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Construção da autoestima começa na infância, mas seus impactos são para a vida toda

Baixa insatisfação pessoal nos primeiros anos de vida pode levar a distúrbios mentais na fase adulta; entenda como apoiar a criança na formação de uma autoestima realista

Foto do author Ana Lourenço
Por Ana Lourenço

Não é preciso ser um estudioso para saber que o que acontece na infância definitivamente não fica restrito à essa etapa da vida. Vivências precoces têm repercussões no desenvolvimento infantil, mas também reverberam no futuro. Nesse sentido, é importante que os pais tenham um olhar especial para a construção da autoestima de seus filhos, já que isso interfere no dia a dia da criança e ainda tem impacto no bem-estar desse indivíduo na fase adulta. Quem incentiva a pensar no assunto é a Sociedade Brasileira de Pediatria, em documento científico. Mas, afinal, como dar apoio nessa missão?

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De acordo com os pediatras, a criação da autoestima se dá através do encontro de tendências inatas à criança com as experiências de vida, especialmente as interpessoais. Nesse aspecto, os pais são cruciais, já que possuem uma importância afetiva primária para os filhos. O documento ainda destaca que “eventos adversos tóxicos, vividos da primeira à terceira infância, podem afetar o desenvolvimento geral e neuropsicológico das crianças.”

“A criança e o adolescente são seres em desenvolvimento e precisam que os adultos sejam amorosos, atentos, dedicados e que os incentivem a realizar coisas. É necessário admirar os talentos e as capacidades deles”, orienta o psiquiatra Roberto Santoro, coordenador do Grupo de Trabalho sobre Saúde Mental da SBP e um dos autores do documento. “Ao mesmo tempo, os pais precisam mostrar, pelo exemplo, que o ser humano não é perfeito”, completa.

Todo esse cuidado tem um impacto direto na autoestima dos pequenos. Mas, diferente do que muita gente acha, ela vai muito além de amar a própria aparência ou praticar o autocuidado. “Autoestima é a consideração que a gente tem da gente mesmo. Seja na forma de se comportar, de poder sentir emoções, de nos vermos”, exemplifica a psicóloga Fernanda Mishima Gomes, do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo.

Segundo o documento da SBP, os cuidadores precisam levar em conta que há particularidades entre as crianças. Ou seja, seu filho pode não ser excelente em matemática, mas ter uma extrema facilidade com linguagem ou ciências sociais. Além disso, os pediatras pedem atenção caso o desempenho da criança seja bom, mas ela sempre acha que do outro é melhor. Trata-se de um sinal de que a autoestima precisa ser fortalecida.

“Na construção e na consolidação da autoestima, é extremamente importante que a criança receba um olhar de cuidado. E isso significa também a valorização do que ela é de verdade, e não daquilo que ela poderia ser”, ensina a psicóloga.

Para a criadora de conteúdo Bia Ben, é essencial ensinar que o filho tem que ser ele mesmo.  Foto: DHAVID NORMANDO

É claro que os cuidadores não conseguem mudar certos aspectos, como o temperamento da criança – que também afeta a percepção que ela tem sobre si. Os pequenos mais tímidos e introvertidos, por exemplo, tendem a ser mais sensíveis em relação a críticas, sentem mais ansiedade em determinadas situações sociais e apresentam maior autoconsciência crítica. Eles também estão mais sujeitos a sofrer bullying. Mas, segundo Santoro, é possível ajudá-los nas suas interações sociais e na construção de uma autoavaliação que seja realista.

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Até porque desenvolver uma percepção negativa de si mesmo pode gerar muito sofrimento para o indivíduo. Isso impacta diretamente no desenvolvimento neural e até na função mental. “O novo paradigma da pediatria é tratar preventivamente os transtornos do neurodesenvolvimento, reconhecer sinais precoces de desajustes e, assim, agir para garantir a funcionalidade e o máximo do potencial desse indivíduo adulto”, defende o documento da SBP.

