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Aldo Rebelo critica Lula por tentar polarizar eleição de SP e apoiar Boulos: ‘Sabotou governo Dilma’

Futuro secretário de Nunes argumenta que MDB, partido do prefeito, tem três ministros no governo petista e, por isso, não há sentido falar em polarização

Foto do author Pedro Augusto Figueiredo
Por Pedro Augusto Figueiredo
Entrevista comAldo RebeloSecretário de Relações Internacionais da Prefeitura de São Paulo a partir de fevereiro

Ex-ministros em governos petistas, Aldo Rebelo considera que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se radicalizou politicamente e ideologicamente e tenta agora dividir São Paulo e o país em dois blocos, o que vai na contramão dos dois primeiros governos do petista, quando fez alianças com o MDB e nomes à direita como Valdemar Costa Neto (PL) e Ciro Nogueira (PP-PI).

Rebelo, próximo secretário de Relações Internacionais da Prefeitura de São Paulo, atuará na campanha à reeleição de Ricardo Nunes (MDB-SP). Ele rebate Lula, que recentemente disse que a eleição na capital paulista será entre ele e Jair Bolsonaro (PL): enquanto o petista apoia Guilherme Boulos (PSOL-SP), o ex-presidente e o PL apoiarão a reeleição de Nunes.

“O MDB tem três ministérios no governo. Não faz sentido essa ideia que a eleição municipal vai repetir a polarização da eleição presidencial”, diz o futuro secretário. “Acho que ele [Lula] é atormentado por fatores que eu desconheço e que o conduzem a tentar fazer de São Paulo palco de uma guerra ideológica que não serve a ele, a São Paulo e ao Brasil”, continua.

Aldo Rebelo diz achar “estranho” que Lula e o PT apoiem Boulos diante da atuação do deputado federal durante o governo Dilma. O candidato do PSOL liderou manifestações contra a Copa do Mundo e também era crítico da política de alianças petistas com partidos do que hoje é chamado de Centrão.

“A tentativa de Boulos sempre foi a de substituir o PT como o grande partido das forças progressistas do Brasil. E se fosse necessário destruir o PT, não foi poupada nenhuma energia nesse sentido.”, afirma o agora aliado de Ricardo Nunes.

Ele conta que foi procurado pelo prefeito ainda em dezembro, antes de Marta Suplicy, sua antecessora no cargo de secretário, aceitar voltar ao PT para ser vice de Boulos. Aldo Rebelo, porém, explica que o convite feito no ano passado não foi específico para a pasta de Relações Internacionais. “Embora eu ache que provavelmente ele já desconfiasse que a secretária estava em negociações para apoiar o candidato do PT”, diz.

O ex-ministro está em um período de descanso em Alagoas, onde costuma sair em cavalgadas todas as manhãs. Ele só assumirá o cargo na prefeitura em fevereiro. Para isso, teve que licenciar-se do PDT, partido ao qual atualmente está filiado e que apoia o candidato do PSOL.

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No PDT, ele se aproximou do grupo Nova Resistência, que, segundo o jornal O Globo, foi classificado como neofascista e disseminador de desinformação pró-Rússia pelo Departamento de Estado dos EUA. Também foi apontado como ameaça à segurança nacional pelo Banco Central em 2021.

O grupo defende a Quarta Teoria Política, filosofia criada pelo russo Alexandr Dugin, um dos principais influenciadores do pensamento de Vladimir Putin. Em seu site, a Nova Resistência propõe, por exemplo, proibir e expulsar “todas as ONGs globalistas do território brasileiro”.

Aldo Rebelo aceitou convite de Ricardo Nunes e será secretário de Relações Internacionais de São Paulo a partir de fevereiro Foto: @prefeitoricardonunes via Instagram

Aldo Rebelo afirma que sempre aceita convites para fazer palestras e não foi diferente com o Nova Resistência, que na visão dele é um grupo nacionalista. Segundo o ex-ministro, há uma tentativa de classificar o nacionalismo como uma ideologia conservadora ou fascista, argumento do qual ele discorda.

“Não fazem a distinção entre o nacionalismo agressivo das nações fortes, esse sim um nacionalismo dominador que é uma ameaça à democracia, do nacionalismo das nações frágeis e emergentes, que querem apenas se proteger do nacionalismo dos fortes”, diz. O PDT expulsou cerca de 50 integrantes da Nova Resistência no segundo semestre do ano passado.

Ex-ministro da Defesa, Rebelo também critica o que vê como “revanchismo” da esquerda contra as Forças Armadas após os atos de 8 de Janeiro, fenômeno que, segundo ele, deriva da ditadura de 1964 e permanece até os dias atuais. “Os integrantes das Forças Armadas podem ter cometido os seus erros, mas dizer que as Forças Armadas como instituição participaram de articulação golpista não é verdade”, declara.

Confira os principais trechos da entrevista:

Quando o senhor assume a Secretaria de Relações Internacionais de São Paulo?

