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Opinião|Os ossos de Feijó

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Todo brasileiro alfabetizado sabe quem foi o Padre Diogo Antonio Feijó. Ele também é conhecido como Regente Feijó. Filósofo, sacerdote católico e estadista brasileiro. Consideram-no um dos fundadores do Partido Liberal. Nasceu em São Paulo, a 17.8.1784 e aqui faleceu em 10.11.1843. Exerceu o sacerdócio em Santana do Parnaíba, em Guaratinguetá e em Campinas. Presidiu o Senado Brasileiro entre 1839 e 1840 e foi Ministro da Justiça entre 1831 e 1832.

José Renato Nalini Foto: Daniel Teixeira/Estadão

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Exerceu a Regência Una entre 1837 e 1839, em período grave para a nação. Eclodiram várias rebeliões separatistas em todo o Brasil. Revolta Farroupilha no Rio Grande do Sul, Revolta dos Cabanos no Pará, a Balaiada no Maranhão, a Revolta dos Malês e a Sabinada na Bahia. Feijó sustentava a extinção do celibato clerical.

Uma vida exuberante em acontecimentos e em lendas. Estas perduraram, muito além da morte de Feijó. Foi assim que, na inauguração da estátua de Feijó em São Paulo, em 1913, Armando Prado elogiava o homenageado, afirmando que era também poeta. Para prová-lo, declamou um soneto de título “Refugium Pecatorum”, atribuído a Feijó:

O coração que chora resignado,

Tendo perdido as ilusões da vida,

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Como pássaro, em busca de guarida,

Acode-se a teu seio imaculado.

És como rio azul, rio sagrado,

Em cuja transparência adormecida

Transforma-se a vida pervertida.

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E se lavam as manchas do pecado.

Bendita sejas tu, cuja bondade

Tem sorrisos de paz e redenção,

Para os tristes que choram na orfandade.

E para a dor, que não tem consolação,

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Bendita sejas tu, que és – Piedade,

Conduzindo a miséria pela mão.

Logo na manhã seguinte, o jornalista Alberto Sousa desmente Armando Prado. O poema não era de Feijó. Este chama o testemunho de Eugênio Egas, de cujo estudo sobre Feijó extraíra o soneto. Egas se defende: “Realmente, escrevi isso estribado na “Revista do Instituto Histórico” do Rio. Lá está, no volume 60, o soneto atribuído a Feijó. A Revista, chamada a esclarecer, explica: “Todos temos razão. Um blaguer anônimo enviou o soneto com a informação. De forma precipitada, foi publicado. Mas, verificada a mentira, houve retificação. Egas viu a publicação, mas não viu a retificação.

Bizarrices perduraram quanto ao extravio dos ossos do Regente, que estariam na Suécia, conforme noticiou “A Gazeta”, em período anterior a Cásper Líbero. Houve confusão entre o Regente e o poeta português Antonio Feijó, que escreveu “Líricas e Bucólicas”, residiu algum tempo no Brasil e morreu na Suécia, em missão diplomática.

Havia dúvidas a respeito de onde se encontravam os restos mortais de Diogo Antonio Feijó. O Padre Chico, quando coroinha, aos doze anos, viu na Igreja do Carmo o caixão do regente. Dias depois, da porta de sua casa, à rua das Flores 16, assistiu a passagem do féretro, na direção do Largo de São Francisco.

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Foi o que contou a Afonso A. de Freitas, que era quem estava à frente da Comissão do Instituto Histórico, encarregada de localizar os ossos do Regente. Foi então que procuraram na Igreja de São Francisco. Depois de acurada busca, em 18 de junho de 1918 descobriram-se os despojos perdidos do grande estadista falecido em 1843. Seu coração foi conservado dentro de um frasco de vidro. O corpo, embalsamado num esquife de chumbo. O mal que o vitimou deixou estigma, no desvio da perna esquerda e na torsão do pé direito.

Hoje, os restos mortais de Feijó jazem na cripta da Catedral da Sé, na nobre companhia do Cacique Tibiriçá, trasladado da Igreja Coração de Maria. Nessa cripta estão todos os bispos, arcebispos e cardeais da Arquidiocese de São Paulo.

Deve-se a Feijó a criação da Guarda Nacional e também a Lei de 7 de novembro de 1831, hoje justamente chamada “Lei Feijó”, ou “Lei Feijó-Barbacena”, cujo objetivo era impedir a entrada de novos escravos em território brasileiro. Foi o primeiro diploma normativo nesse sentido, cinquenta e sete anos antes da Lei Áurea de 1888.

Nada obstante os êxitos colhidos em vida, Feijó era alguém complexado. Criança rejeitada, foi criado na casa do reverendo Fernando Lopes de Camargo, seu padrinho die batismo. Batizado na Sé, foi sua madrinha a viúva Maria Gertrudes de Camargo, irmã do reverendo. Os padrinhos acolheram o enjeitado por ser filho de uma terceira irmã, solteira, Maria Joaquina Soares de Camargo.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário-geral da Academia Paulista de Letras

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