Nem muito, nem pouco

Quando a criança ou o adolescente tem baixa autoestima, acaba mais predisposto a problemas depressivos. “E, na fase adulta, pode não ter confiança nas relações interpessoais, ficando com medo de se integrar socialmente ou se submetendo ao domínio de outras pessoas que ela acha que são melhores”, informa Santoro.

Essa baixa insatisfação pessoal na infância pode ser disparada pela negligência, a partir do momento em que não há adultos apreciando as qualidades e realizações da criança. Mas, atenção: a baixa autoestima também pode ter relação com uma superproteção, já que isso abala a confiança pessoal e priva o jovem de tomar decisões e raciocionar. Tudo isso aumenta o sentimento de dependência, a insegurança e, consequentemente, contribui para o pouco apreço por si.

Agora, o oposto é igualmente prejudicial. “Com a autoestima inflada, a pessoa tem uma falsa noção das suas capacidades e se sente superior aos outros. Isso é extremamente frágil porque, de uma hora para outra, ela pode se ‘esvaziar’, especialmente quando algo abala seu narcisismo”, esclarece Santoro.

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No documento, a SBP reforça que os elogios devem servir para que meninos e meninas entendam que estão bem do jeito que são, e não para se sentirem melhores do que os colegas.

Pais também precisam cuidar da própria autoestima

“A autoestima dos pais tem um impacto bem forte na dos filhos”, frisa Fernanda. A psicóloga exemplifica: se a relação do casal é conturbada e a criança observa muitas brigas, com um desmerecendo o outro, ela pode acabar se submetendo a determinadas situações problemáticas no futuro por entender que são certas e normais.

Segundo o documento da SBP, “é fundamental que pais, cuidadores e educadores cuidem da própria autoestima para beneficiarem a construção da boa autoestima da criança”.

Para os especialistas, os pais devem ser eles mesmos. “Não precisa haver mentira ou exagero. Os pais podem trazer quem são de fato, mostrando a realidade com muito afeto. Dessa forma, não depositam os próprios erros e as angústias nas crianças, mas também não desejam que elas sejam um espelho deles”, indica Fernanda. Ou seja, é essencial que eles entendam que seus medos, suas frustrações ou seus sonhos antigos não devem ser passados adiante.

Olhar o passado para mudar o futuro

Desde que se tornou mãe, a fotógrafa Ana Maria Pacheco de Oliveira, de 44 anos, priorizou o cuidado emocional dos filhos, Rafael, 8, e Felipe, 5. “Eu sempre me preocupei que eles fossem eles mesmos, desde pequenininhos, sem muita fantasia ou máscaras. Quero que eles possam ser como são, expressar as opiniões deles e que tenham ferramentas para lidar com as dificuldades da vida”, diz ela.

Para isso, a fotógrafa precisou rever sua própria infância. Quando menina, ela escutou, por exemplo, que precisava engolir o choro e, hoje, faz questão de mostrar aos filhos a importância de chorar e falar sobre emoções. “Eu incentivo os meninos a colocarem os sentimentos para fora. Para mim, a autoestima passa pela questão da escuta, de eles terem os sentimentos legitimados, independente de quais são”.

A criadora de conteúdo Bia Ben, de 21 anos, conta que também revisitou o seu passado quando teve o filho Benjamin, de 4 anos. Ela refletiu sobre experiências que não foram boas e que, por isso, não repetiria com o filho. “O meu papel como mãe é mostrar, de forma meiga e natural, que ele pode ser frágil e, se errar, pode pedir desculpas. Ele pode ser ele”, diz.

Bia Ben revisitou a própria infância para entender o que não gostaria de repassar ao filho.  Foto: DHAVID NORMANDO

A chegada da adolescência

Avaliar o comportamento das crianças é um bom termômetro para perceber se a autoestima está sendo fortalecida. Mas tudo isso é colocado à prova quando chega a adolescência. “É nessa hora que os jovens vão contestar aquilo que aprenderam, que foram e a própria família. E o ideal seria permitir essa contestação”, diz Fernanda. Também surgem dúvidas sobre os seus corpos, que estão no auge das mudanças.

