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Metralhadoras, fuzis e foguetes: a conspiração que em 1964 armou civis e militares contra Goulart

A história da conspiração que uniu militares, empresários e políticos no Rio e em São Paulo e a aquisição de armamentos para derrubar o presidente

Foto do author Marcelo Godoy
Por Marcelo Godoy
Atualização:

Era 31 de março quando um grupo de oficiais da Aeronáutica se concentrou na Escola Anne Frank, perto do Palácio Guanabara, onde se entrincheirara o governador Carlos Lacerda. Tinham um jipe com um lançador de foguetes e metralhadoras. A 400 km dali, no Regimento de Cavalaria da Força Pública de São Paulo, o tenente-coronel Adauto Fernandes de Andrade pôs a tropa em forma e disse: “O general Olympio Mourão saiu de Minas em direção ao Rio. Eu estou com ele. Quem não quiser, pode ir pra casa e só voltar quando terminar a revolução.” Não saiu ninguém de forma.

Metralhadora pesada guarda a principal escadaria do Palácio Guanabara, que da acesso ao Salão Nobre, em 31 de março de 1964 Foto: Acervo/Estadão

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O que ligava os militares reunidos no Rio e os de São Paulo era uma conspiração que contou com a participação de empresários, políticos e oficiais do Exército e da Força Aérea para providenciar armas aos grupos que se preparavam para derrubar o presidente João Goulart. Eles contaram com compras de fuzis e metralhadoras no exterior e com o desvio de armamento no País. Também houve treinamento de combate. Eis aqui uma história pouco conhecida sobre os meses que antecederam ao golpe que mudou o País.

Nunca se soube a extensão dessas compras e quanto foi gasto. Mas elas envolveram pessoas ligadas ao governador de São Paulo, Ademar de Barros, que se gabava, depois de vitorioso o golpe, para o general Amaury Kruel, comandante do 2º Exército, de ter armado 400 pessoas. Aliomar Baleeiro, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), contou que muitas delas foram parar nas mãos de fazendeiros. Em São Paulo, o tenente-coronel Rubens Resstel, do 2º Exército, organizava a vinda de armas do Paraguai.

Aqui neste texto estão os relatos inéditos de dois oficiais da antiga Força Pública e o de um coronel da Força Aérea. Eles participaram, não só da conspiração, como estiveram na linha de frente dos rebelados contra Jango, no dia 31 de março, quando a sorte do movimento iniciado por Mourão Filho não havia sido ainda decidida. Peça central nessa trama teve um velho conspirador, homem envolvido na revolta de Aragarças, contra o presidente Juscelino Kubitschek. Tratava-se do tenente-coronel-aviador João Paulo Moreira Burnier, que anos mais tarde fundaria o Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (CISA).

Levante Força Pública em 1961: blindados M-3 do 2.º Regimento de Reconhecimento Mecanizado (2.º Rec Mec), do Exercito, na Praça Clóvis Bevilacqua, em frente ao quartel do Corpo de Bombeiros Foto: Reginaldo Manente / Estadão

Conta o então tenente Lúcio (hoje coronel L.W.B.G) – um dos entrevistados – que o telefone tocara em sua casa na noite do dia 30 de março. Era dona Nilza, a mulher de Burnier. “O João Paulo disse para você se armar e ir para a Escola Anne Frank.” O marido estava em Minas, trazendo granadas e dinamite para os conspiradores, no Rio. Nos meses anteriores, o coronel dedicara-se a contrabandear e a desviar armas para seus companheiros no Rio, em Minas e em São Paulo. Trouxe metralhadoras tchecas para os mineiros e para os pernambucanos. Com os paulistas arrumou fuzis para a Força Pública e foguetes da fábrica Paraíba.

Os lançadores de foguetes contra os carros de combate do governo

Eles foram montados em plataformas em cima de 18 Jeeps para enfrentar os carros de combate do Exército, caso tentassem deter os revoltosos. Um dos oficiais que manipularam esse equipamento, o coronel Newton Borges Barbosa, do Regimento de Cavalaria da Força Pública de São Paulo contou: “Faziam o chamado tiro tenso, que é executado com ângulos de elevação pequeno, cargas fortes e velocidade elevada”. A trajetória dos disparos era rasante. Em São Paulo, dois capitães da Força Pública paulista – Barbosa e Salvador D’Aquino, homens de confiança do tenente-coronel Adauto –, eram os responsáveis pela guarda das armas e dos foguetes.

