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Copa do Mundo: Como ensinar às crianças a lidar com derrotas e vitórias no esporte?

Especialistas indicam que o torneio global permite aos pequenos lidar melhor com alguns sentimentos, criar projeções para o futuro e aproveitar os momentos de união

Por Guilherme Santiago
Atualização:

A Copa do Mundo mexe com os sentimentos de muitas pessoas e as crianças não ficam de fora dessa. Além da empolgação da festa, esses momentos de troca de experiências com amigos e familiares são essenciais no desenvolvimento dos menores, conforme avalia Mary Okamoto, psicóloga e docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Segundo a especialista, é por meio dessa confraternização que vários ensinamentos podem ser aprendidos pelos pequenos, desde a forma como eles lidam com seus próprios sentimentos até como interagem em ambientes de socialização.

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Liz e Giovanna, de 2 e 6 anos, aproveitam o campeonato com tudo que elas têm direito, o que incluiu a família reunida em dias de jogo, balançar bandeirinhas do Brasil de um lado para o outro e se fantasiar com perucas e chapéus coloridos. “É uma grande diversão”, descreve Roberto Albuquerque, pai das meninas. “Elas ficam empolgadas, torcem bastante e, quando o Brasil faz gol, ficam eufóricas e começam a correr pela casa”, diz.

Albuquerque acredita que, mais importante do que o resultado da partida, são os momentos de confraternização e união que a Copa do Mundo proporciona. “Os jogos permitem que a família se reúna, coisa que no dia a dia a gente quase não tem tempo para fazer. Isso tem sido bastante importante para elas”, diz.

Roberto não acompanhava a Copa do Mundo há anos, mas isso mudou com o envolvimento de suas filhas. Foto: Arquivo Pessoal

Como ensinar às crianças a lidar com a derrota

Aprender a lidar com os sentimentos é um desses ensinamentos que o campeonato pode trazer para as crianças. Isso inclui aqueles desconfortáveis até para os mais velhos, como a derrota diante de uma disputa. “Ninguém nasce sabendo perder. E as crianças costumam ter uma dificuldade maior e natural em aceitar essa perda”, avalia Mary Okamoto.

Mas é possível facilitar a maneira como os pequenos vão lidar com o sentimento de derrota. Uma das formas, por exemplo, é esclarecer os fatores que levaram a determinado resultado. Quando a criança compreende o que ocasionou a derrota, ela pode enfrentar melhor a situação. “Você pode perder, sentir a dor causada por essa experiência e significar que toda perda é sempre acompanhada de sofrimento”, afirma. “Mas você também pode perder, compreender por que perdeu e desenvolver ferramentas para enfrentar a dor”, pondera.

Por isso, a rede de apoio tem papel essencial. “Essas pessoas vão contribuir para que a criança enxergue os significados que aquela situação possa ter”, diz. E isso incluiu a escola, pais, responsáveis e outros familiares. “É interessante que a família explique o contexto daquela situação e o que pode ter levado ao resultado”, indica.

Outro caminho para facilitar o gerenciamento das emoções das crianças é mostrar que as possibilidades vão muito além de ganhar ou perder. Isso inclui ressaltar o bom desempenho de determinado jogador ou lembrar das partidas vencidas antes da derrota. Tudo isso permite que a criança entenda o que aconteceu de forma mais ampla e consiga assimilar melhor o que ela sente nessas situações.

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Sonhos como fator motivador

Quantas vezes você já ouviu que todo menino brasileiro tem o sonho de ser um jogador de futebol? É provável que várias. E isso tem um motivo. Conforme indica Andrea Ladislau, psicopedagoga e doutora em psicanálise, esse desejo em ser craque da seleção brasileira está tão enraizado no imaginário coletivo do País que, em algumas situações, é difícil tirá-lo do imaginário das crianças também. Ela avalia que essa projeção, no entanto, é fundamental para os pequenos. “Isso faz com que a criança comece a aprimorar seu próprio desenvolvimento pessoal através da disciplina para alcançar seu objetivo de ser um jogador de futebol.”

