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Milicianos lançam familiares na política para manter influência em áreas do Rio de Janeiro

Desde que ganharam notoriedade, em 2000, grupos criminosos do Rio de Janeiro elegeram líderes milicianos e familiares para cargos nos legislativos municipal, estadual e federal

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Foto do author Rayanderson Guerra
Por Rayanderson Guerra
Atualização:

RIO – Em um Estado com um quarto do território dominado pelas milícias, o poder dos grupos paramilitares no Rio de Janeiro se espalha das celas do Complexo Penitenciário de Gericinó aos gabinetes dos palácios sedes dos Legislativos fluminenses. Os grupos criminosos - formados, inicialmente, por ex-agentes das forças de segurança - ganharam escala com o apoio de parte da população sob a veste de mal menor, a “solução” para frear o avanço do tráfico de drogas. A expectativa pela proteção renegada pelo Estado, no entanto, se mostrou terreno fértil para a arbitrariedade, a coação e a violência. A dominação dos bairros rendeu frutos eleitorais. Nomes ligados a lideranças das milícias foram eleitos e construíram dinastias políticas que perduram até hoje.

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As milícias empoderaram os clãs políticos em seus respectivos redutos de dominação e converteram influência sob força em votos. Um dos mais influentes, o ex-vereador do Rio de Janeiro Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, foi apontado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) e condenado por chefiar a “Liga da Justiça”, facção com domínio na zona oeste do Rio. De líder miliciano a parlamentar, Jerominho foi policial civil no Rio durante a década de 1970. Morreu assassinado a tiros em agosto de 2022.

No entanto, três nomes ligados a Jerominho buscam manter a influência do clã na Baixada Fluminense e na capital do Estado. Carminha Jerominho, filha do miliciano, se elegeu vereadora em 2008. Um feito para o grupo que conseguiu eleger a herdeira do crime mesmo presa em uma penitenciária federal de segurança máxima de Catanduvas, no Paraná, acusada de utilizar a milícia para coagir eleitores. Um ano após ser eleita, a filha de Jerominho foi cassada, em 2009, mas voltou ao cargo em 2011 por decisão do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) que reformou a condenação por arrecadação irregular de verba.

Movimentação no bairro de Santa Cruz, na zona oeste do Rio, região com atuação de milícia  Foto: PEDRO KIRILOS

Desde então, a herdeira do clã tenta voltar à cena política. Foi candidata em 2012 e 2020, mas não se elegeu. Com o assassinato do pai, a ex-vereadora é especulada como potencial candidata nas eleições municipais deste ano pela influência em áreas da zona oeste. Outros dois nomes próximos ao ex-vereador miliciano também tentaram se eleger em 2022 e fracassaram: Jamir Júnior, candidato a deputado estadual, e Sérgio Porto, o Coronel Porto, a deputado federal.

Carminha Jerominho e Coronel Porto não responderam às tentativas de contato do Estadão.

Para Lenin Pires, professor do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), os milicianos buscam na política tradicional recursos para manter o controle da territorialidade.

“Os grupos de extermínio no Rio de Janeiro sempre tiveram uma vinculação com a política. Sempre foi parte estratégica de grupos políticos para se estabelecer, para entrar em uma localidade, para estabelecer uma certa noção de ordem. As milícias configuram um despertar desses grupos que antes particularizavam o uso da força, que pretensamente pertence ao Estado, e que de certa forma vendia essa mercadoria: o constrangimento, o uso de arma de fogo, as surras, para um propósito de terceiros”, explica.

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Filhos dos donos

Investigações da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público do Rio apontaram Coronel Porto como um dos nomes que pode ter sido beneficiado por supostas ligações com a milícia. Coronel da Polícia Militar, ex-comandante do 15º BPM (Duque de Caxias) e do Batalhão de Polícia Rodoviária (BPRv), ele foi o candidato apoiado por Jerominho em 2022. Nas redes sociais, o patrono da milícia escreveu à época que a população estaria “bem representada”.

