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Quem são os Arautos do Evangelho, grupo católico processado pela Defensoria e homenageado na Alesp

Entidade religiosa tem 15 escolas espalhadas por todo o Brasil e nega as acusações que estão em ação feita pelos defensores públicos

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Por Pedro Augusto Figueiredo

Os Arautos do Evangelho são uma associação católica fundada em 1999 no Estado de São Paulo por João Clá Dias. Reconhecida pelo Vaticano dois anos depois, a instituição tem sido alvo de denúncias feitas nos últimos anos por ex-integrantes e pais de alunos que estudaram em seus colégios. Há relatos de abusos psicológicos e físicos. Mesmo assim, na última segunda-feira, 23, o grupo foi homenageado na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), por iniciativa do deputado federal Gil Diniz (PL).

Embora não tenham respondido às tentativas de contato do Estadão, em manifestações anteriores os Arautos negaram as denúncias e se colocaram como vítimas de uma campanha de difamação e de perseguição religiosa.

Grupo Arautos do Evangelho foi homenageado na Alesp em São Paulo na última segunda-feira, 23 Foto: Reprodução/Alesp

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A associação é formada principalmente por jovens que praticam o celibato, dedicam-se inteiramente às atividades religiosas e vivem em casas que recebem apenas homens ou mulheres. O uniforme chama atenção: eles usam túnicas de estilo medieval, com uma cruz no peito e botas de cano longo. Atualmente, são 15 escolas espalhadas pelo Brasil e o grupo está presente em 78 países.

A principal ação judicial contra a entidade neste momento foi apresentada pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo. Depoimentos de mais de 50 pessoas apontam uma série de violações aos direitos das crianças e adolescentes que teriam sido praticadas pelos Arautos do Evangelho. Entre elas, a atuação deliberada para romper os vínculos dos jovens com suas famílias e impedir a comunicação deles com seus parentes.

As denúncias foram veiculadas em 2019, inicialmente pelo portal Metrópoles e depois pelo Fantástico. Vídeos exibidos na TV Globo mostram o fundador, João Clá Dias, batendo com uma folha de papel no rosto de uma garota enquanto exige que ela faça votos de castidade, obediência e pobreza.

O fundador dos Arautos do Evangelho, João Clá Dias, foi homenageado no evento mesmo sem estar presente Foto: Bruna Sampaio/Alesp

Uma segunda gravação veiculada pelo programa mostra um integrante do grupo lendo um suposto interrogatório de um demônio que afirma ter controle sobre o papa Francisco. A divulgação do vídeo levou à abertura de investigação pelo Vaticano, a renúncia de Clá Dias e a nomeação do cardeal Raymundo Damasceno Assis como uma espécie de interventor na entidade.

Na segunda-feira, 23, os Arautos do Evangelho foram homenageados na Alesp, a pedido do deputado Gil Diniz. Embora não estivesse presente, Clá Dias foi agraciado com o Colar de Honra ao Mérito, maior honraria do Legislativo paulista.

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A cerimônia teve discursos elogiosos aos Arautos feito por diversos deputados, como o presidente da Alesp, André do Prado (PL), e também Sonaira Fernandes e Marilia Marton, secretárias de Políticas para Mulheres e de Cultura do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos). Os três destacaram o trabalho religioso feito pelo grupo.

“A maioria das denúncias (foi) arquivada por falta de provas. (Foram feitas) Por adversários hoje desta obra, por ex-integrantes que não dizem quem cometeu algo ilícito, onde e quando. Várias denúncias infundadas, inclusive com denunciantes sendo condenados e outros fazendo acordo em juízo e pedindo pelo amor de Deus para não serem processados e voltando atrás das denúncias”, disse Gil Diniz após o Estadão questionar a assessoria de imprensa dele sobre sua proximidade com a entidade religiosa. Ele inclusive leu a nota de resposta na tribuna da Alesp.

Para a Defensoria Pública, porém, as acusações contra os Arautos do Evangelho são sólidas. O órgão ajuizou uma ação em 2022 contra o grupo religioso. O processo, que tramita em segredo de justiça no Tribunal de Justiça de São Paulo, reúne depoimentos de cerca de 50 vítimas, além de vídeos e documentos. De acordo com o defensor público Daniel Palotti Secco, o material aponta a violação de direitos de crianças e adolescentes. “Muitas vítimas relatam tortura física e psicológica, há relato de abuso sexual e de uma atuação deliberada da instituição com a finalidade de romper os vínculos familiares e comunitários e impedir a comunicação dos adolescentes com suas famílias”, disse ele ao Estadão. Na nota divulgada em abril do ano passado, os Arautos afirmam que a denúncia de estupro foi arquivada após a Polícia Civil e o Ministério Público atestarem “a absoluta inconsistência da alegação”.

O Estadão procurou os Arautos do Evangelho no telefone disponível no site da instituição. Uma funcionária atendeu e orientou que demandas de imprensa deveriam ser feitas por e-mail. Além do endereço fornecido, a reportagem enviou a demanda também em outros dois endereços. No entanto, não houve resposta até a publicação desta reportagem. Em outras ocasiões o grupo rechaçou as denúncias. “Sobre as demais ilações acerca de outros crimes hipotéticos, é possível atestar que até o presente momento nenhum tribunal civil ou eclesiástico, pátrio ou estrangeiro, veio a declarar que a associação ou qualquer um de seus membros tenha praticado qualquer tipo de delito”, diz a entidade em nota divulgada em seu site em abril de 2022.

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