Além da disciplina, o desejo de reconhecimento que acompanha esse sonho pode ser mais uma motivação. “Algumas crianças se espelham nos jogadores de futebol por conta da visibilidade que eles têm diante de todo um País e isso pode ser muito positivo”, aponta Andrea. Ela defende que esse sonho pode facilitar que as crianças lidem com regras, trabalhem em equipe e estejam dispostas a se dedicar para a realização dos seus sonhos – comportamentos que em geral aparecem entre os jogadores que elas têm como inspiração.

Mas é necessário cuidados, como pondera a psicóloga Mary. “A idealização é um processo natural, mas que exige atenção. Quando a gente idealiza demais, perdemos um pouco a crítica”, pondera. Ela garante que os sonhos são essenciais para a formação de qualquer indivíduo, mas ressalta que, para além dos sonhos, é necessário esforço e dedicação para que ele se torne realidade.

E nesse sentido, mais uma vez, a rede de apoio da criança pode apoiá-la. “Os responsáveis por essas crianças precisam tentar perceber se é um sonho instantâneos ou não. Dependendo disso, é necessário alinhar as expectativas junto da criança. Afinal, isso exige investimento.”

Muitas crianças sonham em ser jogador de futebol. E esse sonho pode trazer muitos benefícios. Foto: Fabio Motta/Estadão

Vivência em coletivo

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A vivência em coletivo é outro aprendizado que a Copa do Mundo permite às crianças. Durante o evento, é comum que os familiares ou os colegas de sala de aula se reúnam para assistir aos jogos. Andrea explica que, nesses contextos, o organismo das crianças começa a produzir uma série de hormônios, inclusive aqueles que trazem bem-estar para os pequenos. “Esses hormônios fazem com que a criança se sinta bem em estar naquele ambiente comemorando com os familiares e amigos”, diz.

Há também o desejo de pertencimento, que ganha ainda mais importância entre as crianças. “Esses ambientes de confraternização acabam se tornando confortáveis para as crianças e, ao longo da vida, elas passam a ter uma tendência menor a ficar reclusos nesse tipo de situação.”

Como levar esses aprendizados para o dia a dia?

  • Respeitar as diferenças. O campeonato é uma oportunidade para que crianças aprendam a respeitar e acolher o diferente. Em toda partida, a seleção brasileira enfrenta um oponente, o que não significa que o adversário não deva ser respeitado. É um ensinamento que se aplica no campo, mas também em outras áreas da vida.
  • Entender as competências individuais. O futebol é um esporte com 11 jogadores, mas cada um exerce uma função diferente. É uma oportunidade de mostrar para as crianças a importância do trabalho em equipe e da necessidade das diferentes competências, que se complementam.
  • Competição. Crianças são colocadas em contexto de competição mesmo sem a Copa do Mundo, mas durante o campeonato elas podem apreender a competir de forma saudável – e a rede de apoio dessa criança pode ajudar nisso. Evitar comparações: ressaltar as conquistas e explicar os significados de ganhar e perder são alguns caminhos para isso.
  • Conhecendo outras culturas. O torneio reúne nações do mundo todo e permite aos mais novos conhecer culturas, línguas, tradições e religiões diferentes. Isso é fundamental para que eles possam compreender a pluralidade do mundo e tenham referências que vão ajudar na construção da sua própria individualidade.
  • Lidar com o dinheiro. Crianças podem estabelecer, desde cedo, uma relação saudável com o dinheiro. E os álbuns de figurinha podem fazer parte deste processo. É interessante mostrar para a criança que, ao trocar figurinhas com outros colegas, ela pode economizar dinheiro e fazer novas amizades, por exemplo.
  • Aprender a ter paciência. Para ganhar o campeonato, uma seleção precisará jogar sete partidas até conquistar o título. Isso pode mostrar que, mais importante do que o resultado final, é o processo para chegar nele. E isso pode ser aplicado em diferentes contextos da vida.

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