Aqui, vale destacar que há mais figuras importantes na vida da criança e do adolescente, como outros familiares, amigos e até celebridades que são acompanhadas pelas redes sociais. Assim, é importante verificar se esses terceiros não podem estar contribuindo para um ideal inalcançável para os filhos, seja de corpo, estilo de vida ou personalidade.

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“A autoestima diz respeito também a uma espécie de ideal internalizado que a pessoa tem, onde ela compara, inconscientemente, as suas capacidades e as coisas que faz no mundo com o ideal que tem dentro de si. E quando a gente deixa de corresponder a esse ideal, nós temos dois sentimentos reguladores negativos: a vergonha, que está relacionada às nossas interações sociais, e ainda o sentimento de culpa, que está relacionado ao julgamento moral sobre as nossas ações”, esclarece Santoro.

Nessa fase, os pais precisam ter paciência e abrir espaço para muita conversa. “Se esse adolescente consegue confiar em alguém, e não precisa ser necessariamente nos pais, ele se permite compartilhar o que está sentindo”, avalia a psicóloga. Alguns sinais comuns de sofrimento são: dificuldade para dormir, alimentação exagerada ou a falta dela e passar tempo demais no quarto.

As pessoas de confiança devem lembrar as virtudes desse adolescente, mas também ajudá-lo a aceitar suas falhas. Com a autoestima realista, a pessoa entende que tem qualidades, mas pode, eventualmente, progredir ou melhorar em algum aspecto, como nos cuidados com o corpo e a mente ou até aprender algo que não sabe. “A autoestima bem regulada leva em conta que somos falhos, imperfeitos e que temos dificuldades”, diz o psiquiatra.

Educação com conversa


Em suas redes, Bia mostra como são essas conversas, incluindo as que ela ressalta a beleza do filho para ele mesmo. Ela entende, assim como pontuam os pediatras, que é na infância que o adulto se constrói. Por isso, considera essencial prezar pela autoestima do seu filho. “Na verdade, nós somos crianças: algumas muito bem resolvidas e, outras, nem tanto”, reflete.

A conversa não necessariamente precisa ser com os pais. Em 2023, quando Ana percebeu que o filho mais velho estava com dificuldades de expressar seus sentimentos, ela logo chamou uma psicóloga para ajudá-lo. “Foi uma super conquista pra gente porque, depois de meses na terapia, ele conseguiu colocar para fora o que estava sentindo e explicou que estava com medo, ansioso e chateado porque iria mudar de turma na escola. Aí conversamos sobre isso. Para o adulto, pode parecer pequeno, mas, para a criança, é gigante”, observa.

Impactos na vida adulta

As repercussões da autoestima são bem perceptíveis nas relações que o adulto vai ter, tanto amorosas quanto sociais ou laborais. “Se a pessoa não consegue ter intimidade com alguém, não consegue trabalhar bem na presença de outros ou não consegue se posicionar, isso pode indicar baixa autoestima”, descreve Fernanda.

A confeiteira Vitória de Souza, de 27 anos, percebe claramente isso em sua vida. “Meu pai me cobrava muito, desde pequena. Se eu fosse mal na escola, ele falava que eu era incompetente e que não ia ser ninguém na vida, que eu seria igual à minha mãe. Era sempre essa frase”, desabafa ela. “Já em relação ao corpo, existia uma exigência gigantesca pela magreza”.

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Esses discursos a afetaram psicológica e fisicamente. “Tive bulimia, tenho problemas hormonais até hoje por conta disso e percebo que tenho muita insegurança na hora de me relacionar amorosamente. Não gosto de me impor, e tenho essa necessidade de sempre querer agradar os outros porque eu nunca me acho suficiente”, relata.

Ao perceber todos esses impactos, Vitória procurou um psicólogo e foi reconstruindo sua autoestima. “Estou aprendendo que essas questões falavam muito mais sobre meu pai do que sobre mim, e isso não pode me definir. Sou uma pessoa separada dele e sou capaz de atingir minhas conquistas”, comemora ela.

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