A influência da família Jerominho e as ligações com a milícia atingem também o irmão de Jerônimo, Natalino Guimarães, outro ex-policial e ex-político carioca. Ele e o irmão foram apontados na CPI das Milícias, em 2008, e posteriormente condenados por chefiar a Liga da Justiça. O histórico familiar é semelhante: ex-policiais civis que alçaram voos políticos sob as hostes da milícia e ficaram uma década atrás das grades. Natalino, além de ex-policial e apontado como chefe de milícia, foi cantor gospel antes de se eleger deputado estadual em 2006.

A filha de Natalino, Jéssica Guimarães também buscou refúgio na política. Se candidatou à vice-prefeita do Rio em 2016 na chapa pouco expressiva de Suêd Haidar, do nanico PMB. A chapa não foi eleita.

As milícias buscam o poder na política por duas vias: a eleição direta de pessoas vinculadas a elas, como os líderes dos grupos e seus familiares, e por meio de pessoas que utilizam a máquina criminosa em bairros da cidade para aumentar o acesso aos eleitores em troca de futuras benesses uma vez instaladas nos palácios. É o que explica Ignacio Cano.

Movimentação no bairro de Santa Cruz, na zona oeste do Rio, região com forte presença de milícias Foto: Pedro Kirilos/Estadão

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“As milícias tanto podem ser elas que vão definir as candidaturas que melhor representam os seus interesses, como também há políticos que vão recorrer a elas em função do reconhecimento das mesmas e por estarem dotadas de uma certa capilaridade e com uma capacidade de exercer o constrangimento que pode resultar em votos. Temos candidatos que são de origem miliciana e outros, que por razões diversas, por terem vinculação a determinados segmentos sociais, como por exemplo pessoas que têm ligações com o militarismo, pessoas que tem policiais na família, aqueles que têm propensão a controle fundiário e imobiliário... Nesses grupos, no entanto, nem tudo é coesão. Há muita disputa”, diz.

Outra figura conhecida da política e das autoridades cariocas, Luiz André Ferreira da Silva, o Deco, é ex-vereador do Rio de Janeiro. Ele foi eleito para a Câmara de Vereadores do Rio pelo PR em 2008, ficou preso entre 2011 e 2012, acusado de homicídios, formação de quadrilha e extorsão e condenado pela Justiça do Rio a 10 anos de prisão, em regime fechado, por integrar uma milícia nos bairros da Praça Seca, Campinho, Tanque e Quintino, nas zonas norte e oeste da cidade. Após deixar a prisão, passou a fazer campanha pelo filho Daniel Carvalho (PTC), em 2020, para dar continuidade à trajetória do clã na política. Carvalho não foi eleito. Obteve apenas 1,4 mil votos. Na última eleição, o filho de Deco usou o nome do pai para atrair votos: Daniel Carvalho Deco. Mesmo após a derrota, o grupo planeja voltar à cena política em 2024 em mais uma candidatura à Câmara Municipal. O Estadão não conseguiu localizar Daniel Carvalho. O espaço está aberto.

O perfil de candidatos apoiados pelas milícias mudou ao longo dos anos. Para o coordenador do Laboratório de Análises da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LAV/UERJ), professor Ignacio Cano, as milícias nasceram com vinculações políticas, com a candidatura das principais lideranças, mas a visibilidade da política tradicional afugentou os chefes criminosos.

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“As milícias que foram mais perseguidas foram justamente aquelas que tinha mais visibilidade política. A Liga da Justiça, Jerominho, Nadinho... Essas pessoas que tinham se candidatado e muitas eleitas, que juntaram controle violento da milícia com o controle do patrimonialismo brasileiro, de levar centros comunitários, de levar recursos públicos pra área dominada. Eles acharam que, ao se candidatar, estariam protegidos, com imunidade parlamentar, mais proteção. O que aconteceu foi o contrário. Os candidatos eleitos eram os milicianos mais conhecidos, os chefes da milícia. Os chefes acabaram visados, processados e condenados, e a milícia aprendeu que não era um bom negócio você se candidatar”, conta.

