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Opinião|O contratador de diamantes

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Atualização:

Felisberto Caldeira Brant, paulista que foi atraído para as minas e fez história, é o exemplo de injustiçado por que deu certo. À sua maneira, lembra Mauá. O Brasil não perdoa o sucesso.

Já havia explorado ouro em Paracatu do Príncipe e se viu atraído para a descoberta de diamantes do Tejuco. Foi para lá, com família e famulagem e mostrou-se liberal, pois obedecia às naturais inspirações do generoso instinto. Compreendeu logo o grau de odiosidade do contrato de extração. O apetite de El Rey era crescente e insaciável. Para controlar a cata dos diamantes, editava previdentes e meticulosos regimentos, resoluções, ordens e portarias, disposições que impunham penas odiosas. Isso acarretava a desgraça dos infelizes mortais. O direito que cada um julgava ter, de apanhar na terra, ainda que na que era sua, aquilo que a terra lhe desse, era confiscado, roubado, espoliado e entregue, sem cerimônia nem satisfação, ao fisco.

José Renato Nalini Foto: Daniela Ramiro/Estadão

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Hão podia haver iniquidade mais clamorosa, usurpação mais injusta. Isso foi o que Felisberto encontrou, quando se dispôs a minerar a pedra preciosa. Contrato leonino, foi assinado sem grande exame e discussão. Felisberto havia adquirido grande e boa fama. Depositou tanto ouro nos cofres da Intendência que foi dispensado de fiança ou caução. O contrato duraria de 1º de janeiro de 1748 a 31 de dezembro de 1751.

Contrapunha-se a isso a tradicional generosidade de Felisberto. O tempo dos Caldeiras restou na memória agradecida dos povos como o de sua melhor fortuna. Ninguém era perseguido e como o fisco acreditava nos Caldeiras para estrita observância de suas regras, os fiscais e dragões da Intendência deram paz aos demais mineradores.

Mas não há bem que sempre dure, sabiam todos. Os moradores do Tejuco tiveram o seu momento de vida regalada. Se a fortuna dos Caldeiras tomou proporções fabulosas, a todos coube partilhar de sua boa estrela. Mas em fins de 1750, sabedor o fisco do que se passava na demarcação, ordenou prontas e decisivas providências para por termo ao anormal estado de coisas. O Erário se sentia fraudado. E o Governador Gomes Freire de Andrade foi ele mesmo ao Tejuco. Verificou que grande número de portarias e ordens não tinham sido registradas, nem publicadas e algumas havia que ainda se achavam fechadas nos primitivos invólucros, lacrados e intactos.

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Demitiu funcionários e voltou-se ao tempo da caça às bruxas. O inimigo era Felisberto Caldeira Brant. Ele que desautorizara El Rey.

Por circunstâncias inexplicáveis, houve roubo no Cofre da Intendência, onde se guardava o produto das lavras do contrato e onde estava em depósito, grande quantidade de diamantes e de ouro pertencente a Felisberto. Nunca se soube, nem se procurou saber quem foram os ladrões. O governo lançou boatos de que teria sido o próprio Felisberto o autor da façanha, para furtar-se ao pagamento de suas prestações à Real Fazenda.

O enorme desfalque na fortuna do contratador trouxe embaraço para satisfazer avultados compromissos. Por esse tempo já governava Portugal o voluntarioso Sebastião José de Carvalho, depois Marquês de Pombal. Ele não admitia que um brasileiro, paulista-mineiro, disputasse a primazia em fortuna e reconhecimento social.

Valeu-se ele de que em janeiro de 1753 entrou no Tejo a frota do Brasil trazendo milhões de réis de letras sacadas por Felisberto e que deveriam se satisfeitas. Por causa do roubo, impossível o provimento de fundos para a satisfação dos compromissos. Pombal ordenou o imediato protesto das letras, fazendo de Felisberto um devedor insolvente. Foi considerado falido. Caíra em desgraça, por causa da inveja dos governantes de plantão. Houve participação de pessoas que queriam a queda do contratador, para assumir a exploração em seu lugar. Pessoas que souberam reforçar, junto a Pombal, a má vontade que ele já demonstrara em relação ao Contratador de diamantes mais famoso do Brasil.

Não se conferiu a Felisberto Caldeira Brant a oportunidade de comprovar que Felisberto ainda possuía 257.271 quilates em diamantes, o que seria suficiente para saldar a dívida. O plano era, realmente, acabar com sua fama e com sua dinastia.

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Coisa que, no Brasil de hoje, felizmente já não acontece.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário-geral da Academia Paulista de Letras

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