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SP tem o maior nº de mortes no trânsito desde 2015; veja quem são as principais vítimas

Trânsito na cidade mata, em média, 2,7 pessoas por dia; Prefeitura diz que tem implantado medidas para evitar acidentes

Foto do author Giovanna Castro
Por Giovanna Castro
Atualização:

A cidade de São Paulo atingiu, em 2023, o pior patamar de mortes no trânsito desde 2015, primeiro ano em que dados do tipo foram coletados pelo Infosiga, o sistema de monitoramento de acidentes do governo estadual.

De acordo com o levantamento, 987 pessoas morreram no trânsito da capital no ano passado, o que corresponde a uma média de 2,7 mortes por dia. A maioria das vítimas são homens, jovens e motociclistas. Em 2015, foram 1.129 mortes nas vias da cidade.

Trânsito na cidade de São Paulo mata 2,7 pessoas por dia, de acordo com dados do Infosiga Foto: Felipe Rau/Estadão

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O valor registrado pelo Infosiga em 2023 é 7,6% maior que o de 2022, quando 917 pessoas morreram em acidentes nas ruas de São Paulo. É, também, 13,1% superior ao patamar pré-pandemia – foram 873 mortes em 2019. Durante o período de maior isolamento social, em 2020 e 2021, o número de mortes caiu, ficando em 752 e 741, respectivamente.

A média de lentidão no trânsito da capital aumentou de 2022 para 2023, o que pode ter colaborado para mais acidentes, já que há mais carros transitando juntos. No entanto, o valor ainda não se equipara ao pré-pandemia. De acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a média anual de congestionamento em dias de semana em 2023 foi de 124km; em 2022, de 100km; e em 2019, de 134km.

A gestão Ricardo Nunes (MDB) tinha a redução do número de óbitos no trânsito como uma de suas metas. Em seu plano de governo inicial, constava “reduzir o índice de mortes no trânsito para 4,5 por 100 mil habitantes”. Considerando que a população de São Paulo está estimada em 11,96 milhões, o número idealizado pela Prefeitura seria de 538 mortes por ano, em torno de 55% do valor real de 2023.

Em abril de 2023, no entanto, o plano de metas da gestão municipal foi atualizado e deixou de mirar uma redução específica do número de mortes no trânsito. O objetivo passou a ser “realizar 18 ações para a redução do índice de mortes no trânsito”. Procurada pelo Estadão para comentar os dados recém divulgados, a Prefeitura disse que tem “implantado uma série de medidas para evitar acidentes de trânsito”.

Homens jovens que andam de motocicleta são os que mais morrem no trânsito da capital

Os dados do Infosiga apontam que, entre as vítimas fatais do trânsito, a maioria são homens (81%), têm entre 18 e 24 anos (15,2%) ou 25 e 29 anos (13,5%) e estavam em motocicletas (43,2%) quando se acidentaram. Aproximadamente 50% dos óbitos são de condutores de veículos e 36% são de pedestres. A parcela de passageiros de veículos corresponde a 9%. Ao todo, 1,3 milhão de motos circulam continuamente pela cidade, segundo dados da Prefeitura.

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Uma das principais políticas de trânsito implementada pela Prefeitura nos últimos anos foi justamente na tentativa de reduzir acidentes com motocicletas. As Faixas Azuis, exclusivas para esse tipo de veículo, foram implementadas em algumas das principais avenidas da cidade, como na Bandeirantes e na 23 de Maio.

“A instalação da Faixa Azul reduziu para zero o número de mortes de motociclistas que usam os 89 quilômetros de sinalização”, afirma a gestão municipal. A meta da Prefeitura é chegar a 200 quilômetros de Faixas Azuis em vários eixos viários da cidade até o fim de 2024.

Por não estar prevista no Código Nacional de Trânsito (CTB), a nova sinalização precisa do aval da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) para ser implantada de maneira experimental, para que avaliações sobre o desempenho possam ser realizadas e acompanhadas pelo órgão federal.