Os tentáculos de Zinho

Considerado pelas autoridade, até então, como o líder miliciano “mais procurado” do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Antonio da Silva Braga, o Zinho, viu sua estrutura de poder paralelo ruir em dezembro de 2022. Foragido desde 2018, ele se entregou à PF na véspera de Natal e foi encaminhado à Penitenciária de Bangu 1, de segurança máxima. A Justiça, anunciou nesta quinta-feira, 22, que ele deve ser transferido para um presídio federal. A defesa dele também não se manifestou.

Luiz Antonio da Silva Braga, preso neste 24 de dezembro de 2023, era conhecido como Zinho e liderava a maior milícia da zona oeste do Rio de Janeiro. Foto: SSP-RJ

A prisão de Zinho expôs a influência do miliciano no Estado do Rio. Dias antes, no dia 18, a deputada estadual Lúcia Helena Pinto de Barros, a Lucinha (PSD), de 63 anos, foi afastada do cargo sob a suspeita de envolvimento com a milícia na operação Batismo, deflagrada pela PF e pelo Ministério Público do Rio (MPRJ). O Estadão tentou contato com o gabinete da deputada, mas sem sucesso.

Ela retornou ao cargo nesta semana. Em um discurso no plenário da Alerj, a deputada afirmou não ter sido ouvida no processo. “Em 30 anos de vida pública, nunca imaginei vivenciar uma situação como essa que estou passando agora. Em 18 de dezembro, eu fui surpreendida com uma decisão judicial que me afastava do mandato de deputada estadual sem ser ouvida. Ainda não tive acesso a toda investigação. Nem denunciada eu fui. Estou aguardando até os dias de hoje o acesso integral das investigações para que eu possa prestar meu depoimento”, disse a parlamentar. Pelas redes sociais, ela afirmou que “na certeza da minha inocência, volto de cabeça erguida para continuar lutando pela população do meu Estado e, principalmente, pela Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro”.

Lucinha afirmou também que nunca teve envolvimento com organizações criminosas. “Nunca fui braço de milícia, como foi dito por aí. Também nunca utilizei meu mandato para interferir na política de segurança pública, porque todos sabem que sou uma deputada de oposição e, como tal, não tinha acesso até a cúpula de segurança do Estado”.

Segundo Lenin Pires, milicianos, políticos e agentes de segurança atuam em conjunta para garantir o controle do território dominado.

“As forças de segurança - nos níveis municipal, estadual (sobretudo) e também federal ocupam um posicionamento estratégico na viabilização da estrutura de poder das milícias. Começando pelo fato delas exercerem um poder cada vez mais capilarizado, que se conjuga com iniciativas econômicas e comerciais legais, que podem empregar policiais no exercício legalizado de atividades privadas e, a partir daí, favorecer o emprego da força em situações de desvio. Por outro lado, os corporativismos ativos destas forças levam a uma repressão mitigada do controle exercido pelos grupos armados que têm uma forma mais camuflada de exercer suas ilegalidades, colando muito mais as suas práticas na dimensão dos ilegalismos”, explica.

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Carioca criada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a parlamentar construiu a carreira política com base no voto dos bairros com a maior influência dos grupos paramilitares da capital fluminense – chegou ao posto de vereadora mais votada da cidade em 2008 com o apoio da base eleitoral sob influência territorial da milícia.

A deputada estadual Lucinha (PSD) foi afastada no fim do ano passado e retornou ao cargo parlamentar nesta semana Foto: Reprodução/Aler

A investigação apontou que a deputada e uma assessora se encontraram ao menos 15 vezes com integrantes da milícia que atua na região de Campo Grande, Paciência e Santa Cruz, na zona oeste da capital fluminense. As apurações ligam a milícia de Zinho à deputada. Há indícios de que a “Madrinha”, como Lucinha foi identificada, atuou para soltar milicianos presos em uma operação do Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidões.

Ouça também o podcast Estadão Notícias sobre a série que mostra as conexões políticas do crime organizado no país:

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