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Opinião|As Malvinas venezuelanas e a farsa do chavismo

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Em abril de 1982, quando a Argentina atravessava uma severa crise econômica, retrato das consequências dos choques ocorridos na década anterior, principalmente atrelados ao crescimento do barril do petróleo, o ditador Leopoldo Galtieri decidiu declarar guerra contra a Inglaterra para reaver um território perdido no século XIX. A chamada “Guerra das Malvinas” foi uma tentativa frustrada de reaquecer o apoio da sociedade argentina em relação ao regime ditatorial, que havia elevado a dívida do país de forma exponencial, em apenas seis anos.

Victor Missiato Foto: Instituto Presbiteriano Mackenzie/Divulgação

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Quase 40 anos depois, um novo líder avesso aos valores democráticos poderá utilizar o instrumento da guerra como forma de eclipsar os diversos problemas sociais e econômicos de seu país. Trata-se de Nicolás Maduro, um controverso político, que já utilizou diversos malabarismos institucionais para se perpetuar no poder.

Diversas são as razões para que Maduro, nessa atual conjuntura, comece uma escalada militar contra a Guiana. A popularidade e a legitimidade do chavismo vêm caindo ano após ano, apesar das contestadas vitórias eleitorais. Alguns índices nos auxiliam a compreender tal perspectiva.

A violência na Venezuela atingiu dados alarmantes na última década, saltando de 19,54 mortes por 100 mil habitantes para 40,9 em 2022, de acordo com o Observatório Venezuelano da Violência (OVV). Dos quase 30 milhões de venezuelanos, um quinto encontra-se refugiados em outros países. Somente no primeiro semestre de 2023, a inflação já superou a casa dos 100%. Nos últimos anos, o IDH da Venezuela despencou, passando de 0,761 em 2017 para 0,726 em 2021, sendo superada por Equador (0,758), Brasil e Colômbia (0,761 cada).

Diante de tamanha catástrofe, Maduro recorre a uma velha prática de governos autoritários em situação de decadência: criar um inimigo externo para desestabilizar a política interna e reagrupar uma nova situação de apoio político. Prestes a concorrer a um novo processo eleitoral, Maduro já considera o território guianês de Essequibo como território venezuelano, nomeando um interventor para região e desenhando um novo mapa territorial.

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Utilizando-se da verborragia anti-imperialista, que ainda atrai algumas almas perdidas na América Latina, Maduro desconsidera o movimento de independência da Guiana e seus acordos econômicos com várias empresas petrolíferas, o que acabou por gerar um dos maiores crescimentos econômicos do mundo na última década. O interessante é perceber que o discurso anti-imperialista de Maduro e seus apoiadores sempre foi em relação a presença dos EUA e Inglaterra no controle do petróleo em várias regiões do mundo. Pois bem, os interesses venezuelanos são justamente referentes ao acesso ao petróleo da Guiana.

Existe a possibilidade de mais um devaneio chavista manter-se no plano dos discursos populistas, mas nenhuma ameaça deve ser desconsiderada. Resta-nos apropriarmos novamente de uma velha frase de Karl Marx, quando este complementa um pensamento de Hegel, aludindo ao fato de que grandes acontecimentos ocorrem duas vezes na História, primeiramente como uma tragédia e, depois, como farsa. Que Essequibo não se transforme em uma nova Malvinas.

*Victor Missiato, analista político, doutor em História Política e professor do Colégio Presbiteriano Mackenzie (CPM) - Tamboré

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