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Paraná e Rússia assinam acordo para avançar em estudos sobre vacina contra covid-19

Instituto de Tecnologia do Paraná afirma que o Estado ainda não teve acesso a questões relacionadas à segurança e eficácia da Sputnik V e que o acordo embrionário não prevê obrigações ou contrapartidas financeiras do Paraná

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Por Angelo Sfair
Atualização:

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CURITIBA -  O Governo do Paraná assinou na tarde desta quarta-feira, 12, um acordo com a Rússia para auxiliar no desenvolvimento de uma eventual vacina contra a covid-19. A partir do memorando, o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) deve estreitar os laços com o Instituto Gamaleia de Moscou, que lidera o desenvolvimento da Sputnik V, apresentada pelo governo russo como o primeiro antígeno capaz de combater o novo coronavírus.

Aguardada com expectativa, a parceria se mostrou, na realidade, em um estágio embrionário. Ao contrário do que se esperava, o Paraná ainda não teve acesso aos resultados dos testes clínicos realizados pela Rússia e países aliados. “A ideia do memorando é ampliar a cooperação e estabelecer uma parceria. Estamos avançando nas tratativas para transferência de tecnologia”, resumiu o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD).

A expectativa é de que seja formada, até a semana que vem, uma força-tarefa estadual para receber as informações repassadas pela Rússia. Posteriormente, os dados serão levados à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), vinculada ao Ministério da Saúde, responsável por validar os testes de medicamentos e vacinas em território nacional.

Cuba começará na próxima semana os ensaios clínicos em humanos de seu projeto de vacina contra a covid-19, o 'Soberana 01'. Foto: REUTERS/Anton Vaganov - 11/6/2020

O diretor-presidente do Tecpar, Jorge Callado, confirmou que o Estado ainda não teve acesso a questões relacionadas à segurança e eficácia da Sputnik V. Por outro lado, destacou que, neste momento, o acordo embrionário não prevê obrigações ou contrapartidas financeiras do Paraná. Ele considerou o acordo assinado nesta quarta-feira como um “primeiríssimo passo”. Atualmente, nenhum marco regulatório sobre o antígeno está em andamento no território brasileiro. O Instituto espera dar entrada nos protocolos de testagem da vacina dentro de um prazo entre 30 e 40 dias.

Segundo Callado, o Tecpar tem mantido boas relações com a Anvisa e com o Comitê de Ética em Pesquisas. “Não faremos nada sem estar devidamente ajustado com os órgãos federais, dentro dos princípios da cautela, transparência e segurança”. 

'SEM QUEIMAR ETAPAS'

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O anúncio da vacina russa pelo presidente Vladimir Putin, na última terça-feira, 11, foi recebido com desconfiança pela comunidade científica mundial. O Kremlin ainda não compartilhou os resultados dos testes da Sputnik V, o que levantou suspeitas, inclusive da Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo a entidade, o antígeno desenvolvido pelo Instituto Gamaleia não figura na lista de projetos de vacinas em estágio avançado.

Questionado sobre a ausência de dados transparentes sobre os testes, o presidente do Tecpar reconheceu que algumas etapas ainda precisam ser superadas. “Nós não vamos queimar etapas”, garantiu Callado. “Não vamos acelerar o processo. Vamos avançar desde que tenhamos total segurança. O tempo é uma variável importante que deve ser respeitada de acordo com os critérios técnicos”.

O Governo do Paraná apresentou o memorando assinado com o Fundo de Investimento Direto da Rússia como um projeto para troca de dados e tecnologia. Ao contrário do que havia informado no início da semana, um acordo de cooperação técnica ainda foi não desenvolvido. O Estado já assinou um pacto deste tipo com a farmacêutica Sinopahrm, da China, para a realização de testes da fase 3. De acordo com o Ministério Público do Paraná, ainda não há questionamentos formais sobre os acordos.

INCERTEZAS

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A OMS afirma que não há, por enquanto, estudos clínicos que indiquem a segurança e a eficácia da vacina desenvolvida pelo Instituto Gamaleia de Moscou. A chancela internacional é de interesse do governo da Rússia, que precisa da aprovação para, eventualmente, produzir e exportar a Sputnik V em escala global.

Segundo a entidade, as informações sobre os ensaios clínicos realizados até o momento são aguardadas “nos próximos dias”. Independentemente de como avançam as tratativas russas junto à OMS, a eventual testagem, produção e distribuição de vacinas no Brasil passa pela aprovação das agências reguladoras nacionais.

Em reunião com a Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Coronavírus da Assembleia Legislativa do Paraná, a vice-diretora geral da Organização Mundial da Saúde, Mariângela Batista Galvão Simão, explicou que cabe à Anvisa fazer a análise dos dados. “A empresa estatal russa vai ter de fornecer todos os registros dos ensaios clínicos. É claro que seria uma excelente notícia se essa vacina for eficaz e segura, mas ainda faltam alguns dados para que a gente possa dizer isso”, ponderou.

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Segundo ela, 17% das vacinas que chegam à fase 3 do protocolo de estudos se mostram eficientes. Além disso, mesmo que o antígeno seja aprovado, produzido e distribuído, as pesquisas continuam. “Uma vez que chegarmos a uma vacina eficaz, outras questões entram em jogo. Por exemplo: nem todos os grupos etários respondem igualmente porque as respostas imunológicas são diferentes. Pode ser que a vacina funcione bem para jovens adultos, mas não garanta a mesma proteção para pessoas mais velhas ou com alguma doença associada”, explicou.

A Anvisa disse, em nota enviada ao Estadão, que as análises começam a partir da solicitação do laboratório farmacêutico. Por enquanto, segundo a agência, não foi apresentado nenhum pedido de autorização de protocolo de pesquisa ou de registro de antígenos.

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