Emílio Odebrecht diz que Lava Jato fazia blitz de madrugada nas celas para forçar delações

Em livro de memórias, ao qual o Estadão teve acesso em primeira mão, dono da principal construtora brasileira conta sua versão sobre a operação liderada pelo então juiz Sérgio Moro, que provocou um “apagão” de contratos, bloqueio de recursos e fechamento de canteiros de obras. Procurado, Moro disse que não comentaria

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Por Julia Affonso e Daniel Weterman
Atualização:
6 min de leitura

BRASÍLIA - O empresário Emílio Odebrecht acusa a força-tarefa da Lava Jato de criar uma “fábrica de delações” para forjar provas. Em um livro de memórias, ele relata que o grupo das investigações que atingiram as grandes empreiteiras do País incentivava blitz de madrugada nas celas dos executivos da construtora Odebrecht na Polícia Federal, em Curitiba, para, segundo ele, humilhar os prisioneiros, forçar depoimentos e, assim, manter um fluxo de operações.

É a versão do dono da principal construtora brasileira sobre a operação liderada pelo então juiz Sergio Moro, hoje senador, e o procurador Deltan Dallagnol, eleito deputado federal e que resultou na prisão de Marcelo Odebrecht, filho do autor do livro, e mais quatro diretores da empresa. Emílio argumenta que, na enxurrada de material sobre a Lava Jato não teve espaço para dar sua versão completa sobre a operação que provocou um “apagão” de contratos na empresa, bloqueio de recursos e fechamento de canteiros de obras. Procurado, o senador Moro disse que não comentaria o teor do livro.

O próprio Emílio foi alvo da operação. O empresário foi condenado por lavagem de dinheiro, assinou um acordo de delação premiada, mas a ação foi anulada por erros processuais e pela parcialidade de Moro e o caso deve ser prescrito. Não houve cumprimento da pena prevista no acordo de prisão domiciliar.

O empresário Emílio Odebrecht Foto: Paulo Giandalia/Estadão

Ao longo de 320 páginas, “Uma guerra contra o Brasil, como a Lava Jato agrediu a soberania nacional, enfraqueceu a indústria pesada brasileira e tentou destruir o grupo Odebrecht” acusa Moro de promover “tortura psicológica” e cometer erros jurídicos para garantir sentenças rápidas. Numa delas, segundo Emílio, o juiz chegou a dar a sentença apenas três minutos após receber uma apelação de 1.400 páginas enviada pela defesa dos presos. A condenação de Marcelo ocorreu apenas nove meses após a prisão.

O empresário escreve que Moro violou direitos fundamentais durante os processos contra seu filho. Emílio diz que houve excesso, em especial, com a divulgação de uma conversa de uma neta de 14 anos, filha de Marcelo, e a mãe. O diálogo viralizou na internet. Emílio avalia que Moro foi “cínico” e não teve “escrúpulos” ao tentar justificar que o telefone da menina não foi interceptado, mas o do pai, sim, além dos aparelhos de terceiros que conversavam com Marcelo. “Mas o que o juiz não explicou foi por que, sendo o responsável pela guarda daquelas gravações, decidiu torná-las públicas”, criticou, “submetendo a criança à execração que se viu, principalmente nas redes sociais.”

Sem vitimismo

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No livro publicado pela Topbooks Editora, do Rio, Emílio coloca a Odebrecht na condição de vítima da Lava Jato, mas sem vitimismo. Ele abre o jogo e aponta erros próprios, mas diz que eles não justificam o sistema de apuração da força-tarefa. “Eu apenas cumpri a promessa que no livro faço aos leitores: ser sincero, franco e definitivo sobre o que vi, senti, compreendi e sofri na Lava Jato e com suas consequências”, disse ao Estadão.

