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Opinião|Toquei um justo

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Saudosismo é pejorativo. Por que deter-se no passado, se o futuro é que interessa? O livro “Figuras Antigas”, de Arthur de Cerqueira Mendes logo mais completa um século. Foi escrito em 1927. Evoca, saudosamente, pessoas com as quais conviveu e que o impressionaram.

Reconhecia, então, o autor, que “raros prestam culto ao passado. Hoje isso é sentimento atribuído pela opinião vulgar somente à senilidade enfadonha e queixosa”. Mas ignorar o que se passou, dizia ele, “é grave sintoma de decadência”.

José Renato Nalini Foto: Iara Morselli/Estadão

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Dentre os seus vultos afetivos, encontra-se o esquecido Fernandes da Cunha. Lembra-se de sua voz. Nos tempos em que a oratória produzia milagres, enfatizava-se o uso retórico da palavra em obras como “Livre des Orateurs”, de Carmenin. Ele se deteve sobre os parlamentares franceses para dizer que a voz de Royer-Collard “era pesada e dogmática como uma dissertação filosófica. A de Guizot, firme, porém sem sensibilidade, e Casimir Perier com entonação estridente não exprimia senão cóleras e imprecações. A de Odilon Barrot, magnífica, solene nos exórdios, porém cheia de cansaços nas perorações. A de Lamartine monótona, comparável a uma lira com uma única corda. A de Montalambert feita para o desdém e para a ironia. A de Berryer, maravilhosa, com todas as qualidades do som. Brilhava, pintava, chorava, suplicava, subjugava”.

Para Arthur, a voz de Fernandes da Cunha era assim: “órgão para soluçar todas as súplicas, clarim para anunciar todas as injustiças”.

Tornou-se célebre o discurso por ele pronunciado a 7 de janeiro de 1861, em homenagem póstuma a Landulpho Medrado. Alguns trechos se conservaram, como os que seguem: “Tenho necessidade de levantar um brado, um tributo de homenagem à sua saudosa memória e de reivindicar-lhe aqui, do alto desta tribuna e à face da Nação, a fama e a glória que lhe cabem: é um dever de gratidão à religião da amizade que lhe votava; é mais: é uma homenagem à verdade. Quem viu expirar, como eu o vi, com o verbo da liberdade nos lábios, legando por último suspiro, por supremo adeus à Pátria, um voto extremo pela liberdade e felicidade do povo; quem, como eu, recolheu no seu transe doloroso de agonia, a palavra suprema do seu pensamento, com que cessara sua vida agitada e militante; e sabe que essa palavra derradeira de sua mente em delírio foi – a ideia que sempre o preocupara em vida, a sorte, a felicidade, a liberdade do povo, não pode duvidar da pureza e sinceridade de suas crenças, da lealdade e nobreza de seu coração, não ode tolerar que ela passe à posteridade como um demagogo”.

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O orador ainda deixa um recado para os adversários do morto, que o atazanaram em vida: “Landulpho já não existe! A inveja, a ambição da mediocridade vulgar, que tanto se afanava por embargar-lhe o passo na carreira brilhante que encetava, maculando-o caluniosa e torpemente, pode repousar tranquila...ele já não é dos vivos; já não faz sombra nem concorrência a ninguém”.

Fernandes da Cunha foi alguém despojado de vaidade e desapegado da volúpia que a maior parte dos políticos dedica ao poder. Por isso foi reverenciado por aqueles capazes de reconhecer as verdadeiras virtudes, a nobreza de caráter, o culto à ascese e a indiferença diante das glórias mundanas.

Manuel Victorino pretendeu fixar-lhe os traços, escrevendo um texto sob o singelo título “Um Justo”. Nele se encontram frases que ajudam a resgatar a memória de alguém hoje completamente relegado ao olvido. Vale a pena registrar algumas delas: “Aquele homem tinha para mim qualquer coisa de sobrenatural: os traços ainda belos de sua fisionomia possuíam a expressão serena e bondosa de um justo; no seu olhar já amortecido pela idade, viam-se, ainda, de vez em quando, os lampejos de uma ama forte, de um coração ardente: rescaldos de um vulcão sob densa camada de neve; amor apaixonado de patriota através de pureza alvíssima de uma consciência sem jaça”.

Tamanha era a admiração de Victorino por Fernandes, que ao se despedir beijou-lhe as mãos. E disse o motivo do gesto: “Esse movimento foi-me ditado por um impulso estranho e irresistível; senti que por meus lábios passavam a alma inteira, todo o reconhecimento e admiração de minha terra natal, da Bahia, berço de nós ambos. Nesse velho nobre e altivo, eu via Cícero, sem ambições e as vaidades do poder e da glória; Catão, sem as fraquezas e desalentos do suicídio. Da forja, em que se fez essa têmpera, não devem desesperar as liberdades e os destinos de um povo. Toquei um justo!”.

Quantos homens públicos merecem hoje tal manifestação de verdadeira veneração?

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*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário-geral da Academia Paulista de Letras

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