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Cidades de SP registram pelo menos 90 mortes de pacientes da covid-19 na fila por leito

Óbitos foram reportados por 25 cidades do interior e da região metropolitana; maioria é de idosos, mas também há vítimas jovens

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Por Priscila Mengue , João Ker e José Maria Tomazela
Atualização:

SÃO PAULO E SOROCABA - Com o agravamento da pandemia no Estado de São Paulo, pelo menos 25 municípios paulistas reportaram 90 óbitos de pacientes de covid-19 na fila de espera de leitos este mês.  As mortes na fila por vaga – clínicas ou de UTI – foram relatadas em cidades do interior, como Bauru (15), e região metropolitana, como Taboão da Serra (14), Ribeirão Pires (8) e Franco da Rocha (8). Em Urânia, de 9 mil habitantes, os três pacientes que morreram na fila eram da mesma família.

A taxa de lotação de UTIs no Estado é de 89,9%. Na tentativa de frear o novo coronavírus, a gestão João Doria (PSDB) endureceu as medidas restritivas, com ampliação do fechamento do comércio, veto a aulas presenciais, cultos religiosos e partidas de futebol. Também tem aberto mais leitos e unidades de campanha para evitar o colapso do sistema de saúde. Em todo o País, os hospitais estão perto do limite - nesta terça-feira, 16, o Brasil registrou 2.798 mortes pela doença, recorde da pandemia

Funcionária realiza atendimento na UTI do Hospital do M'Boi Mirim, em São Paulo. Estado bateu recorde de mortes nesta terça-feira Foto: EFE/FERNANDO BIZERRA

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O Estadão obteve retorno de cerca de 50 prefeituras, o que indica que o número de vítimas à espera de vaga pode ser ainda maior. “Por mais que se tenha aumentado o número de leitos, é insuficiente para o de pessoas que precisam de tratamento”, diz a secretária da Saúde de Franco da Rocha, Ana Emília Gaspar.

Como outros de pequeno e médio porte, o município depende de hospitais de referência regionais para pacientes graves, transferência regulada pela Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross). O governo estadual, responsável pelo sistema, diz ter reforçado a estrutura, mas vê uma explosão da demanda.

Com a dificuldade de transferência, Franco da Rocha tem adaptado leitos clínicos para uma estrutura “semi-intensiva”, com respirador e apoio de fisioterapeuta (para auxiliar na questão respiratória). “A partir de 1.º de março, tivemos maior dificuldade de transferir. Até então, conseguia mandar pacientes para UTI em até 24 horas. Agora demora seis, sete dias para conseguir vaga. Hoje (terça-feira), são seis aguardando”, comenta.

A espera foi ainda maior em Nhandeara, onde um paciente morreu após aguardar UTI por 12 dias, segundo a gestão municipal. No norte do Estado e com 11 mil habitantes, a cidade tem só pronto-socorro, no qual dois homens internados há cerca de uma semana estão na fila de transferência. Secretário de Saúde, Rafael Benini Pereira disse ter alertado o Departamento Regional, mas a crise é geral. “Antes, era questão de horas até ter vaga”, diz ele.

A situação se repete em Santa Adélia, perto de Catanduva e com cerca de 15 mil habitantes, onde uma paciente de 93 anos morreu na manhã da segunda-feira, 15, após esperar desde a terça anterior por vaga na UTI.  Tânia Mara Canossa, secretária municipal de saúde, conta que a equipe chegou a entubá-la na madrugada do domingo, 14. “Essa última semana tem sido a mais grave da pandemia. Até tivemos dificuldades na semana anterior, mas nada que se compare”, aponta. Em Capela do Alto, região de Sorocaba, os dois pacientes que morreram na fila aguardavam por três e sete dias. 

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Bragança Paulista, que costuma receber casos que chegam do Samu em toda a região, está com os 49 leitos de UTI ocupados. Desde fevereiro, transferiu outros 57 pacientes de coronavírus para cidades vizinhas. “Quando não (tem as transferências), tentamos manter o paciente vivo”, afirma a secretária municipal de Saúde, Marina de Fatima de Oliveira. “Eram muito rápidas, mas desde a semana passada estão sem condições. Parece que os hospitais que nos recebiam também colapsaram.”

Entre os óbitos, também estão pacientes que necessitavam de leito clínico. Em Diadema, Grande São Paulo, três pacientes entre 54 e 75 anos não resistiram enquanto aguardavam vaga de enfermaria, e outros dois, de 76 e 80 anos, morreram na fila por UTI. “No período em que permaneceram em hospitais municipais, as pacientes foram assistidas, recebendo acompanhamento médico, medicação e cuidados necessários”, disse a prefeitura.

