Escolas criam grupos de apoio e treinam professores para lidar com transtornos mentais de alunos

Docentes são orientados a mediar conflitos e identificar problemas emocionais; estudantes também integram equipes de apoio aos colegas

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Por Fabiana Cambricoli
Atualização: Correção:
4 min de leitura

Alerta: a reportagem abaixo trata de temas como suicídio e transtornos mentais. Se você está passando por problemas, veja ao final do texto onde buscar ajuda.

Diante do aumento de transtornos mentais e de suicídios entre crianças e adolescentes, escolas têm buscado formas de acolher estudantes em sofrimento psíquico com grupos de apoio e capacitação de professores. Como mostrou o Estadão, o número de suicídios entre crianças e adolescentes vem crescendo e hospitais relatam estar recebendo pacientes cada vez mais jovens que tentaram tirar a própria vida.

O Instituto Ame Sua Mente vem oferecendo treinamento para docentes de escolas de todo o País sobre problemas de saúde mental mais prevalentes nessa faixa etária e dicas de como os educadores devem lidar com o problema.

“É uma formação do professor para lidar com questões básicas de saúde mental para que saibam como funcionam a ansiedade, a depressão, o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), explicando como essas dificuldades acontecem e como manejá-las”, diz Gustavo Estanislau, psiquiatra da infância e da adolescência e pesquisador do instituto.

Desde 2020, já foram capacitados mil professores de 241 escolas. Os educadores também têm à disposição um aplicativo com orientações. “Outra frente da capacitação é o fortalecimento de projetos escolares de desenvolvimento de competências socioemocionais, que acabam funcionando como fatores protetores para transtornos mentais”, diz o especialista.

Escolas têm buscado formas de acolher estudantes em sofrimento psíquico com grupos de apoio e capacitação de professores.  Foto: Syntetic Dreams/Adobe Stock

O Colégio Bandeirantes, em São Paulo, tem grupos formados pelos próprios estudantes dos ensinos fundamental e médio para dar apoio emocional a outros alunos. Os jovens que integram os grupos recebem capacitação sobre as condutas que podem ser adotadas para ajudar colegas que estejam passando por problemas ou sofrimento psíquico.

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“Esses alunos da equipe de apoio são escolhidos pelos pares e aprendem como se aproximar, como intervir e como se afastar, criando uma convivência baseada na confiança”, diz Estela Zanini, diretora de convivência do Bandeirantes.

Entre as atribuições das equipes de ajuda estão promover atividades de integração, atuar ativamente contra o bullying e reportar aos profissionais da escola casos de autoagressão ou ideação suicida.

De acordo com Estela, a escola já promovia ações direcionadas para “um clima escolar mais positivo” desde 2015, mas as iniciativas de apoio à saúde mental foram ampliadas a partir de 2018, quando dois estudantes do colégio se suicidaram.

“Depois do que aconteceu em 2018, chamamos uma psicóloga especializada no tema para trabalharmos a pósvenção, que são as ações para todos aqueles impactados pelo suicídio. Quando ocorre uma situação como essa, as pessoas próximas ficam em cacos. O trabalho de pósvenção é juntar esses cacos e reconstruir”, afirma a diretora.

Desde então, o colégio destacou uma coordenadora para tratar apenas das questões ligadas à saúde mental e desenvolvimento emocional. E tem em sua grade um espaço para aula de convivência. “Ela traz de maneira intencional questões relacionadas ao desenvolvimento emocional e moral: como reconheço e lido com minhas emoções e como as demonstro de forma assertiva. E fazemos rodas de diálogo”, afirma Estela.

Ela diz que, além dos momentos e ações específicas voltadas para o tema, os professores são orientados a terem olhar para além do conteúdo de suas disciplinas. “Não adianta só formar grupos de ajuda se não sensibilizarmos os professores para que, em qualquer momento, tenham intervenções pontuais. A formação hoje se dá de modo mais amplo. É importante que, na gestão da sala de aula, ele possa fazer mediação de conflitos, com escuta ativa e linguagem assertiva.”

Onde buscar ajuda

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Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:

Centro de Valorização da Vida (CVV)

Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.

Canal Pode Falar

Iniciativa criada pela Unicef para oferecer escuta para adolescentes de 13 a 24 anos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.

SUS

Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. Na cidade de São Paulo, são 33 Caps Infantojuventis e é possível buscar os endereços das unidades nesta página.

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Mapa da Saúde Mental

O site traz mapas com unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.

NOTA DA REDAÇÃO: Suicídios são um problema de saúde pública. Antes, o Estadão, assim como boa parte da mídia profissional, evitava publicar reportagens sobre o tema pelo receio de que isso servisse de incentivo. Mas, diante da alta de mortes e tentativas de suicídio nos últimos anos, inclusive de crianças e adolescentes, o Estadão passa a discutir mais o assunto. Segundo especialistas, é preciso colocar a pauta em debate, mas de modo cuidadoso, para auxiliar na prevenção. O trabalho jornalístico sobre suicídios pode oferecer esperança a pessoas em risco, assim como para suas famílias, além de reduzir estigmas e inspirar diálogos abertos e positivos. O Estadão segue as recomendações de manuais e especialistas ao relatar os casos e as explicações para o fenômeno.

Correções

Diferentemente do informado na primeira versão desta reportagem, o CVV não oferece apoio psicológico, mas, sim, apoio emocional por meio de voluntários. O texto foi corrigido.

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