Nos últimos meses, entre as vias que receberam a Faixa Azul estão as avenidas Sumaré e Paulo VI, na zona oeste, Avenida do Estado, região central, Avenida Faria Lima, zona oeste, e avenidas Luiz Dumont Villares e Zaki Narchi, ambas na zona norte.

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A Prefeitura destacou à reportagem, ainda, que proibiu a circulação de motos nas pistas expressas das marginais e implementou as chamadas áreas calmas (intervenções urbanas com diminuição de velocidade, sinalizações específicas e, em alguns casos, alargamento de calçadas).

Sobre a segurança dos pedestres, diz que fez a revitalização de 12 mil faixas de pedestres e aumentou o tempo para pedestres em mais de mil cruzamentos na cidade. “Além disso, ao longo do ano, a Prefeitura tem programas de conscientização em ações especiais do Maio Amarelo e da Semanada de Mobilidade”, disse.

Medidas tomadas pela Prefeitura são insuficientes, afirmam especialistas

Para o engenheiro mestre em transportes pela Escola Politécnica da USP Sergio Jzenberg e o arquiteto, urbanista e consultor de engenharia de tráfego Flamínio Fichmann, a implementação da Faixa Azul é um ponto positivo, mas, de maneira geral, as medidas tomadas até então para resolver o problema de mortes no trânsito são “insuficientes”.

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“Imagina que a gente tem uma epidemia de mortes no trânsito e fizemos uma vacina, que é uma ótima vacina, a Faixa Azul, mas ela depende de duas doses e só chegou para uma parcela mínima da população. Implementamos essas Faixas Azuis em poucos quilômetros, o que muda o índice localmente, mas não o panorama geral da cidade”, afirma Jzenberg.

“As Faixas Azuis são muito eficientes e poderíamos implantar em cerca de 400 km em 1 ano. Já faria bastante diferença”, diz Fichmann. Ainda assim, segundo ele, “devemos considerar que essa solução não é única e temos muitos recursos para diminuir a acidentalidade com motocicletas”.

Prefeitura diz pretende ter 200km de Faixa Azul para motociclistas até o final do ano. Especialistas consideram a medida boa, mas insuficiente. Foto: Felipe Rau/Estadão

De acordo com os especialistas, uma fiscalização mais eficiente da velocidade das motocicletas é primordial para resolver o problema, além de projetos de conscientização de motociclistas sobre a importância de respeitar os limites de velocidade.

“São poucos os radares de velocidade nas vias com grande concentração de acidentes, não foi instituída a punição pela velocidade média e a maioria dos radares não ‘pega’ as motocicletas pois apontam para as placas da frente dos veículos e não estão focadas entre as faixas, onde circulam os motociclistas”, afirma Fichmann.

“É um assunto importante, sobre o qual deve haver sensibilização da categoria. Motociclistas que correm têm seus motivos, eles não estão brincando, estão trabalhando e tentando aumentar sua produtividade. Também são pressionados a correr pelos que vêm atrás. Mas qual o custo disso?”, diz Jzenberg. “Não existe programa de orientação e capacitação aos motociclistas, nem incentivo a aquisição de motos mais seguras”, complementa Fichmann.

Os especialistas também concordam que é necessário ampliar o número de áreas de espera prioritária para motos em cruzamentos e semáforos, diminuindo o risco de queda e atropelamento quando eles aguardam o sinal abrir e dão partida ao mesmo tempo que os carros.

Quanto aos pedestres, uma boa iluminação nas regiões de faixa nos cruzamentos pode diminuir significativamente o número de atropelamentos. “A maioria acontece à noite porque o motorista não vê a pessoa”, diz Jzenberg.

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Aquilla dos Anjos Couto, médico especialista em medicina do tráfego e integrante da comissão de micromobilidades da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), disse estar “triste” e “surpreso” com os dados do Infosiga. Ele lembra que as Faixas Azuis são um projeto ainda em fase experimental e que o planejamento para evitar mortes no trânsito deve considerar medidas com eficácia já comprovadas.

Entre essas medidas, o médico destaca a fiscalização de normas de trânsito e priorização de pedestres e meios de transporte alternativos, como as bicicletas, para redução dos congestionamentos.

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