“Você sabe como funciona a granada antitanque? Chama efeito Monroe. A granada dentro, você não enche de trotil, o trotil parece uma massa de janela, você pega o cone de cobre e enfia o cone assim, dentro e forma um losango, um espaço oco e na frente o bico do foguete. E quando ela detona, ela desenvolve a onda de calor concentrada em um centímetro. Então, fora do blindado não acontece nada, não arranha a pintura, mas lá dentro o calor incendeia todo o material combustível, óleo e explosivo. Não é o tiro que detona o carro de combate, mas o calor liberado pelo artefato”, contou Barbosa.

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Cerimônio em 27 de janeiro de1964: o comandante-geral, general João Franco Pontes (c), passa em revista a tropa de 80 novos soldados do Regimento de Cavalaria da Força Pública de São Paulo Foto: Acervo/Estadão

Ele prossegue: “Foi feito teste com cabeça de explosivo desativada. Era um ‘gafanhoto’ com quatro rampas de lançamento, que foram fabricadas nos chassis da Rural. O disparo era elétrico. Os foguetes foram comprados direto da fábrica.” Barbosa conta que Adauto era a ligação de Burnier em São Paulo. “Com o Burnier eu estive várias vezes. A gente viajava sexta-feira à noite e voltava no domingo. Foram feitas várias viagens. Em Macaé, fizemos o teste para lançamento. O alcance era 4 mil metros. Lá no campo (de teste) tinha oficiais do Exército e da Aeronáutica. Eu era o único paulista ali.”

Os foguetes e granadas deviam enfrentar os blindados do 2.º Regimento de Cavalaria Mecanizada, com sede na capital paulista, se o general Kruel resolvesse defender o governo de Goulart. Os carros de combate do Regimento eram os Stuarts e os blindados eram os M-8, ambos veteranos da 2.ª Guerra Mundial. Foram eles que, três anos antes, conduziram Barbosa e seus colegas policiais presos, depois de eles cercarem o palácio do governo paulista em busca de aumento salarial, a chamada “greve dos bombeiros” – todos acabaram anistiados mais tarde.

Nas décadas seguintes, Barbosa chefiaria o Serviço de Informações da corporação paulista e chegaria a subcomandante da PM, durante o governo de Franco Montoro (1983-1987) – ele faleceu em maio de 2022. “Nós tínhamos quatro esquadrões de tropa efetiva. Um deles, de esquadrão de metralhadora Madsens. Cada pelotão tinha 3 e tinha (metralhadora) Hotchkiss pesada. Elas eram transportadas pelos cavalos. Era a tropa mais treinada de São Paulo. Nós trabalhávamos para combate, sabendo o que ia acontecer.”

Futuro fundador da Rota, D’Aquino chegaria ao posto de coronel. Ele estava de prontidão na sua companhia, na véspera do golpe. “Eu cheguei a receber um caminhão de munição. De metralhadora, fuzil.” D’Aquino prosseguiu em seu depoimento. “Recebi, mais ou menos, na véspera do movimento. Na noite de 30 (de março) para 31. Havia a expectativa da manifestação do Amaury Kruel. O comando (do 2.º Exército) era na Conselheiro Crispiniano e ali seria duro. E a gente tinha um plano de ação, tinha uma missão.” D’Aquino morreu em 2005, pouco depois dessa entrevista. “O próprio comandante-geral (da Força Pública) – a gente não sabia qual a posição dele –, o general Franco Pontes, se ele era a favor ou contra”, afirmou.

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Os lançadores de foguete que a Força Pública dispunha eram montados no Jeep. “O Lacerda passou a mão em um, que era da Força Pública. Ficou para o Lacerda. Você deve saber da história dos carros de combate do Etchegoyen (na verdade, o tenente Freddie Perdigão) que estavam em direção ao lançador. Os lançadores tinham o tiro tenso. Estava apontado para os dois tanques, mas os tanques iam lá para defender o Palácio”, contou Barbosa, remetendo novamente essa história para os conspiradores no Rio.

Os tanques apareceram em frente ao Palácio

No dia do telefonema de Nilza para o tenente Lúcio, o governador da Guanabara mandara esvaziar a escola para que servisse de quartel-general aos homens de Burnier. Seu secretário de Segurança, coronel Gustavo Borges, era quem fazia os contatos com o tenente-coronel-aviador. Em trajes civis, Burnier e seus homens chegaram à escola, onde permaneceriam por três dias.

