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Opinião|Ecologia é lucro

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convidado
José Renato Nalini Foto: Alex Silva/Estadão

O mundo piora a cada instante, porque não nos damos conta de nossa vulnerabilidade. Animais considerados racionais, os humanos continuam a poluir, a emitir gases venenosos, a desmatar, a impedir que essa aventura milagrosa – a existência – possa prosseguir.

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A frequência com que fenômenos climáticos extremos ocorrem não foi suficiente para trazer juízo à humanidade. Esta insiste em combustíveis fósseis, em eliminar a cobertura vegetal das derradeiras florestas, a tornar o mar um depósito de partículas plásticas.

A única fórmula de fazer o ambicioso acumulador de bens materiais se interessar pela natureza é mostrar que ela é sinônimo de lucro.

Sim. Convencer os poderosos a compensar a emissão de poluentes que resulta de sua insanidade. Um crédito de carbono representa a não emissão de certa quantidade de dióxido de carbono à atmosfera. Uma tonelada desse veneno recuperada é igual a um crédito de carbono.

Esse crédito pode ser comprado ou gerado com reflorestamento, manejo sustentável do solo, adoção de sistemas agroflorestais, troca de matriz energética e de outras maneiras ainda. O processo é singelo. Um agricultor planta árvores e pode receber dinheiro de empresas para que as emissões de carbono que elas produzem sejam compensadas por esse reflorestamento.

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Infelizmente, o Brasil tarda em regulamentar esse mercado. Fala-se muito em “revolução verde”, em “agenda verde” da economia. Mas o assembleísmo impede que se efetive essa providência tão urgente quanto imprescindível. O núcleo central deveria partir do Ministério do Meio Ambiente, que precisaria convocar a Universidade, os cientistas, os institutos de pesquisa e de desenvolvimento do saber a elaborarem um projeto viável. Em vez disso, invoca-se o chamado “Conselhão”: Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável. Formado de mais de duzentas e quarenta pessoas.

Todos sabem que a melhor medida para procrastinar indefinidamente a tomada de uma decisão é recorrer a uma Comissão. Se isto não dá certo para grupos menores, o que pensar dessa composição heterogênea de pessoas chamadas a opinar sobre quase tudo, sendo que algumas delas não sabem quase nada?

As promessas podem parecer edificantes. Por exemplo: uma parcela da captação resultante da venda de créditos de carbono se destinará ao Fundo do Clima. O propósito desse Fundo é financiar projetos, estudos e empreendimentos para a redução da emissão dos gases causadores do efeito estufa. Existe, ainda, um Plano de Transformação Ecológica – PTE, com mais de cem ações mapeadas em seis distintos eixos.

Fala-se também numa consulta pública sobre taxonomia, um manual de classificação para avaliar quais os setores que de fato atendem às exigências da agenda ESG, no trato simultâneo e harmônico de demandas ambientais, sociais e de governança.

Só que tudo isso tramita no plano das ideias. O governo ainda não sabe como encaminhar ao Congresso um projeto que mereça análise rápida e aprovação garantida. Já existe no Senado, hoje na Comissão do Meio Ambiente, uma proposta cuja relatora é a senadora Leila Barros – PDT-DF. Nela se propõe fiquem sujeitas ao mercado regulado as instalações que emitam acima de 25 mil toneladas de CO2 por ano. O setor da indústria será o mais afetado.

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Mas é possível compensar a emissão com reflorestamento. De acordo com todas as informações disponíveis, existe uma imensa área suscetível de ser reflorestada e integrada por pastagens abandonadas. São espaços ociosos, que já sofreram a ação da insensatez humana. Queimada, cana-de-açúcar, soja, capim e deserto. Essa a rota de utilização pouco inteligente do solo brasileiro.

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Se essas glebas fossem reflorestadas, haveria redução nas emissões, possibilidade de venda dos créditos de carbono excedentes, melhoria no regime pluviométrico, recuperação das matas ciliares, recomposição de fauna e flora hoje ameaçadas de extinção.

A receita está aí. Pronta e possível de ser implementada. Falta é vontade, falta é consciência, falta é responsabilidade. Quando é que o empresário brasileiro se convencerá de que ecologia é lucro e que ele poderá ganhar mais sem destruir do que eliminando a vida e qualquer esperança de futuro neste maltratado, sofrido e espoliado planeta?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário-geral da Academia Paulista de Letras

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