Quem é Queiroz: Amizade com Jair Bolsonaro o levou ao gabinete de Flávio

O suboficial da PM conheceu o presidente na Brigada de Infantaria Pára-Quedista, na Vila Militar, no Rio, onde serviram nos anos 80

PUBLICIDADE

Por Wilson Tosta
4 min de leitura

RIO - Fabrício José Carlos de Queiroz foi levado para a política pelo amigo e hoje presidente da República Jair Bolsonaro, mas chegou ao noticiário policial por sua proximidade com o filho "Zero Um" da "Primeira Família". Foi no gabinete do hoje senador Flávio Bolsonaro (Republicanos) na Assembleia Legislativa, onde o parlamentar começou sua carreira em 2003, que o suboficial da PM do Rio supostamente se envolveu em uma prática criminosa: a rachadinha. 

O então deputado Flávio Bolsonaro com seu assessor Fabrício Queiroz Foto: Reprodução

Nomeado, por indicação de Jair, para um cargo de confiança na assessoria de Flávio, Queiroz, suspeita o Ministério Público do Rio, recolhia a maior parte dos salários dos colegas para repassá-los ao chefe. Este lavaria a soma desviada em imóveis e em uma franquia da rede Kopenhagen.

Queiroz é um dos muitos PMs e militares que orbitam os mandatos dos Bolsonaros desde os anos 80 do século passado. Conheceu Jair no Exército, na Brigada de Infantaria Pára-Quedista, na Vila Militar, no Rio de Janeiro, onde serviram, nos anos 80. Depois, separam-se por alguns anos. Jair virou vereador, deputado federal e, mais tarde, ícone e influenciador da ultra-direita brasileira. Queiroz foi para a PM , onde chegou a suboficial. Voltaram a se juntar quando o amigo Jair o indicou para assessorar o filho inexperiente na Alerj. Oficialmente, Queiroz, que foi para a reserva em 2018, era motorista do parlamentar, mas, na prática, era um faz-tudo da familia.

O esquema da suposta rachadinha começou a ser desnudado em 2018, por causa das operações Cadeia Velha e Furna da Onça, da Polícia Federal, sobre corrupção na Alerj. Flávio não foi investigado nessas ações, mas a Cadeia gerou um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que apontava movimentações suspeitas de parlamentares e servidores. Um deles era Queiroz. Como esses crimes eram de âmbito estadual, as investigações foram encaminhadas ao MP do Rio, ainda em 2018. A existência do relatório e da investigação foi revelada com exclusividade pelo Estadão.

A Furna aconteceu em novembro, entre os dois turnos das eleições. Antes de sua deflagração, Queiroz e sua filha, Nathalia Mello de Queiroz, foram exonerados - ela da assessoria de Jair na Câmara dos Deputados, em Brasília.As demissões geraram suspeita de vazamento da operação. Um dos apoiadores da candidatura do hoje presidente,o empresário Paulo Marinho, afirmou em 2020 que Flávio lhe disse ter recebido de um delegado federal, com antecipação, a informação de que a Furna da Onça aconteceria e que Queiroz era investigado. O objetivo das exonerações seria evitar abalos na campanha de Jair Bolsonaro, que disputava o segundo turno com Fernando Haddad (PT). PF e MPF investigam se a informação vazou. Flávio diz que Marinho, por seu ser suplente no Senado, quer a sua cassação e mente. 

Continua após a publicidade

Os Bolsonaros tinham razões para se preocupar com Queiroz. O relatório do Coaf mostrava que, em 13 meses, o modesto assessor, dono de imóveis no subúrbio, movimentara mais de 1,2 milhão em sua conta. Nela, seus colegas de gabinete depositavam a maior parte do que ganhavam, todo mês, geralmente em datas próximas do pagamento na Alerj. O Coaf também detectou que da conta saíram pelo menos R$ 24 mil, transferidos para Michele Bolsonaro, hoje primeira-dama, mas na época assessora do então deputado federal Jair Bolsonaro. O presidente alegou que o dinheiro era pagamento de um dívida que Queiroz tinha com ele, feitona conta de Michele.

O ex-assessor prestou depoimento por escrito ao MP, depois de faltar a várias convocações. Atribuía a conta bancária gorda a comércio de veículos e, depois, ao recolhimento dos salários para redistribuí-los a uma suposta rede maior de empregados. A ação, que visaria a aumentar a capilaridade do mandato de Flávio, pagado cabos eleitorais em comunidades, ocorreria sem oconhecimento do então deputado estadual. Nunca provou nada disso.

Ainda na PM, o PMconheceu outro personagem da trama. Era o miliciano Adriano da Nóbrega, com quem respondia a processo pela morte de um homem na Cidade de Deus, em 2003, em suposto auto de resistência.O "Capitão Adriano" foi expulso da PM em2014. Procurado no Rio por supostamente chefiar a milícia Escritório do Crime, foi morto emfevereiro de 2020 por PMs em Esplanada, na Bahia. Entre os muitos ex-assessores investigados por suposto envolvimento na rachadinha, estão a mãe e a ex-mulher de Adriano, respectivamente Raimunda Veras Magalhães eDanielle Mendonça. Foram contratadas por indicação de Queiroz, segundo ele admitiu. Tanto o ex-assessor como o senador sempre negaram irregularidades.

Desde que surgiu na cena política, Queiroz é visto como uma espécie de homem-bomba do bolsonarismo. “O MP está com uma pica do tamanho de um cometa para enterrar na gente, e não vi ninguém agir”, afirmou, em outubro de 2019, em conversa gravada e vazada, antecipando a tempestade que se armava. Há muito, "Cadê o Queiroz?" virou bordão da oposição. Em vídeo recente, dirigido ao ex-aliado, governador Wilson Witzel (PSC), Flávio, que chegou a dizer que o caso era responsabilidade exclusiva do ex-assessor, elogiou-o: "Você ficava ligando para o Queiroz para correr atrás de mim na campanha. Sabia que o Queiroz estava do meu lado. Um cara correto, trabalhador, dando sangue por aquilo que acredita", afirmou, sinalizando proximidade do ex-faz-tudo.

Flávio, Queiroz e outros ex-assessores estão de fato próximos. São acusados em investigação de peculato (desvio de dinheiro público por servidor), lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.