O governador do estado da Guanabara, Carlos Lacerda (centro) recebe representantes de 32 entidades médicas do estado, que foram solicitar o empenho do seu governo para melhorar as condições salariais da classe, em 1964 Foto: Acervo/Estadão

Tudo ainda era nebuloso no dia 31. Parte do Exército e da Força Aérea hesitavam, à espera de ordens do presidente Goulart – o golpe seria vitorioso apenas no dia seguinte. Naquela manhã, aproximaram-se da escola três tanques. Estavam na Rua das Laranjeiras e seus ocupantes diziam que queriam passar para o lado dos golpistas. Burnier chamou um jovem tenente do Exército – Cyro Guedes Etchegoyen –, que participava de seu grupo. No relato do tenente Lúcio, ele disse:

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“Etchegoyen, você que é do Exército, vai lá fazer o contato com esse cara, o comandante dos tanques, para saber qual é a desse cara.” Tratava-se de Freddie Perdigão – que no futuro trabalharia no Centro de Informações do Exército (CIE) e no Serviço Nacional de Informações (SNI), a exemplo de Etchegoyen. Burnier completou a ordem: “Você (L.W.B.G.) vai uns dez metros atrás dele (Cyro), com a metralhadora. Ô Cyro, se for uma cilada, você faz um sinal para o Lúcio e sai da linha de tiro, e ele passa fogo no cara do tanque.”

E assim foi feito. Cyro e Lúcio foram a pé até a Rua das Laranjeiras. O caminho estava todo bloqueado pelos caminhões Fenemê de lixo, da empresa de limpeza pública. Os quase 300 revoltosos que defendiam o Palácio, todos com lenços brancos no pescoço, portavam revólveres calibre 32 e 38, algumas pistolas calibre 7,65 mm e 45 e umas poucas metralhadoras. Uma delas, uma submetralhadora Thompson, calibre .45, com o pente redondo igual à de Eliot Ness, estava com L.W.B.G, que trabalhou no CISA nos anos 1970.

“Chegamos lá e fiquei de longe, uns dez metros, e eu estou vendo o Cyro falar com o cara do tanque – depois, eu vim a saber que era o Freddie Perdigão – e, de repente, ele subiu no tanque, escalou o tanque e fez sinal para mim de tudo bem.” Cyro pediu que os caminhões fossem retirados para permitir a passagem dos tanques para o lado dos revoltosos.

Lúcio permanecera ao lado do Jeep onde Burnier instalara uma plataforma lança-foguetes. A munição fora furtada da Aeronáutica, e a engenhoca fora montada para disparar, direto nas forças governistas que ameaçassem tomar o Guanabara. Temia-se uma ação dos fuzileiros navais, comandados pelo vice-almirante Cândido da Costa Aragão, um legalista que entraria na primeira lista dos cassados.

As ordens eram claras. “Se as tropas do Aragão vierem por ali, você puxa essa cordinha, e o foguete dispara. Mas você tem de mirar no olho.” Naquele dia, nenhum marinheiro apareceu, e Lúcio não precisou “puxar a cordinha”. Se tivesse, o resultado poderia ter sido desastroso. É que dias depois, Burnier foi testar os foguetes de novo em um campo de provas, na Base Aérea de Santa Cruz, da qual se tornara comandante após o golpe. Os foguetes explodiram com o Jeep e, certamente, teriam matado o jovem tenente Lúcio se tivessem sido usados em frente ao palácio.

Os tanques do Exercito Nacional quando se retiravam da frente do Palácio Guanabara Foto: ARQUIVO/ESTADAO

Após a adesão dos tanques de Perdigão, Lacerda deixou o Palácio e se dirigiu à escola. Fazia cinco anos que estava rompido com Burnier por ter se oposto à revolta de Aragarças, na qual o oficial tomara parte. Menos de cem metros separavam os dois prédios. O governador foi recebido pelo oficial e disse: “Coronel, venho aqui lhe dizer que acabo de receber um telefonema do general Amaury Kruel nos seguintes termos: ‘Sob o meu comando, as tropas do 2.º Exército se deslocam para o Rio a fim de depor o presidente da República’.” Lúcio nunca mais esqueceu a cena. Burnier respondeu-lhe com uma única palavra: “Ciente!” O diálogo simbolizava a vitória do golpe. Goulart seria deposto.

PS: Parte das informações deste texto constam do livro Cachorros, a história do maior espião dos serviços secretos militares e o combate ao comunismo até a Nova República, a ser publicado pela editora Alameda.

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