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Opinião|Rapaziada do Brás

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O Brasil é uma nação destemida. Enfrenta crise após crise. Até subverte o conceito de crise, que deveria ser algo transitório. Crise crônica já não é crise. E isso não é de hoje. Em 1914, com a eclosão daquela que depois seria chamada Primeira Guerra Mundial, o Brasil sofreu um baque na exportação. Isso acarretou o desemprego de milhares de trabalhadores. Aqui em São Paulo, o governo passou a autorizar as “feiras livres”, para baratear os gêneros de primeira necessidade.

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Narra a crônica ter sido a população do Brás a mais atingida com a situação. Ali havia uma grande concentração de imigrantes. O escassear dos alimentos, o câmbio negro nos mercados consumidores, o descontentamento da população, tudo foi-se agravando. Até que em 8 de junho de 1917 irrompe a greve geral. No dia primeiro daquele mês, um grupo de grevistas, em passeata, tenta invadir o Moinho Matarazzo. Impedidos pela polícia, faziam piquete. Enquanto isso, no “marco da meia légua”, hoje Belenzinho, diante de outra indústria Matarazzo, a têxtil, houve confronto entre grevistas e milicianos da força pública. A greve durou quase um mês e terminou com a concessão de alguns compromissos: melhoria de salários e jornada de oito horas.

No mesmo ano de 1917, surgia a valsa-choro “Rapaziada do Brás”, de autoria do Maestro Alberto Marino (1902-1967). Ele compôs apenas a partitura musical. A letra só surgiu em 1960, elaborada por Alberto Marino Júnior (1924-2011), que veio a ser desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Essa música foi composta quando o autor contava quinze anos!

A obra só foi registrada em 1927, em solo de violino executado pelo próprio autor. Quando recebeu a letra, em 1960, foi gravada por Carlos Galhardo. Alberto Marino é um paulistano que merece legítimo culto. Serviu-se do pseudônimo “Bertorino Alma”, anagrama de seu nome, e fundou o sexteto Bertorino Alma. Foi um dos fundadores da Rádio Educadora Paulista em 1925 e ali atuou intensamente. Regeu a orquestra do hoje extinto “Teatro Colombo”, situado no Largo da Concórdia e, posteriormente, da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo.

Ainda compôs muitas outras músicas: logo em 1918, aos dezesseis anos, portanto, produziu “Nice”. Ainda viria entregar “Luar de São Paulo”, também com letra de seu filho Alberto Marino Júnior, “Meigo Olhar” e “Amarga Serenata”, com letra de Jorge Amaral. Mas nenhuma delas conseguiu suplantar o êxito da “Rapaziada”, que caiu no gosto popular e foi tocada em todo o Brasil.

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“Rapaziada do Brás” tornou-se insólito sucesso. Todas as serenatas que eram feitas nas noites de sábado ou nas vésperas de dias santos, ou nos saraus domésticos, obrigatoriamente a incluíam.

Por essa época, muitas modinhas e canções encantavam a população paulistana: “Luar do Sertão”, “Perdão, Emília”, “Noivado no sepulcro”, “Casinha da colina”, “Milhões de Arlequim”, “Olhos negros”, “Tatu subiu no pau” e muitas outras paródias. E foi também no ano de 1917 que nascia o samba e as tradicionais congadas e os maxixes começaram a cair de moda e foram arremessados ao esquecimento.

Por essa época, sendo que 1917 foi considerado o ano do romantismo, surgia em São Paulo outra bonita valsa, de nome “Branca”. Seu compositor era o jovem José Gomes de Abreu (1880-1935), que se tornou conhecido como Zequinha de Abreu e nascera em Santa Rita do Passa Quatro.

Ele nos legou “Aurora”, “Tico-Tico no fubá”, “Espalha brasa”, “Só pelo amor vale a vida”, “Último adeus” e outras. Esse era o tempo em que os artistas não conseguiam sobreviver só com sua produção musical. Zequinha de Abreu viu-se obrigado a percorrer, de casa em casa, onde houvesse um piano, para cobrar alguns vinténs e tocar suas músicas.

Também conviveu com eles – Alberto Marino e Zequinha de Abreu – o músico e compositor Américo Jacomino (1889-1928), mais conhecido por “Canhoto”. Desde 1912 participava de um conjunto chamado “Regional do Canhoto” e em 1918 consagrou-se como astro, responsável por obras como “Lembranças da Lira”, “Tudo mexe”, “Nas asas de um anjo’, “Último sorriso”, solos de violino intitulados “Minha Vida”, “Invejoso, “Melancolia”, “Triste Carnaval” e a famosa e sempre lembrada valsa “Abismo de Rosas”.

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Nenhuma composição, contudo, superou a “Rapaziada do Brás”, que ainda hoje comove os mais experientes. Os únicos que tiveram o privilégio de conviver com a melhor música que o Brasil já produziu, da qual ela faz parte.

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Foto do autor José Renato Nalini
José Renato Nalinisaiba mais

José Renato Nalini
Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário-geral da Academia Paulista de Letras
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