Eu recebi o convite do prefeito ainda em dezembro, mas eu já estava em Alagoas passando uma temporada. Agora no começo do ano fui a São Paulo, tive uma conversa com o prefeito, mas também falei com o presidente Michel Temer e com o presidente do MDB, Baleia Rossi. Depois de pensar, eu concordei, mas disse que só assumiria no começo de fevereiro.

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Acho que São Paulo tem um papel importante na agenda internacional do Brasil, que esse ano tem a presidência do G-20. A cúpula dos chefes de Estado será em Brasília, mas as reuniões importantes, ministeriais, acontecerão em São Paulo. A cidade também integra o consórcio das cidades ibero-americanas e o consórcio das cidades sustentáveis e todas essas instituições terão atividades em São Paulo.

O prefeito fez o convite para o senhor assumir a pasta em dezembro, quando a Marta Suplicy ainda estava no cargo?

Ele não fez o convite para a Secretaria de Relações Internacionais. Na época, ele disse que gostaria que eu participasse do governo. Não havia um convite específico para a pasta, embora eu ache que provavelmente ele já desconfiasse que a secretária estava em negociações para apoiar o candidato do PT.

Um dos argumentos utilizados pela Marta para deixar a prefeitura foi que ela não aceitou a aliança de Nunes com Bolsonaro. O senhor aceita. Por quê?

Eu não quero comentar a posição nem as opiniões da ex-prefeita Marta. Sou amigo dela, padrinho de casamento e fui candidato a vice numa chapa com ela. Tenho apreço por ela. O que eu posso dizer é que o prefeito de São Paulo integra um partido da base do governo do presidente Lula. O MDB tem três ministérios. O deputado Baleia Rossi apoia o governo e apoiou Lula no segundo turno. No primeiro, apoiou a eleição da ministra (Simone) Tebet. A própria Marta foi filiada ao MDB, e uma parcela importante do movimento sindical de São Paulo está com o prefeito Ricardo Nunes.

Portanto, a eleição em São Paulo quebra as linhas das alianças do governo federal. É absolutamente secundária a ideia de que essa eleição é uma eleição que vai repetir a polarização da eleição presidencial. Não faz sentido. Não é essa a realidade de São Paulo.

O presidente Lula discorda do senhor. Ele aposta que a dinâmica da eleição será justamente a polarização entre ele e Bolsonaro em São Paulo.

Eu creio que o presidente Lula perdeu completamente a capacidade de construir e coordenar alianças heterogêneas, sem as quais é impossível governar o Brasil. Ele foi eleito nos seus dois primeiros mandatos em alianças heterogêneas. Ele escolheu um grande empresário [José Alencar], um representante da grande capital do Brasil, para ser o seu vice. Seus ministérios eram integrados por representantes importantes da indústria paulista, como o ministro [Luiz Fernando] Furlan, ou da agropecuária, como o ministro Roberto Rodrigues.

Eu creio que o presidente Lula hoje é um homem atormentado por razões que eu desconheço, mas que conduziram o presidente a uma radicalização política e ideológica e a dividir o Brasil em dois blocos. O Brasil não é isso. O Brasil é o resultado e a consequência de alianças heterogêneas que fizeram a Independência do Brasil, a abolição, a República, a industrialização do país, a redemocratização e fizeram inclusive os governos do presidente Lula, cuja base contava com o PMDB e os partidos de Valdemar Costa Neto e de Ciro Nogueira.

Como é que agora ele vai querer transformar o Brasil numa fronteira de guerra ideológica entre o petismo e o bolsonarismo? Eu acho que isso é completamente fora de sentido. Acho que ele é atormentado por fatores que eu desconheço que o conduzem a tentar fazer de São Paulo palco de uma guerra ideológica que não serve nem a ele e nem a São Paulo e ao Brasil.

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O presidente e o PT vão apoiar a candidatura do deputado Guilherme Boulos.

O candidato a prefeito apoiado pelo presidente Lula usou o que pôde, de argumentos muito duros e de adjetivos muito fortes, contra o próprio presidente e seu partido. Era um homem que liderava os movimentos de sabotagem contra o governo da presidente Dilma, principalmente nos eventos da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Tinha como alvo o governo e o próprio PT.

É essa a candidatura que vai representar a capacidade de unir São Paulo e o Brasil? Não creio. Aliás, acho muito estranho que, depois do que o Boulos disse do PT e do presidente Lula, ele consiga receber esse apoio. A tentativa de Boulos sempre foi a de substituir o PT como o grande partido das forças progressistas do Brasil. E se fosse necessário destruir o PT, não foi poupada nenhuma energia nesse sentido.

(Boulos) era um homem que liderava os movimentos de sabotagem contra o governo da presidente Dilma, principalmente nos eventos da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Tinha como alvo o governo e o próprio PT

Aldo Rebelo

Como o senhor avalia a relação do governo Lula com os militares após a tentativa de golpe do 8 de janeiro? Parte da esquerda viu uma oportunidade de punir os militares e reformar as Forças Armadas, mas houve sinalizações de apaziguamento por parte do governo.

