Teste genético é usado para definir a quais exercícios o corpo responde melhor; será que funciona?

Avaliação de genes se tornou mais popular e tem norteado escolhas relacionadas ao estilo de vida; mas há quem alerte que esses exames ainda não têm essa utilidade

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Foto do author Paulo Chacon
Foto do author Thaís Manarini
Por Paulo Chacon e Thaís Manarini

Em 2001, foi publicado o primeiro rascunho do genoma humano, um grande marco para a ciência. O genoma nada mais é do que o material genético de um ser vivo, que traz toda a informação hereditária que está presente em seu DNA. De lá para cá, os conhecimentos nessa área avançaram demais e, associado a isso, houve um barateamento de serviços de sequenciamento de genes. O resultado foi uma certa popularização dos chamados testes genéticos. Hoje, no universo do estilo de vida, há opções que prometem auxiliar na definição da alimentação ideal ou da melhor combinação de exercícios físicos.

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Especificamente no âmbito do esporte, uma empresa brasileira quer usar os genes para mudar a prática profissional e até amadora. A Physiogene foi lançada em 2023, tendo como ponto de partida estudos conduzidos pelo químico João Bosco Pesquero, pós-doutor e professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A ideia é identificar o perfil genético de um indivíduo a partir da análise da sua saliva e, com base nisso, entender qual o tipo ideal de treino para cada atleta.

“O teste de score genético é uma forma de saber o que o corpo humano assimila melhor e, consequentemente, como renderá mais. Ao invés de apostar em um treinamento mais padrão, comum a todos do elenco, por exemplo, direcionamos seus esforços para aquilo que o organismo responde melhor. Independentemente do nível que se pratica esporte, profissional ou amador, todos gostamos de vencer e ter resultados visíveis. O score genético é uma forma de acelerar isso”, explicou Pesquero.

Ainda de acordo com ele, os estudos começaram por volta de 2008 e resultaram na criação de um projeto chamado Atletas do Futuro.

O teste de score genético é feito a partir da análise da saliva Foto: New Africa/Adobe Stock

“Inovador”

Para o médico do esporte e ortopedista Leandro Shimba, a ideia de desenvolver um tipo de exame capaz de direcionar o treinamento adequado de acordo com o organismo de cada pessoa é bastante inovadora. “Para mim, o impacto nas modalidades amadoras será gigantesco”, afirma.

Ele ressalta que indivíduos que nunca fizeram exercício com regularidade, que estão parados há muito tempo ou acabaram de começar na academia podem ter problemas como dores e lesões ao apostar em um treino padrão. Consequentemente, há maior risco de desistirem de se exercitar.

“Quando a pessoa faz o score genético e descobrimos o que o corpo assimila melhor, é possível preparar um treino de acordo com suas necessidades. O resultado virá mais rápido e ela seguirá no esporte”, disse Shimba ao Estadão.

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Na prática do amador

O empresário Márcio Marconi, de 38 anos, acha que o teste genético fez muita diferença na rotina dele como praticante de exercícios.

“Nunca fui do esporte. Nunca pratiquei atividade física com regularidade em momento algum da minha vida”, revela. Esse jogo mudou no fim de 2022. Aí, em janeiro de 2023, ele decidiu fazer o teste de score genético. “Foi constatado que o meu corpo aceita mais os treinos de resistência e força do que os de intensidade”, conta.

Com base nisso, sua rotina de treinos foi alterada. “E os resultados saltaram. Senti a diferença”, disse Marconi, que mantém uma rotina de treinos específicos na academia.

A possibilidade de realizar um exame genético para auxiliar no esporte amador é algo recente. O teste realizado pela Physiogene custa entre R$ 899 a R$ 1 499. Atualmente, o exame é feito em uma clínica em São Paulo, a Eurofins Centro de Genomas, um laboratório multinacional parceiro da Physiogene. O resultado chega em cerca de 15 dias.

Usasr o teste de score genético para ajudar a definir o melhor treino para cada pessoa ainda não é consenso entre os especialistas Foto: pressahotkey/Adobe Stock

O uso no esporte profissional

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Antes de ser oferecido a atletas amadores, o teste de score genético já tinha chegado a alguns grupos de competidores e equipes no esporte profissional. Guilherme Giovannoni, atualmente comentarista de basquete e ex-jogador da seleção brasileira, fez o seu em 2015.

“Já tinha 35 anos e estava na reta final da minha carreira. No teste, ficou comprovado que meu corpo respondia melhor aos treinos de resistência em vez daqueles mais baseados em força e explosão”, conta. “Com isso, acabei alterando algumas coisas, e ajustando cargas de treinamentos. Meu rendimento, mesmo com essa idade, foi melhorando, e pude seguir como profissional por mais alguns anos”, disse ao Estadão.

Nos últimos anos, o método do score genético foi usado pela equipe de basquete masculino de São José dos Campos (SP). Além do melhor rendimento dos atletas, outro ponto que chamou a atenção do departamento médico do time foi a rapidez da recuperação física dos jogadores durante as temporadas.

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“Conseguimos adaptar os treinos para cada um de forma individual, de acordo com o resultado do teste. Além disso, não tivemos quase nenhuma lesão, e isso foi fruto do treinamento mais adequado”, comentou o preparador físico Paulo Nery.

“Testes não entregam o que prometem”

O médico geneticista Salmo Raskin, diretor do Laboratório Genetika, em Curitiba (PR), vê com muitas ressalvas a utilização dos testes genéticos no mundo esportivo. “É uma área de pesquisa promissora, mas, atualmente, seria muito prematuro oferecer uma avaliação genética para habilidades esportivas com o intuito de tomada de decisões”, afirma. “Esses testes não têm utilidade clínica, ou seja, não entregam aquilo que prometem”, acrescenta.

Segundo ele, hoje em dia não há base científica para recorrer a essas análises pensando na melhoria do desempenho atlético ou na identificação de talentos.

“Atletas e treinadores devem ser desencorajados a usar testes genéticos devido à falta de validação e replicabilidade. Dito isto, trata-se de uma área de grande interesse científico, e deve se apoiar à pesquisa genética que visa aumentar a compreensão da suscetibilidade do atleta a lesões ou doenças”, comenta.

Raskin observa que já existem ao menos 251 marcadores genéticos ligados ao status atlético, sendo que 128 aparecem em ao menos dois estudos diferentes – 41 estão relacionados com esportes de resistência, 45 com exercícios com força e 42 com elasticidade. “Mais marcadores serão identificados nos próximos anos, e só então conheceremos qual é o componente genético da performance esportiva”, acredita. / COM COLABORAÇÃO DE ANDRÉ BERNARDO

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