No livro, empresário Emílio Odebrecht diz que Lava Jato não queria justiça, queria escândalo Foto: Reprodução

Ao longo da narrativa, Emílio acusa Moro de forçar a mão ao apresentar a versão de que a empresa mantinha um “departamento de propina”. “O que existiu foi um sistema de geração de recursos não contabilizados, o popular ‘caixa 2′”, escreveu. “Não sejamos hipócritas: desde a invenção do capitalismo , é comum empresa média ou grande manter pelo menos 1% de seu faturamento alocado. Não é certo, mas assim é, e serve para atender contingências inesperadas.”

Emílio relatou que o caixa 2 era usado para pagamentos em espécie a fornecedores, especialmente em zonas de conflito e não convencionais, como resgate de sequestros em países de alto risco (foram 11 em três décadas). As contribuições para campanhas políticas também saíam desse caixa. “Em algum momento serviu para ‘compra’ de finalidades, quando absolutamente inevitável? É provável que sim, mas o encaminhamento de todos os inquéritos relacionados ao tal ‘departamento de propinas’ para a Justiça eleitoral é a comprovação definitiva de que os ilícitos penais que a força tarefa anunciou ter descoberto simplesmente não existiram”, disse.

“O que existiu foi um sistema de geração de recursos não contabilizados, o popular ‘caixa 2′”

Emílio Odebrecht, empresário, em entrevista ao Estadão

Ao assinar acordos de delação e leniência, ainda em 2016, a Odebrecht já tinha publicado nota em que admitiu “práticas impróprias” e pediu desculpas. Na época, a empresa foi acusada pela força-tarefa da Lava Jato de manter uma rede de propinas para políticos e pessoas ligadas a eles em diferentes Estados.

Sítio em Atibaia

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Em outro momento de franqueza, o empresário diz que a então primeira-dama Marisa Letícia pediu a um executivo da Odebrecht, no final de 2010, que a construtora reformasse o sítio da família em Atibaia. Emílio autorizou a reforma, mas deu ordem para que o nome da empresa não aparecesse. Moro, mais uma vez, segundo o relato de Emílio, transformou uma questão moral em crime de lavagem de dinheiro. O empresário foi condenado por lavagem de dinheiro, mas a ação foi anulada e o caso deverá ser prescrito.

Ele ainda acusa Moro de classificar doações de campanha como propinas. O empresário procura fazer as críticas aos procedimentos jurídicos de Moro e a atuação de Dallagnol sempre recorrendo a expressões como “a meu ver”. E conta que ouviu um procurador, em Brasília, dizer que “queria ver “a Odebrecht quebrada e o Marcelo apodrecendo na cadeia”.

As memórias do empresário são divididas em quatro capítulos, que se alternam entre o período da Lava jato e a história da família de origem pomerana no Brasil e da construtora. Norberto, pai de Emílio, abriu uma construtora na Bahia, em 1944, que viria a ser a Odebrecht.

Membro do Conselho de Administração da Odebrecht entre 2005 e 2018, Rubens Ricupero assina o prefácio do livro. O ex-ministro da Fazenda escreve que a Lava Jato produziu um excesso de material, mas faltou o “contraditório”. “A impressão que se retira da leitura da massa de material acumulado é que as pessoas se definiram desde os primeiros momentos”, observou. Assim, “os campos dos favoráveis ou contrários já se encontravam demarcados em termos gerais e suas grandes linhas pouco de modificaram com o tempo”.

“Chego até a indagar se haverá alguma longínqua possibilidade de atingir consenso mínimo no julgamento que a história fará sobre a operação no dia em que a passagem do tempo crie condições para visão conclusiva e a avaliação desapaixonada.”

Na orelha do livro, o biógrafo e escritor Fernando Morais afirma que a obra não apenas expõe fraturas familiares e afetivas impostas por Moro e seus “apóstolos”. “Passados sete anos, não restam dúvidas de que a Lava Jato, parte integrante do golpe de 2016, foi concebida para inabilitar a candidatura de Lula, eleger Bolsonaro e destruir a outrora poderosa indústria da construção pesada, abrindo caminho para suas concorrentes estrangeiras”, disse.

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