Embora a maioria dos óbitos apontados no levantamento do Estadão seja de idosos, também há vítimas mais jovens. Em Taboão, homens de 46 e 52 anos estão entre os 14 que morreram na fila por UTI. Em Araçatuba, três dos quatro óbitos na espera foram de pessoas abaixo de 60 anos (de 46, 53 e 59).

Os casos ocorreram nos seguintes municípios: Alumínio (1), Araçatuba (4), Bauru (15), Buri (4), Cabreúva (1), Caieiras (1), Capela do Alto (2), Diadema (5), Dracena (3), Francisco Morato (2), Franco da Rocha (8), Itajobi (1), Itapecerica da Serra (2), Itapetininga (1), Itararé (2), Jales (3), Joanópolis (1), Nhandeara (1), Ouroeste (4), Ribeirão Pires (8), Rio Grande da Serra (2), Taboão da Serra (14), Santa Adélia (1), Sumaré (1) e Urânia (3).

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Outros municípios que não tiveram registro de óbito de paciente que aguardava leito também apresentam agravamento da pandemia. Em Tupã, no oeste do Estado, a Santa Casa está com 100% de ocupação na UTI, de acordo com a prefeitura. Também há ocupação máxima nos leitos SUS de UTI de Itapira, vizinha de Mogi Mirim. “Há internados em enfermaria que aguardam vagas na UTI. Hoje, logo que há liberação de leitos SUS é o tempo de higienização e logo ele é ocupado novamente”, apontou o município em nota.

A ocupação no Estado em UTI é de 89,9%, média que é de 90,6% na região metropolitana da capital. Em enfermaria, as taxas são 76,7% e 84%, respectivamente. Mesmo com a fila de espera, a média móvel de internações desta semana (que é parcial e reúne dados de domingo a terça) é a maior já registrada em toda a pandemia, com 2.790 novas hospitalizações por dia, enquanto a média não passou da barreira dos 2 mil no ano passado.

Comerciante é transferido, mas mulher de 38 anos morre na fila

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Márcia Aparecida da Luz, de 38 anos, morreu no dia 2, na fila de espera de UTI, em Buri. “Ainda estamos sem resposta. É triste saber que ela poderia ter sido salva se houvesse vaga para internação”, disse a sobrinha Graciele Antunes, de 36 anos. Márcia morreu em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) onde mais oito infectados aguardavam transferência para hospital. Ela havia sido internada no dia 28, juntamente com o marido, Djalma Antunes. O casal é dono de um conhecido restaurante na cidade.

Márcia Aparecida da Luz, de 38 anos, morreu no dia 2, na fila de espera de UTI, em Buri Foto: Facebook

Os dois tinham apresentado sintomas quase ao mesmo tempo. Ele foi transferido na madrugada do dia 2, por meio do Cross, para Sorocaba. “Achávamos que minha tia iria junto, mas não havia vaga para os dois. O quadro dela se agravou e ela não resistiu. Morreu no mesmo dia, à tarde”, conta a sobrinha.

A prefeitura de Buri informou que a paciente recebeu o suporte clínico possível, diante da calamidade. Acrescentou que foi feito todo o esforço para conseguir a transferência. Após Márcia, mais três morreram à espera de vaga na cidade.

Espera faz doentes chegarem mais críticos na UTI, diz especialista

Marcio Sommer Bittencourt, médico da Clínica de Epidemiologia do Hospital Universitário da USP, explica que o represamento de internações causa pressão ainda maior sobre a rede de saúde. Isso porque, quando consegue UTI, o paciente está mais debilitado e requer maior tempo de tratamento. Ou não resiste e morre.

“Os pacientes na fila por UTI estão recebendo assistência pior do que se estivessem na UTI. Não que os profissionais que estão lá sejam ruins, mas porque a estrutura não permite atender. Afeta o prognóstico e vai morrer muito mais gente do que se a gente prestasse assistência médica adequada", afirma Bittencourt. 

A terapia intensiva tem diversos recursos para melhor assistir e tratar o paciente, que, pelo estado grave, precisa de acompanhamento mais continuado. Inclui equipe maior e mais experiente nesses casos, fisioterapeutas, respiradores de melhor qualidade, controle de sinais vitais contínuo, estrutura para diálise e uso de drogas vasoativas, dentre outros pontos. 

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“Agora, se está fazendo pela metade, com o que dá no pronto socorro, porque não tem o leito (de UTI). O respirador de lá (enfermaria) é mais antigo. Não tem fisioterapia, que é geralmente quem sabe mexer melhor em ventilação mecânica. O médico que está lá normalmente não sabe mexer em ventilação mecânica igual a gente que faz todo dia. Tem muito mais paciente por médico, então o médico não consegue avaliar tão bem. Não tem o mesmo sistema de monitoramento, varia de cada um… Então, tem muita coisa que vem junto no pacote não tem lá.”