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Itaipu deu R$ 75 mil de verba de patrocínio para Assembleia de Deus escolher líderes

Evento em resort de Foz do Iguaçu foi organizado por líderes religiosos aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Cerca de 2 mil pastores participaram da assembleia. Prestação de contas foi aprovada pela atual gestão petista da Itaipu

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Por Tácio Lorran
Atualização:

BRASÍLIA - No apagar das luzes do governo Bolsonaro, a Itaipu Binacional repassou R$ 75 mil em patrocínio para uma filial da Igreja Evangélica Assembleia de Deus organizar a realização de cultos e de uma eleição de lideranças religiosas no Paraná. O evento ocorreu entre os dias 5 e 8 de dezembro do ano passado, em um resort de luxo em Foz do Iguaçu (PR), próximo às divisas com Argentina e Paraguai. O espaço alugado conta com piscinas, jacuzzis e salas de jogos para os hóspedes.

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Os organizadores do evento são aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e chegaram a declarar, publicamente, apoio à reeleição do então chefe do Executivo federal.

Presidente da Convenção das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Estado do Paraná (Cieadep), uma das entidades organizadoras, o pastor Perci Fontoura é filiado ao Republicanos, acumula fotos em suas redes sociais com Bolsonaro e foi recebido mais de uma vez pelo então chefe do Executivo federal no Palácio do Planalto, em Brasília. Ele foi reeleito presidente da convenção durante a Assembleia Geral Ordinária (AGO) patrocinada pela Itaipu. Havia apenas uma chapa na competição, segundo interlocutores.

Ex-presidente Jair Bolsonaro ao lado do pastor Perci Fontoura, da Igreja Evangélica Assembleia de Deus Foto: Reprodução/Instagram @prpercifontoura

O patrocínio da Itaipu Binacional foi autorizado pela gestão passada, cuja diretoria-geral brasileira era exercida pelo vice-almirante da Marinha Anatalicio Risden Junior. As contas, contudo, já foram aprovadas pela atual gestão petista do ex-deputado federal Enio Verri. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem procurado reatar laços com o setor evangélico.

O manual de patrocínios da Itaipu estabelece o envio de recursos para ações que “fomentem os valores preconizados em sua missão institucional e que fortaleçam e valorizem a sua imagem corporativa”. Além disso, o patrocínio deve possuir relação com o plano estratégico da estatal. Dessa maneira, segundo o documento, é preciso que o evento fomente a discussão da geração de energia elétrica e segurança hídrica; ou contribua para o desenvolvimento social, econômico, turístico, tecnológico e sustentável da região.

Durante o início da gestão Bolsonaro, na direção do general Joaquim Silva e Luna, a estatal reviu patrocínios e chegou a suspender, por exemplo, o apoio financeiro dado à Fundação Getúlio Vargas (FGV) para a realização do Fórum Jurídico de Lisboa. O evento tem entre os seus organizadores o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes.

Ainda segundo o manual de patrocínios, a Itaipu proíbe o envio de recursos para ações que possuam caráter político, eleitoral ou partidário. A assembleia contou com a participação do governador do Paraná, o bolsonarista Ratinho Júnior (PSD). O político discursou no evento, de acordo com registros públicos. Ao mesmo tempo, o governador emprega a filha do pastor Perci Fontoura na Casa Civil do Estado com um salário de R$ 12,6 mil, conforme folha de pagamento.

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De acordo com o edital de convocação da Assembleia Geral Ordinária patrocinada pela Itaipu, o evento teve início com um culto de “bem-vindos” na noite do dia 5 de dezembro. Já nos dias seguintes foram realizadas sessões plenárias com celebração da santa ceia, cerimonial de consagração de ministros, eleição e posse da mesa diretora e conselho fiscal da Cieadep e homologação das coordenações dos Conselhos Regionais Eclesiásticos.

O evento contou com cerca de 2 mil pastores, que levaram ainda suas esposas – convidadas para participarem de programações paralelas junto à União da Mocidade das Assembleias de Deus no Estado do Paraná (Uemadepar) – e filhos. A organização do congresso cobrou uma taxa de R$ 240 por ministro, além de R$ 120 por esposa.

Palco do evento religioso, o Resort Grand Carimã tem tradição desde 1960 em receber presidentes, governadores e celebridades. O espaço conta com jardins internos e bosques, bem como academia, sala de jogos, playground, piscinas, saunas, jacuzzis, quadra de vôlei de areia, campo de futebol, loja de souvenires, restaurante e lounges. Só o centro de convenções do resort tem mais de 7 mil metros quadrados.

Resort Grand Garimã, em Foz do Iguaçu, onde foi realizado evento da Assembleia de Deus patrocinado pela Itaipu Binacional Foto: Divulgação/ Resort Grand Carimã

Procurada, a Itaipu informou que o patrocínio à 62ª Assembleia Geral Ordinária (AGO) da Igreja Evangélica Assembleia de Deus seguiu todos os procedimentos formais estabelecidos pela empresa. “O evento patrocinado englobou diversas ações, como plenárias com temas variados, abrangendo questões relacionadas à evangelização, cuidados pós-Covid com a saúde mental, física e espiritual, atuação dos líderes e o papel das mulheres na igreja”, explicou, em nota.

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A estatal também informou que a igreja patrocinada apresentou as prestações de contas físicas e de contrapartidas em 28 de fevereiro de 2023. “Após análise, a Itaipu Binacional emitiu um parecer favorável em 10 de maio de 2023″, acrescentou.

Por sua vez, o pastor Perci Fontoura disse não ter ciência do patrocínio realizado pela estatal. Já o pastor Isaías Cardoso dos Santos, presidente da Assembleia de Deus de Foz do Iguaçu, explicou que os R$ 75 mil repassados pela Itaipu foram usados com o aluguel de equipamento de som e com a divulgação do evento em outdoors. O líder religioso disse que a empresa tem uma verba pública para eventos e, em contrapartida, exige a divulgação da marca. “E a nossa assembleia funciona como turismo religioso”.

Isaias também é apoiador de Bolsonaro e chegou a participar de carreatas a favor do ex-presidente no ano passado. Ele nega, porém, que houve política com a presença do Ratinho Júnior.

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A Ciaedep é filiada à Convenção Geral dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembléias de Deus do Brasil (CGADB), que apoiou Bolsonaro em 2022. Presidente de honra do grupo, o pastor José Wellington Bezerra da Costa é uma das principais lideranças do setor e, de tanta influência, já admitiu ter intermediado o pagamento de emendas parlamentares para favorecer seus filhos políticos. “Você quer dinheiro? Quer, mas chame então o pastor da Assembleia de Deus”, disse, em vídeo revelado pelo Estadão em fevereiro de 2022.

Filho de José Wellington e presidente da CGADB, o pastor José Wellington Bezerra da Costa Júnior disse, por sua vez, que Lula não deve ser aceito nas igrejas. “O inferno não tem como entrar em lugar santo”, afirmou, em maio do ano passado. “Você, pastor, vai ser procurado sorrateiramente [por petistas], dizendo que é só uma visita. É um laço do Diabo!”

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