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Meditação vigilante

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Por José Renato Nalini
José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO  Foto: Estadão

A véspera do Natal é de vigília e meditação. Para as crianças, a expectativa dos presentes que fizeram por merecer. Para os adultos, memorizar se todos foram lembrados, a programação da ceia, os convites, tanta coisa que é capaz de se deixar de lado o aniversariante.

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Antigamente, a missa do galo era mesmo à meia noite. Igrejas repletas, em tempos de não-violência. Quando se podia caminhar pelas ruas despreocupado. Se havia passos em aproximação, pensava-se: "Que bom, vou ter companhia!". Hoje é tudo diferente. Mas o Natal é o mesmo. Há mais ou menos dois mil e vinte e dois anos.

Por isso a véspera sugere pensar o que foi aquela noite em Belém da Judeia. Um casal cumpridor de seus deveres, atendeu à convocação para o recenseamento a ser feito longe da cidade em que residia: Nazaré. A esposa, prestes a dar à luz, enfrentou a viagem no lombo de um burro, até chegar a Belém, inteiramente tomada por outros judeus que ali se apresentariam perante as autoridades.

Depois de procurar por várias estalagens, já noite alta, José só encontrou espaço numa estrebaria. Acomodou a mulher como foi possível e ali ela deu à luz. Contam os evangelistas que anjos surgiram e proclamaram: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade". A paz é para todos os homens ou só para os de boa vontade? Estes têm condições de encontrar a verdadeira paz em suas consciências. Aquela que independe de fatores externos. Alto grau de aprendizado meditativo. Poucos os que realmente conseguem.

Mas a vigília natalina oferece a oportunidade de imaginarmos o que foi para Maria e José aquela expectativa. Ela era jovem. Havia sido alertada de que seria a mãe do Messias. Poderia aguardar que ele nascesse com pompas e circunstâncias. Mas se vê numa cocheira rústica, acompanhada de animais do pasto. Sem um berço, sem os cuidados mínimos que um recém-nascido merece: uma parteira, um obstetra, o corte do cordão umbilical, a higienização com tantos produtos antissépticos ao alcance das mamães de hoje.

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O que terá pensado Maria? Quais os pensamentos que habitaram a consciência de José? Como reagiram ao anúncio dos anjos? Qual a sua reação a receber a visita dos magos do Oriente? Anteviram o que seria a experiência da maternidade/paternidade do Messias?

Raramente se coloca a questão de perscrutar a mente dos pais de Jesus. Entretanto, são os pais do aniversariante. Protagonistas fundamentais na História da Cristandade.

Boa parcela do planeta se considera cristã. Mas está longe de se comportar como povos cristãos. Pois o ensinamento básico, a síntese de todas as lições proferidas pelo Cristo em sua vida pública, foi "Amai o Senhor Deus, com todas as forças, com todo o fervor, e ao próximo como a ti mesmo". Parece fácil amar a Deus, o "espírito perfeitíssimo, eterno criador de todas as coisas", mas é difícil amar ao próximo. Este ser que tanta vez nos incomoda, nos perturba, nos critica, nos atormenta.

Entretanto, o recado cristão é a "regra de ouro" para toda a humanidade: amar o semelhante, respeitar o próximo, acolher a alteridade como princípio, serve para todas as pessoas. As religiosas, as não religiosas, as agnósticas, as ateias. Passou a ser um mandamento cívico. Uma ordem fundante, incluída de maneira expressa nos pactos que legitimam o convívio civilizado.

A Constituição Cidadã, de 5.10.1988, acolheu como princípio norteador, um verdadeiro supraprincípio, a dignidade da pessoa humana. Isso inclui a fraternidade, que o constituinte brasileiro erigiu à condição de categoria jurídica.

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Algo que está na índole de uma sociedade que se autodenomina cristã e que passou a fazer parte da Constituição da República, o ordenamento que nos rege e ao qual devemos observância e respeito.

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Nesta véspera de Natal, pensemos na legião dos nossos irmãos que não fruem desse direito à dignidade humana. Que não têm por si o mínimo existencial caracterizador da dignidade. Que passam fome! Que não têm teto! Que não têm saneamento básico! Que não têm trabalho ou ocupação garantidora da subsistência própria e daqueles que deles dependem para sobreviver.

O que temos feito, como cristãos, para eliminar essa permanente chaga nesta Nação que nasceu sob inspiração e aura protetiva da Santa Cruz, signo que marcou a passagem terrena de Jesus de Nazaré, cujo nascimento logo mais celebraremos. Quais os nossos projetos para tornar o Brasil aquela Pátria fraterna, justa e solidária, em que se erradique a miséria, se reduza a pobreza, se elimine o preconceito e toda forma de iniquidade?

Boa véspera de Natal para todos os humanos que ainda têm aquela boa vontade evangélica.

*José Renato Nalini é docente do Programa de Pós-graduação da Uninove, Mestre e Doutor em Direito Constitucional pela USP e advogado militante

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