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Jornalista Rosângela Bittar escreve semanalmente sobre o cenário político do País

Destroços, nada mais

A pandemia derrubou o último resquício do disfarce que Bolsonaro incorporou à sua triste figura

Por Rosângela Bittar
Atualização:

Bolsonaro decidiu atear fogo à democracia, intimidando a todos com aplicação de seus modelos em que vale tudo. Inclusive a reedição do que deu certo na eleição de 2018. Que ele venceu, sem fazer absolutamente nada. Não deu entrevistas, não foi a debates, não apresentou planos, deixando que os eleitores criassem suas fantasias livremente.

Quando falou, raramente, encadeou chavões de um personagem fictício que não correspondia a sua realidade ou seu pensamento. Ninguém imaginava votar em um e eleger 01, 02 e 03 no papel de copresidentes. Este vazio de senso, que agora se repete, foi consolidado pelo atentado de Juiz de Fora que o premiou com a imagem de vítima de um processo heroico.

O presidente da República Jair Bolsonaro Foto: Dida Sampaio/Estadão

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Agora está em busca de saída pelo mesmo caminho. Um modelo que incorpore a falida aventura americana de Donald Trump com sua realidade tropicalista.

Como não governou de fato e cometeu crimes de responsabilidade, a pandemia derrubou o último resquício do disfarce que incorporou à sua triste figura. A popularidade caiu vertiginosamente. Quem não o conhecia agora já o conhece.

Por isso, ergue dois pontos de apoio que lhe permitam o novo salto. Primeiro, busca um fato espetacular que o vitimize. Para isso incita o Brasil com suas provocações e ataques gratuitos. Segundo, a definição pelo Congresso de instrumentos que lhe permitam fraudar as eleições, fingindo que não aconteceram. O que ele quer é uma travessia direta ao infinito poder com seu grupo de motoqueiros esportivos, militares fisiológicos, milicianos e seitas dos costumes viciadas em barrar a civilização.

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O principal ponto agora é dirimir a grande dúvida, se vai invadir o Congresso ou o Supremo Tribunal Federal. Trump tentou modelar a Suprema Corte americana para favorecê-lo. A tentativa não deu certo e ele optou pelo também malogrado ataque ao Capitólio.

Bolsonaro elegeu como alvos o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral. Ambos surpreenderam com reações firmes e bem fundamentadas, que conquistaram evidente simpatia da opinião pública.

Já o Congresso, pode esperar sua vez. Por enquanto, deixou-o nas mãos do Centrão, com quem fez substancial acordo e a quem espera transferir a culpa pelos insucessos. Entregou ao grupo o que chamou de “coração” do governo, que já foi, numa linha sucessória por si só patética, de Onyx Lorenzoni e Braga Netto. Mas, vá lá, Ciro Nogueira na Casa Civil e Arthur Lira na presidência da Câmara podem representar a retaguarda do dispositivo político do presidente.

Esta barreira, no entanto, é uma ilusão. O Centrão está acostumado a ouvir o tilintar das moedas e o arrastão das fichas pelo rodo dos crupiês. Bolsonaro precisa de muito mais. De uma maioria parlamentar que o resgate das 550 mil mortes por covid pelas quais é responsabilizada sua gestão negacionista e anticiência.

O Centrão não é de confrontar argumentos do debate parlamentar. É uma bancada que não discute, vota. Mas será fatalmente cobrado quando sua cumplicidade com Bolsonaro estiver na berlinda.

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Não bastará ao deputado Arthur Lira fazer esquecer que só ele detém o poder de dar andamento ao impeachment. Não bastará ao senador Ciro Nogueira esfriar a CPI da Covid com a manipulação infinita de verbas e cargos. A revelação da corrupção no governo Bolsonaro está apenas começando.

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Uma ação mais objetiva do comando do Congresso se faz necessária. A começar pela derrubada sumária, no início do semestre, da emenda constitucional que acaba com a urna eletrônica. Em seguida, promover a união do Legislativo ao Judiciário na defesa efetiva das eleições livres. O País precisa de tempo para se reconstituir. O presidente que vier deverá iniciar seu mandato ao modelo Joe Biden, anulando atos oficiais absurdos e começando a trabalhar a partir da massa falida moral, sanitária, política, social, econômica, a herança que deixará o governo Bolsonaro.

COLUNISTA DO ‘ESTADÃO’ E ANALISTA DE ASSUNTOS POLÍTICOS

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