Brasil com turismo doméstico (R$ 1,1 bilhão), atrás apenas de São Paulo. E quem já foi à primeira capital do País atesta o que o cancionista expressou. Na lista das cidades que mais recebem turistas, 93,9% dos brasileiros e estrangeiros que visitaram Salvador na alta estação de 2022 têm intenção de voltar e cerca de 95% recomendariam o destino, segundo pesquisa da Pollis Estratégia, contratada pela Prefeitura de Salvador.

O empresário André Luis Barros, dono do Hotel Villa da Praia, em Itapuã. Foto: Darío G. Neto/ASN Ba.

Parte dessa experiência única é proporcionada por mulheres e homens à frente de micro e pequenas empresas que estão na rota turística da cidade. Mais do que oferecer um espaço para comer bem e descansar após as andanças pelo município, esses empreendedores concedem uma imersão na cultura local e na natureza. Eles investem em práticas de resgate, valorização e preservação da história e do meio ambiente.

Juntos, os microempreendedores individuais (MEI), micro e pequenos negócios de Salvador são quase 300 mil, com características peculiares. André Luis Barros, por exemplo, é a prova de que pequenas ações de sustentabilidade já podem transformar o negócio, gerando maior rentabilidade.

Dono do Hotel Villa da Praia, em Itapuã, bairro cantado por Vinicius de Moraes e Toquinho, ele teve auxílio das consultorias do Sebrae para atacar questões simples e vitais, como combater o desperdício no serviço de café da manhã. “A gente analisou todo o fluxo do processo dele: cardápio, o comportamento do hóspede e o que podia cortar sem perder qualidade e oferta”, explica Hirlene Pereira, gestora de projetos da área de turismo do Sebrae-BA.

Com o plano de ação, a equipe do hotel corrigiu a pesagem das porções de alimentos, adequou a seleção e armazenamento dos hortifrutis e, assim, passou a aproveitar melhor e totalmente os insumos, sem descartes desnecessários.

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“Fizemos a organização do cardápio semanal, verificando os hóspedes para não dimensionar mal, não sobrar nem faltar. Tivemos redução de porção, congelamento de sobras sem risco de perder qualidade e depois de 30 dias a gente reduziu em 9% a nossa perda”, descreve André, cujo empreendimento tem 40 quartos.

Área externa do Hotel Villa da Praia. Foto: Darío G. Neto/ASN Ba.

No local, torneiras comuns foram trocadas por outras de acionamento hidromecânico ou receberam um redutor para controlar o fluxo de água. As borrachas de todos os freezers, geladeiras e frigobares foram substituídas para ter maior vedação, e as lâmpadas agora são de LED.

“A gente teve economia na conta de energia e valorizamos o imóvel em 15%”, diz o empreendedor. Na semana em que a reportagem esteve no Hotel Villa da Praia, ele esperava a chegada das placas de energia solar, em que investiu R$ 300 mil, que vão permitir uma autonomia de 75% ao hotel. Também há previsão de implantar um projeto de captação de água da chuva.

Valorização do negócio

Por trás desse trabalho está o propósito de agregar valor ao negócio e proporcionar uma experiência mais agradável ao cliente. Mais do que hospedagem, o Hotel Villa da Praia permite conexão com a natureza, mesmo estando no centro urbano de Salvador. E foi observando o comportamento do hóspede que o empreendedor teve novos insights.

Ao perceber que as pessoas preferiam pedir pizza por delivery em vez de jantar no restaurante do hotel, o empresário investiu na construção de uma pequena pizzaria na área externa do prédio, mas ainda dentro do terreno hoteleiro. Ele ofereceu um curso para uma funcionária da cozinha, que desenvolveu uma receita de massa muito fina e crocante.

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“A gente começou a ter uma reputação online muito forte e o cliente que vinha se hospedar falava da pizza. Resultado: paramos de receber o delivery e crescemos a nossa venda não só de prato, mas também de pizza”, conta.

Por meio de parcerias com influenciadores locais e trabalhando o produto nas redes sociais, o hotel passou a vender as pizzas para hipermercados da região. O plano agora é ampliar a estrutura da pizzaria e vender também para o público externo, que poderá degustar os sabores ao som do mar, sob lua e estrelas. Simultaneamente, André vai inaugurar uma unidade da pizzaria em um centro residencial e corporativo da cidade.

Comida, arte e cultura

A sustentabilidade também está no cerne do restaurante Casa de Tereza. Espelhos, molduras, tampo de mesa e tantos outros objetos vindos ou que iriam para o lixo serviram para formar a identidade do negócio. O espaço amplo foi montado numa antiga casa, datada de 1836, que mantém o piso original até hoje.

O restaurante que leva o nome da dona e chef tem dez anos de história, completados no último dia 27, e a primeira compra de mobiliário ocorreu este ano: mesas e cadeiras de segunda mão. Esse traço sustentável se expande para outras áreas do negócio, a começar pela valorização da cultura e do fazer local.

A chef e empreendedora Tereza Paim, à frente da Casa de Tereza e Casa Bohemia. Foto: Darío G. Neto/ASN Ba.

“A gente é praticamente quilômetro zero. A gente tem muito mais que 70% de produtos locais, com uma relação muito forte com nossos fornecedores”, conta Tereza Paim. Carnes, cogumelos, azeite de dendê e farinha, por exemplo, usados no preparo das refeições são de terras baianas.

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Na casa que serve o famoso bolinho de feijoada de Tereza, há diferentes ambientes que resgatam, por exemplo, o sincretismo religioso e a história da Bahia. O negócio envolve também uma fábrica de produtos autorais, como farofas, cocadas, temperos, pimentas e geleias que são vendidos numa loja dentro do restaurante.

Os ingredientes são naturais e a produção é feita em forno e panelas construídas especialmente para as demandas culinárias de Tereza. A agricultura familiar também é contemplada nesse processo. “Tudo que a gente pode comprar que não tem química, a gente não hesita no preço.”

O restaurante Casa de Tereza é decorado com objetos que iriam ou vieram do lixo, itens de segunda mão e obras feitas por artistas locais. Foto: Darío G. Neto/ASN Ba.

Seis pessoas trabalham na fábrica, que ficam responsáveis por trabalhos mais manuais, como descascar cebolas. “Porque se descasca na máquina, ela fica muito mordida, perde água e não consegue fazer um refogado”, explica a chef, que há quatro meses abriu a Casa Bohemia, com uma pegada mais de bar.

Tereza também investiu quase R$ 1 milhão em uma usina termelétrica própria para abastecer os estabelecimentos e a fábrica, além da casa própria e do sócio dela. Para uma empresa que fatura cerca de R$ 15 milhões por ano, optar por um investimento desse porte é, segundo ela, “uma escolha difícil”. “Talvez R$ 1 milhão seja o que o empresário ganhou no ano, mas a gente realmente acredita no negócio.”

Todos os empreendimentos também nasceram com uma cadeia de lixo bem resolvida, com separação de recicláveis e utensílios reutilizáveis, como canudos de inox. Para Tereza, manter essa postura no mercado brasileiro é desafiador. “São muito poucos os brasileiros que fazem a escolha de um produto que tem responsabilidade com o meio ambiente. Ainda não é o hábito dele, mas para mim é fundamental.”