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Opinião|Como se desenvolve um corrupto no Brasil?

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Atualização:

O Brasil não é o país mais corrupto do mundo. Segundo levantamento do Índice de Percepção da Corrupção (IPC), divulgado pela Transparência Internacional, em janeiro de 2023, o país ocupava o 94º lugar entre 180 países. Em uma escala de 0 a 100, onde 0 representa um país “altamente corrupto” e 100 significa “muito íntegro”, o Brasil marcou 38 pontos. Etiópia, Tanzânia, Marrocos e Argentina obtiveram a mesma nota.

Victor Missiato Foto: Inac/Divulgação

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Chama a atenção o fato de Brasil e Argentina possuírem a mesma impressão acerca da presença da corrupção em seu cotidiano. Recentemente, ambos os países também obtiveram uma nota similar no PISA, exame internacional e comparativo, que ilustra a qualidade do ensino entre os países. E o resultado final também foi melancólico em relação às expectativas para um bom sistema educacional e formativo.

Embora esses rankings nos auxiliem a ter uma dimensão global dos nossos problemas, faz-se necessário dimensionar as práticas comuns da vida em sociedade, a fim de percebermos onde e como trabalhamos para manter esses números, que correspondem a uma sociedade extremamente violenta, desigual e miserável em várias regiões do país.

A começar pela educação das crianças brasileiras, é muito comum ver a lei da compensação em seu desenvolvimento cognitivo. Desde cedo, vários jovens aprendem que para ganhar algo é necessário realizar determinadas tarefas em prol de sua conquista. Não se trata de ensinar a importância republicana de cuidar de uma casa, mas sim a importância de uma nota ou um comportamento representar um valor de troca. Durante 15 anos, a criança e o jovem brasileiro participam de um sistema de competição baseado em avaliações não meritórias e tendenciosas. Se o sistema capitalista é corrupto por natureza, segundo grande maioria dos professores, transgredi-lo torna-se uma própria metodologia de trabalho. Quase nenhum país do mundo cria dezenas de artigos acadêmicos para analisar seu “jeitinho”.

Como professor, em 11 anos de sala de aula, sempre senti maior atenção de todo o coletivo quando a nota final está prestes a ser publicada. Da escola pública da periferia aos lugares mais ricos do país, a nota, as faltas, a cola, a cópia do trabalho sempre pautaram o fazer do aluno e o punir do professor em escalas congruentes. Esse cidadão aprende diversos mecanismos para driblar a nota ao invés de compreender a escola como um espaço de formação civilizacional. Quando saem desse espaço, o que lhes resta é cruzar o sinal vermelho ou burlar a Receita Federal.

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Se a vigilância e a punição permitem tais brechas, quando a luz se apaga, pichações, arrombamentos, violências domésticas se estendem aos atos referentes à compensação da satisfação: um roubo, um assalto, um estupro, um desvio de dinheiro de obra pública, um superfaturamento, uma rachadinha, um mensalão. Isso não escapa nem os concursos públicos, que quando vão escolher um professor para a universidade, muitas vezes optam pelo profissional mais próximo da linha metodológica do programa. Afinal de contas, no Brasil, a lei serve para combater o inimigo.

Não há espaços para driblar esses mecanismos de corrupção, quando o poder desmantela qualquer tentativa de combater esses atos. A Lava Jato sofreu o mesmo destino dos Jacobinos. As rachadinhas e mensalões foram institucionalizados como orçamento secreto. Todo condomínio a ser construído em áreas nobres e disputadas deve reservar alguns milhões de reais para não sofrer qualquer tipo de embargo durante sua construção. O cenário é tão institucionalizado, que diversas empresas nacionais e internacionais, reservam milhões de reais para pagar eventuais multas que serão cobradas em supostos casos de subornos e ato de corrupção.

Portanto, quando alguém vem fazer negócio no Brasil, sempre é recomendável fazer uma caixinha para a corrupção, assim como antes do PIX, sempre era recomendável andar com dinheiro no bolso para pagar o flanelinha na rua para que não quebrasse o seu carro ao estacionar no espaço público. Afinal de contas, sempre tem uma rua para ser asfaltada de dois em dois anos, pois ao invés de três centímetros previstos no contrato de pavimentação, apenas dois foram colocados. Quem vai medir e cobrar isso quando a rua for reutilizada?

*Victor Missiato, doutor em História (UNESP/Franca), professor e pesquisador do Instituto Presbiteriano Mackenzie, campus Tamboré

Este texto reflete única e exclusivamente a opinião do(a) autor(a) e não representa a visão do Instituto Não Aceito Corrupção (Inac). Esta série é uma parceria entre o Blog do Fausto Macedo e o Instituto Não Aceito Corrupção. Os artigos têm publicação periódica

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