Anvisa aprova Mounjaro, remédio considerado ‘superpotente’ para tratamento de diabetes tipo 2

Novo medicamento age em dois hormônios, enquanto Ozempic atua em apenas um; resultado é uma produção mais intensa de insulina e melhor controle do açúcar no sangue

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Foto do author Leon Ferrari
Por Leon Ferrari
Atualização:

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou nesta segunda-feira, 25, o uso da tirzepatida, encontrada sob o nome comercial Mounjaro, para o tratamento de diabetes tipo 2, o mais comum no Brasil. A aprovação inaugura a entrada de um nova classe de medicamentos para tratar essa doença crônica no País, pois a substância atua em dois hormônios intestinais ao mesmo tempo.

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O paciente administra o Mounjaro, que é injetável, com o auxílio de uma espécie de caneta. A aplicação sob a pele (subcutânea) deve ser feita uma vez por semana. Ele deve ser usado em pessoas com 18 anos ou mais.

Ao Estadão, a Eli Lilly, farmacêutica responsável pela medicação, explicou que, antes de estar disponível nas farmácias, o medicamento precisa passar pelo processo de precificação da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), órgão que regula o preço de fármacos no Brasil.

“O processo de precificação costuma levar em torno de 90 dias, geralmente. Todo o processo é conduzido por um órgão regulatório, portanto, não temos uma previsão de quando ele estará completo”, afirmou, em nota. A empresa destaca que, com isso, não consegue adiantar o valor que será cobrado nas farmácias.

Nos EUA, o medicamento foi aprovado pela Food and Drug Admnistration (FDA), órgão americano semelhante à Anvisa, em maio do ano passado. A aprovação foi considerada “um avanço importante no tratamento do diabetes tipo 2″, nas palavras de Patrick Archdeacon, diretor associado da Divisão de Diabetes, Distúrbios Lipídicos e Obesidade no Centro de Avaliação e Pesquisa de Medicamentos da FDA.

Mounjaro, medicamento "superpotente'' no controle do diabetes do tipo 2, é aprovado no Brasil  Foto: Eli Lilly/Divulgação

Diabetes tipo 2

O diabetes tipo 2 é uma doença crônica que afeta a forma como o corpo usa o açúcar (glicose) para obter energia, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso acontece porque, apesar de o pâncreas produzir insulina, esse hormônio não consegue atuar direito – e é ele que permite a entrada do açúcar dentro das células para gerar energia. Se a insulina não funciona certinho, o açúcar sobra na circulação, favorecendo complicações.

Conforme o Ministério da Saúde, as causas da doença estão diretamente relacionadas ao excesso de peso (sobrepeso e obesidade), sedentarismo, triglicerídeos elevados, hipertensão e hábitos alimentares inadequados.

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No ranking de casos no mundo da Federação Internacional de Diabetes, o Brasil aparece em sexto lugar, com 15,7 milhões. A estimativa é de que 90% desses representem pessoas com o tipo 2.

Como funciona a tirzepatida?

A tirzepatida é considerada um duplo agonista: significa que tem a capacidade de ativar os receptores de dois hormônios intestinais, o GLP-1 e o GIP. A semaglutida, princípio ativo do remédio de nome comercial Ozempic, e que também é usada para o tratamento de diabetes tipo 2, é conhecida como um agonista, pois atua apenas no GLP-1.

Tanto o GLP-1 como o GIP estão associados à produção da insulina. Eles só vão ser ativados pela medicação quando o indíviduo come. Isso ajuda a evitar quadros de hipoglicemia (níveis de açúcar muito baixo no sangue, quadro que pode causar confusão mental e tremores). O grande trunfo do Mounjaro é acionar os dois hormônios de uma vez e, com isso, proporcionar uma ação sinérgica, em que um ajuda o outro.

“É uma droga superpotente no tratamento da diabetes”, diz Fábio Trujilho, diretor do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).

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“Essa combinação de ação no GLP-1 e no GIP fez com que mais ou menos metade das pessoas que participaram dos estudos clínicos chegassem a níveis de glicose semelhantes aos de pessoas sem diabetes”, conta o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. O Estadão conversou com ele por indicação da assessoria da Eli Lilly, embora ele não seja um consultor da empresa.

Em estudo financiado pela Eli Lilly, pesquisadores compararam os efeitos da tirzepatida com a semaglutida, princípio ativo do Ozempic, em 1,8 mil pacientes. Eles relataram que a primeira foi superior à segunda no que diz respeito à redução do nível de hemoglobina glicada, um parâmetro que indica o controle da doença, em pacientes com diabetes tipo 2. A tirzepatida também foi superior na redução do peso corporal. Os resultados foram publicados em 2021 na revista científica The New England Journal of Medicine.

A meta de hemoglobina glicada da Associação Americana de Diabetes é inferior a 7%. Quase metade (46%) dos pacientes que receberam tizerpatida tiveram resultados inferiores a 5,7% (taxa de pessoas que não têm diabetes). No caso da Semaglutida, só 19% chegaram a esse resultado.

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Perda de peso

Couri destaca que o medicamento abre um novo paradigma no tratamento de diabetes ao passo que tem um efeito paralelo de perda de peso em “cifras nunca vistas antes”. “As perdas variam de estudo para estudo, chegando a reduções de até 13%”, afirma.

Ainda segundo ele, isso acontece porque o medicamento promove uma redução do apetite “em nível hipotalâmico”. O hipotálamo é uma região do cérebro que interfere na sensação de fome.

Mas por que perda de peso é importante no tratamento da diabetes tipo 2? “O excesso de gordura aumenta a resistência à insulina”, resume Trujilho. A empresa estuda o uso do medicamento no tratamento da obesidade, mas, por ora, não há essa indicação.

O sobrepeso e a obesidade estão entre os principais fatores por trás do diabetes do tipo 2 Foto: Adobe Stock

Efeitos colaterais

Os efeitos colaterais mais comuns do Mounjaro incluem náusea, diarreia, diminuição do apetite, vômito, prisão de ventre, indigestão e dor de estômago (abdominal). Ele não deve ser usado para tratamento de diabetes do tipo 1 nem por pessoas com menos de 18 anos.

Os especialistas destacam a importância de orientação de médico para uso da medicação. “Um medicamento só faz sentido quando os efeitos benéficos suplantam os efeitos colaterais”, fala Couri. Frente à perda de apetita promovida pela medicação, é também preciso estar atento à alimentação correta. “O alimento é importante pra todos. Ele é uma fonte de nutrientes e de energia”, diz.

O problema da adesão

Apesar de comemorarem a chegada de mais opção para o tratamento no Brasil, os médicos lembram que ainda há um problema sério a resolver: muitos pacientes não fazem o tratamento corretamente. “No Brasil, existe uma doença chamada falta de engajamento ao tratamento”, fala Couri.

Quando não controlado, o diabetes pode levar a complicações graves. Segundo a OMS, a doença é uma das principais causas de cegueira, insuficiência renal, ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais e amputações de membros inferiores. “O diabetes tipo 2 é uma doença crônica, portanto, o tratamento tem que ser crônico”, avisa Couri.

Retatrutida

Um triplo agonista, também da Eli Lilly, está a caminho, a retatrudita. A molécula age em três hormônios diferentes: GLP-1, GIP e glucagon. Na prática, significa que aumenta a saciedade, diminui a fome e ainda turbina o gasto metabólico basal – ou seja, ajuda na queima de calorias. Daí porque os resultados na perda de peso se mostram mais expressivos ainda em comparação aos demais remédios que atuam contra a obesidade, chegando a 24%.

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