É a agenda do revanchismo. O golpe de 64 foi resultado de uma ampla aliança que envolveu os partidos políticos, governadores, mundo empresarial, a Igreja católica e a grande imprensa. Os militares entraram por último na articulação do golpe. Só que todo mundo foi saindo do golpe. Os empresários, os intelectuais, a Igreja saíram e se reuniram para depositar toda a culpa em cima dos militares. Isso permanece até hoje.

Desacreditar as Forças Armadas é um erro muito grave que, lamentavelmente, setores importantes do governo, com a complacência do Palácio e do próprio presidente Lula, insistem em fazer. Os integrantes das Forças Armadas podem ter cometido os seus erros, mas dizer que as Forças Armadas, como instituição, participaram de articulação golpista, não é verdade.

Não tem absolutamente nenhuma relação com a realidade esse tipo de atribuição. É como se a Guerra Fria, mesmo depois de seu fim, continuasse ainda a dividir o país ao meio, e acho que tem gente que se beneficia dessa divisão e faz todo o esforço para que ela se perpetue.

Mas os militares voltaram a ganhar espaço no Executivo no governo Bolsonaro e tiveram desempenho muito questionável em diversas áreas, como o general Pazuello no comando do Ministério da Saúde. Isso por si só não prejudica a imagem das Forças Armadas?

A presença de militares em governos civis não é uma novidade. Eu mesmo quando fui ministro do Esporte indiquei o general Fernando Azevedo e Silva para comandar a Autoridade Pública Olímpica e ele foi nomeado pela presidente Dilma. Depois, ele veio a ser ministro da Defesa do presidente Bolsonaro.

Os servidores militares têm a tradição de ocupar funções civis com muita competência. Agora, se as forças políticas imaginam usar politicamente os militares é uma outra coisa completamente diferente. E isso não justifica que se arme uma ofensiva contra os militares.

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O presidente Bolsonaro fez as suas indicações, mas nenhuma delas saiu das Forças Armadas. Não foi o ministro da Defesa, o comandante da Marinha ou o comandante do Exército que as fizeram. Foram indicações feitas pelo presidente da República.

Hoje, infelizmente, isso está sendo usado para a luta política contra as Forças Armadas, porque as instituições civis têm interesse em disputar esse espaço político com as instituições armadas. É uma espécie de luta por influência e poder. Nessa disputa, acho que as Forças Armadas têm muito mais compromisso com o interesse nacional, a memória e os valores do nosso país. Os seus erros devem ser avaliados, se seus integrantes cometeram erros devem ser punidos, mas isso não deve alcançar a instituição.

Nessa disputa (entre civis e militares, por influência), acho que as Forças Armadas têm muito mais compromisso com o interesse nacional, a memória e os valores do nosso país.

Aldo Rebelo

O senhor ficou 40 anos no PCdoB, mas desde 2017 já passou por PSB, Solidariedade e PDT. O que mudou: suas ideias ou o cenário político?

Durante esses 40 anos, as minhas convicções, crenças e valores não foram alterados. Desde muito jovem sou nacionalista e tenho grande admiração pelos heróis que construíram o Brasil e pelos valores e memórias brasileiros. Participei do movimento estudantil e nas minhas passeatas sempre levava uma bandeira do Brasil. O meu nacionalismo, meu apreço pela justiça social, pelos direitos sociais, como escola e saúde públicas, pelos direitos dos mais humildes são uma convicção, assim como a convicção democrática.

Essas convicções continuam. Agora, eu acho que houve uma mudança na esquerda, que abdicou dos valores nacionais, da questão nacional, e trocou essa ideologia do nacional, do democrático, e do popular por essa nova ideologia que é baseada na biologia, na raça e no gênero. Nas reivindicações individuais e não nas reivindicações coletivas. Nos direitos individuais e não nos direitos coletivos.

Na minha opinião, foram as circunstâncias que mudaram. Eu continuo com as minhas crenças.

O senhor é apontado como próximo do grupo Nova Resistência no PDT, classificado como neofascista em um relatório do governo dos Estados Unidos revelado pelo jornal O Globo e como uma ameaça à segurança nacional pelo Banco Central. Qual é a relação do senhor com esse grupo?

Eu sou convidado para fazer palestras para muitos públicos e sempre aceito. O grupo Nova Resistência me convidou para fazer e, pelo que eu tenho conhecimento, é um grupo nacionalista. Agora, no Brasil e no mundo há uma tentativa de se classificar o nacionalismo como sendo uma ideologia conservadora e alguns classificam mesmo como fascista.

Não fazem a distinção entre o nacionalismo agressivo das nações fortes, esse sim um nacionalismo dominador que é uma ameaça à democracia, do nacionalismo das nações frágeis e emergentes, que querem apenas se proteger do nacionalismo dos fortes.

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Foi o nacionalismo que permitiu o processo de descolonização da África, que orientou a independência das colônias portuguesas e espanholas e que permitiu que as nações mais fracas construíssem o seu projeto nacional. E esse nacionalismo não caducou. Ele ainda permanece como uma causa atual e importante e esse é o nacionalismo que eu defendo.