Uma taça de vinho ao dia? Nada disso: troque por suco de uva integral

Igualmente rico em compostos protetores, o suco tem a vantagem de não conter álcool, elemento que vem sendo contraindicado pela ciência; mas, para realmente obter vantagens, é preciso escolher a versão certa

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Por Regina Célia Pereira

Se antes o vinho ocupava o pódio das bebidas aliadas da saúde cardiovascular, agora vem perdendo seu posto para o suco de uva integral.

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A substituição segue diretrizes de órgãos como a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc na sigla em inglês), que colocam o consumo de quaisquer bebidas alcoólicas como um dos fatores de risco para tumores. Essa relação perigosa também foi apontada em um artigo assinado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado no periódico The Lancet Public Health e que defende, inclusive, não haver dose segura para a ingestão de álcool.

Existem evidências de que certas substâncias derivadas do metabolismo etílico são agentes carcinogênicos. Sem contar que extrapolar nos goles corriqueiramente favorece processos inflamatórios, entre outros distúrbios, incluindo o alcoolismo, um grave problema de saúde pública.

Quando há exagero, até mesmo a festejada proteção às artérias – muito associada ao vinho, por exemplo – acaba reduzida. Além da já mencionada tendência à inflamação, excessos alcoólicos podem mexer com o tônus dos vasos sanguíneos, resultando no aumento da pressão.

Diante da cautela das entidades, nem mesmo garrafas cheias de virtudes milenares escapam.

Por causa da presença de álcool, a recomendação de tomar vinho tinto vem perdendo força entre a comunidade científica. Para aproveitar o que a bebida tem de benéfica, a melhor pedida é investir no suco de uva integral.  Foto: alter_photo/Adobe Stock

Séculos de boa fama

Apesar desse movimento atual, a ligação do vinho tinto com eventuais benefícios à saúde vem de longe. “Hipócrates, considerado o pai da medicina, sugeria a bebida na rotina, dentro de um contexto de hábitos saudáveis”, relata o médico Nelson Iucif Junior, do Departamento de Geriatria da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).

Junto do trigo – em forma de pão –, e do azeite, forma a tríade sagrada da Dieta Mediterrânea, que atravessa décadas como uma das mais saudáveis do planeta. A nutricionista Juliana Watanabe, que mora na Espanha e tem mestrado sobre o assunto, conta que as origens dessa dieta se perdem no tempo, mas que remontam à Idade Média. “A alimentação seguia os padrões da antiga tradição romana, baseada por sua vez no modelo grego”, conta. Carrega símbolos religiosos, da vida rural e da cultura.

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Embora o trio mereça destaque, ali há toda uma conjuntura a ser avaliada. Além de rechear o cardápio com frutas, hortaliças, grãos integrais e pescados, os povos daquela região costumam praticar atividade física, especialmente ao ar livre, cultivam relações familiares e gerenciam bem o estresse. Tudo dosado. O segredo está justamente no equilíbrio. Não dá, portanto, para isolar e atribuir todas as benesses apenas ao cardápio – e muito menos às taças de vinho.

Outro motivo para a reputação do vinho tem a ver com um estudo conhecido como MONICA (Multinational Monitoring of Trends and Determinants in Cardiovascular Diseases), iniciado na década de 1980 e que foi um dos pioneiros a explicar o paradoxo francês. De acordo com essa teoria, os componentes presentes na bebida seriam protetores dos franceses, povo que ama manteiga, queijos amarelos e demais iguarias cheias de gorduras saturadas, acusadas de causar danos aos vasos, quando há excesso. Aqui também, são vários os fatores que blindam aquela população.

Acontece que, tirando o álcool de cena – justamente o elemento que vem deixando a ciência e os médicos com o pé atrás – de fato sobram compostos muito benéficos na bebida. E, para tirar proveito deles sem precisar recorrer à taça inebriante, basta investir no suco de uva integral. Muito mais seguro.

O que tem no suco – e por que vale investir

Para entender o valor do suco integral, vale esmiuçar a fonte genuína, ou seja, a matéria-prima da bebida. “A uva escura é rica em polifenóis, em especial as antocianinas, que dão a coloração roxa. Mas cabe destacar ainda quercetina, resveratrol, ácidos fenólicos, caso do ácido gálico e do cafeíco, além de vitaminas e sais minerais”, lista a bióloga Ivana Cruz, professora da Universidade Federal de Santa Maria (RS).

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Juntos, esses elementos apresentam efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios que são potencializados e estão por trás de tantos benefícios. Além do fruto, seus derivados apresentam tais predicados.

“Alguns desses compostos também são importantes para a qualidade sensorial dos sucos, interferindo principalmente em sua intensidade de cor, amargor, adstringência, acidez, entre outros aspectos”, conta Aline Biasoto, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa Meio-ambiente, no interior paulista.

Na videira, esses ingredientes – chamados por experts de metabólitos secundários – resguardam a espécie, defendendo contra variações do clima, do sol, dos ventos e até de insetos. Iucif Junior salienta que os atributos do suco têm relação com o tipo de uva, o solo, a tecnologia implantada na colheita, entre outros aspectos.

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Uma ótima notícia vem de um trabalho realizado em uma parceria da Embrapa, com Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA), que atesta a riqueza de variedades nacionais.

Os cientistas analisaram, em laboratório, a interação entre as substâncias encontradas no suco integral feito com uva brasileira e o organismo humano. “Seguimos um protocolo que simula a passagem dos compostos fenólicos pela barreira intestinal”, explica Aline. Ficou provado que são bioacessíveis, ou seja, são absorvidos e muito bem aproveitados.

Com décadas de pesquisas e muitos artigos publicados em revistas científicas, Ivana enumera alguns dos achados – do seu grupo e de outros pesquisadores – atrelados ao suco de uva roxa (Bordô). Observa-se a melhora da função endotelial – o tapete de células que recobre vasos – ajudando a diminuir a progressão da aterosclerose. “Há ainda efeitos na função cognitiva, no fluxo sanguíneo no cérebro e proteção dos neurônios contra danos causados pela baixa oxigenação”, afirma a professora.

Mesmo com tantas vantagens, não custa reforçar que entornar muitos copos é desaconselhável. A dica é beber moderadamente, combinando com alimentos fontes de proteína. Assim, a resposta glicêmica (ou seja, a liberação do açúcar da fruta no sangue) se dá de forma gradual.

Cuidados na hora da compra

“O suco deve ser integral, sem adição de açúcares e conservantes”, recomenda Juliana, que sugere ainda alternar com a própria fruta no dia a dia para fugir da monotonia alimentar. Para quem anda temeroso com a frutose – açúcar vindo das frutas e alvo de polêmicas – o recado é o mesmo: sem exageros, não há perigo.

Doses de cuidado são importantes diante das gôndolas nos supermercados. Atenção com embalagens que trazem nomes como “néctar” ou “refresco”. Nada disso é suco de verdade. Observar esses detalhes ajuda a evitar enganos e bebidas super diluídas, lotadas de aditivos e açúcar extra.

A sugestão é a de optar por versões que trazem designações como “100% suco de uva” ou “suco de uva integral”. Elas precisam aparecer bem legíveis, na parte frontal do produto e, geralmente, embaixo. E um olhar minucioso na lista de ingredientes sempre é importante. Esse brinde, sim, é bem-vindo ao coração.

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