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Opinião|Quanta gabolice

convidado

O incrível acontece com frequência no Brasil. O “celeiro do mundo” convive com trinta e três milhões de famintos. O Pantanal tem focos de incêndio e a Amazônia, que tem o maior patrimônio aquífero do planeta, está secando.

O remédio, todos sabem qual é. Replantar as áreas degradadas, vítimas da grilagem criminosa e do desmatamento inclemente. Fala-se muito e nada se faz. Como resposta, acena-se com a pavimentação da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. Convite a mais grilagens, principalmente porque a maior parte da área pertence ao povo brasileiro. Sim, a União é uma ficção. Convenção formal. Não existe como pessoa física. O perdedor desse tesouro é cada cidadão brasileiro. Que, mercê de uma educação deficiente, do iletramento que domina o panorama tupiniquim, não sabe se defender e nem se indignar. Exigir do governo que leve a sério as políticas estatais inscritas na Constituição de 1988.

José Renato Nalini Foto: Alex Silva/Estadão

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Trinta e cinco anos de afirmação edificante em relação à educação, aos direitos humanos, ao ambiente. Só que recrudesce a violência, intensifica-se o radicalismo polarizado, aumenta o analfabetismo real e o funcional.

A pavimentação de estrada que corta o único e último remanescente de floresta tropical do mundo é a pior das soluções. O mundo inteiro enxerga a dimensão da tragédia. O Brasil teima em não assumir suas responsabilidades.

A ciência comprova que quase metade das espécies anfíbias conhecidas está condenada à extinção. Isso por causa das mudanças climáticas e degradação de seus habitats. A degradação dos habitats é a principal ameaça para 93% das espécies já consideradas criticamente em perigo. No Brasil, que possui 1.200 das 8.600 espécies identificadas no mundo inteiro, os impactos contrários à vida e à biodiversidade resultam da devastação de áreas preservadas para a agropecuária inconsciente e para a fragmentação das florestas.

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Essa advertência da Lista Vermelha de Ameaça à Extinção da União Internacional para Conservação da Natureza consta da revista científica Nature, divulgada no último dia 4 de outubro de 2023. Os anfíbios constituem o primeiro grupo de vertebrados gravemente ameaçados de total desaparecimento da natureza.

Novamente sobrevém o remédio que todos conhecem, mas que parece por demais amargo para governos que só pensam em eleição e na matriz da pestilência chamada reeleição: restaurar florestas. Plantar árvores que têm sido abatidas sem piedade é obrigação moral de todo ser humano consciente. Se houver plantio, não é apenas a salvação dos anfíbios que virá no pacote. Se eles continuarem a existir, representarão uma solução para a crise global do clima, pois desempenham papel fundamental na saúde dos ecossistemas.

Não faltam pesquisadores no Brasil, país com a maior diversidade mundial em anfíbios. Mas a insensibilidade insana continua a prosperar. Se em 2004 eram 37 as espécies ameaçadas, em 2022 elas já são 189.

É notório que as principais ameaças que levam espécies de anfíbios ao risco de extinção já foram detectadas. Todos sabem que a agricultura sem respeitar a ecologia é a primeira causa de desaparecimento de espécies da flora e da fauna. Em seguida, a exploração de madeira e plantas. Em terceiro, o “desenvolvimento” que resulta de um equívoco. Só há desenvolvimento real se houver preservação da natureza. Poluição, que é outro índice do subdesenvolvimento brasileiro: somos o povo que mais produz lixo. Não interessa chamar lixo de “resíduo sólido”. Ele continua sendo lixo e na ignorância também desperdiçamos material valioso. Em países civilizados, leva-se a sério a economia circular e a logística reversa. Mas neste atraso de vida, jogamos fora aquilo que deveria ser aproveitado.

Acrescente-se a essa relação de malefícios o errado manejo de água, a mineração destruidora, a produção de energia desconforme com o que é natural, o impacto humano – o bicho homem é o mais destruidor do universo dos vivos.

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Não é preciso muito para concluir que não são apenas os anfíbios que estão na caminhada rumo ao completo desaparecimento. Toda espécie de vida padece pelos efeitos da loucura – não é possível considerar senão assim essa perda de lucidez – que é desmatar, incendiar, destruir. Estão em risco as futuras gerações. Aquelas que o constituinte contemplou como beneficiárias da tutela ambiental que é dever de todos nós.

Quanto discurso estéril, quanta fanfarronice, quanta gabolice, como diziam os antigos. Palavreado inútil para ocultar o ecocídio que praticamos ou do qual somos cúmplices, diante de nossa omissão e silêncio.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário-geral da Academia Paulista de Letras

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