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Opinião|O que falta para descarbonizar o Brasil?

O desafio da descarbonização insere a sociedade em um amplo e complexo debate. O tema tem avançado de forma intrínseca e permanente nos mais variados campos da economia e se tornado urgente na pauta política. Ou, assim deveria ser, uma vez que, em qualquer que seja o setor, a busca pela manutenção e sustentabilidade de um ecossistema baseado em produção, e que segue aquém aos diferentes cenários sociais e ambientais, é o que dificulta a eficiência de ações que almejam reduzir a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera, representados pelo dióxido de carbono (CO2). O impacto é imediato na confiabilidade das iniciativas, o que faz com que muitas dúvidas surjam, tanto para quem atua no próprio meio, quanto para quem vê o que acontece de fora.

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Será que é possível fazer do Brasil um país descarbonizado? E como isso pode acontecer dentro do tempo proposto pelos programas nacionais e exigido pelas metas internacionais? A emergência em enfrentar as mudanças climáticas, um imperativo global, é o que intensifica a discussão. Como uma das potências emergentes, não estamos isentos. Pelo contrário, é esperado muito do nosso país. Esperança, aliás, que se concentra em praticamente um único sentido: salvar e recuperar a floresta amazônica. Mas, além dessa, existem outras necessidades nos demais biomas e nas múltiplas realidades desta nação.

Partindo de uma análise quase que cronológica que investiga a raiz do problema, nos deparamos com métricas que contabilizam as maiores emissões. Para o mundo, são as fontes fósseis de energia e combustíveis - a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 28) deixou claro que a erradicação dessa base energética é necessária. No Brasil, o conflito se instala na ocupação do solo. É aqui que encontramos o grande desafio, porque a maior parcela de CO2 é gerada no setor de mudança de uso do solo, no desmatamento e na não recuperação vegetal derivada do agronegócio, que, hoje, é responsável por uma das maiores contribuições do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Porém, atacar somente a substituição do uso do solo, por si só, pode então se mostrar uma alternativa não tão eficiente.

A saída seria uma política agregadora que compartilhasse o conhecimento dos tomadores de decisão e seus corpos operacionais com quem já é afetado pela mudança climática há tempos. Ou seja, um ordenamento estratégico para unir as viabilidades econômica, social, ambiental e técnica nas políticas de descarbonização, convergindo-as em um mesmo propósito: o de tornar as soluções em prática. Isso, sim, pode ser mais eficaz. Temos um exemplo de dentro de casa na geração de energia por fontes sustentáveis, campo no qual o Brasil é referência por suas hidrelétricas e reconhecido por seu potencial solar e eólico. Agora, mais ainda, com a disseminação da microgeração de energia fotovoltaica em residências possibilitada a partir da regulamentação de um mercado que provocou o incentivo financeiro e a popularização da alternativa.

Sabemos o que pode ser feito e sabemos também como isso pode ser feito. O meio do caminho entre uma coisa e outra é o que nos falta descobrir e quanto tempo levará entre elas. Podemos dizer até que essa ponte que nos levará de projetos a resultados está na área tecnológica e na criação de incentivos e subsídios, que devem ser previstos em novas políticas públicas e na operacionalização das já existentes. Foi disso que tratou o 5º Encontro Paulista de Engenharia Ambiental. O evento possibilitou uma troca de experiências e conhecimentos com o intuito de gerar respostas, ou, ainda, as rotas para elas. O consenso é de que há alternativa, há projeto, há tecnologia, há política pública e há capacidade técnica para desenvolver o país de forma sustentável, recuperando áreas e gerando emprego e renda em contrapartida, mas não há governança. O que nos leva a acreditar que a verdadeira revolução ambiental do Brasil depende do comprometimento efetivo de todos os agentes interlocutores em repensar e reorganizar ações para o coletivo.

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A chave está na conexão das políticas públicas nacionais, com as estaduais e até as subestaduais e na viabilização econômica das mesmas. A discussão, que é pautada pelo Hemisfério Norte, já flui para um processo de tropicalização e, agora, deve caminhar para o financiamento climático. Assim como feito com a democratização da geração de energia limpa, esta gestão possibilitará que a descarbonização deixe de ser um assunto político para que faça parte do dia a dia das pessoas. Quando chegarmos nisso, estaremos prontos para fazer deste um país descarbonizado.

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Foto do autor Elisa da Costa Guida
Elisa da Costa Guidasaiba mais
Maria Marta Vasconcelossaiba mais
Maria Rita Zampierisaiba mais

Elisa da Costa Guida
Engenheira ambiental, especialista em Projetos Sustentáveis, Mudanças Climáticas e Mercado de Carbono e mestre em Planejamento de Sistemas Energéticos
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