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Jovem do Amazonas se une a Greta e vira influencer indígena: ‘Nunca mais um Brasil sem nós’

Samela Sateré Mawé vê como fundamental a chegada de figuras como Sônia Guajajara ao poder e defende usar redes sociais para furar a bolha e ampliar a comunicação de pautas indígenas com a sociedade

Por Caio Possati
Atualização:

Aos 26 anos, a jovem Samela Sateré Mawé desponta como uma das principais vozes da nova geração do movimento indígena e ambiental no Brasil. A amazonense, que já representou o País em importantes conferências internacionais sobre o clima, e integra diversos coletivos de defesa dos povos originários, também é uma ativista do maior uso das redes sociais como forma conectar as causas que defende com demais setores da sociedade.

Com mais de 100 mil seguidores somente no Instagram, Samela aproveita a boa audiência das suas plataformas para compartilhar suas experiências no movimento, dar opiniões e explicar de forma didática assuntos que se entrelaçam com a vida dos povos originários, como a importância de se combater o garimpo ilegal.

Samela Sateré Mawé, 26, é uma jovem ativista ambiental e uma das principais representantes da nova geração do movimento indígena no Brasil. Foto: Nathalie Brasil/Concertação pela Amazônia

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“Estar nas redes já é um processo político de desmistificação, desconstrução, de descolonização e de denúncia”, diz Samela em entrevista ao Estadão, às vésperas do Dia Nacional dos Povos Indígenas, celebrado nesta quarta-feira, 19.

“É muito importante que a pauta da comunicação esteja atrelada ao movimento. Porque, assim, a gente não fica dependente dos grandes veículos que, muitas vezes, não representam os povos indígenas tais quais nós somos e não abordam as nossas narrativas tais quais elas são”, afirma.

Na visão de Samela, as redes têm a capacidade de chegar a espaços “onde nunca chegou” e furar bolhas para que outras pessoas também entendam que as causas defendidas pelos povos originários também dizem respeito aos não indígenas.

“As pessoas precisam entender que elas são a terra, elas são o bioma, e que esse é o pensamento indígena. A gente não precisa fazer só reflorestamento, mas ‘reflorestar a mente’ das pessoas para a cura da terra”, diz a ativista. “A mãe do Brasil é indígena e, enquanto a gente não amar a nossa mãe, a gente nunca vai entender a pauta dos povos originários.”

Estar nas plataformas, diz ela, também se faz fundamental por permitir a construção de referências identitárias aos indígenas mais jovens. “Eles conseguem se apoderar e se autoafirmar enquanto uma pessoa indígena, e ter mais orgulho da sua cultura, da sua língua e da sua identidade.”

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Nesta semana, Samela está em Brasília participando dos preparativos para o Acampamento Terra Livre (ATL), que vai acontecer entre os dias 24 e 28 deste mês. O ATL é uma mobilização nacional indígena que acontece desde 2005, que consiste na ida de representantes de diferentes comunidades à capital nacional para debater questões de saúde, educação, demarcação de território, entre outros temas necessários aos povos originários.

A sugestão dos indígenas de começar a explorar as redes sociais foi levantada, justamente, em um desses encontros. Em 2021, quando o ATL foi feita de maneira virtual por conta das restrições impostas pela pandemia da covid-19, Sonia Guajajara, atual deputada federal (PSOL-SP) e ministra do Ministério dos Povos Indígenas, disse na época que os indígenas “precisavam ocupar as telas e demarcar as redes”, lembra Samela. “Foi neste momento que gente se apropriou mais da internet e das mídias sociais.”

Formação política

Nascida em Manaus, Samela viveu sempre na comunidade indígena Sateré Mawé na periferia da capital do Estado. Da sua família, herdou o engajamento social e político, que já era presente na sua avó, Zenilda Sateré Mawé. Foi ela uma das fundadora, em 1992 - quatro anos antes de Samela nascer -, da Associação de Mulheres Indígenas Sateré Mawé (AMISM), um coletivo que combate a violência de gênero e luta pela ampliação do acesso dos povos originários aos seus direitos.

Ao lado de sua avó e sua mãe, hoje coordenadora da AMISM, Samela conta que cresceu ao lado de mulheres que viviam da produção de artesanatos. “Foi nesse contexto que comecei a minha formação política”, conta. “A gente que nasce dentro do movimento indígena, e sempre teve que lutar por território, educação, saúde diferenciada e contra o preconceito, já nasce ativista.”

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Na época da pandemia, porém, a Associação de Mulheres Indígenas Sateré Mawé teve de paralisar a produção de artesanatos e passou a confeccionar e vender máscaras de proteção para ter uma fonte de renda. “Não tínhamos dinheiro para comprar álcool em gel, sabão, alimentação. Então, a gente passou a produzir máscaras”, lembra. “Foi nesse contexto que passei a ser porta-voz da associação, porque as mulheres mais velhas tinham vergonha de se expor, dar entrevistas. Nessa narrativa, eu me acostumei a falar.”

Crescimento nas redes

Em 2020, com pouco mais de notoriedade, ela começou a fazer parte do Reload, um canal de comunicação específico para descomplicar notícias ao público. A plataforma abarcava um representante de cada Estado, e ela foi designada para representar a Amazônia. “Eu tinha a tarefa de descomplicar assuntos relacionados à covid-19, floresta amazônica e povos indígenas.”

Depois da experiência no Reload, Samela passou a integrar a equipe de comunicação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), com indicação de Sônia Guajajara. Nesta época, sua participação e influência nas redes sociais já começavam a crescer. Mas deu um salto depois de representar a juventude indígena brasileira na sua primeira Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 26), em 2021, na Escócia.

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Recém-formada em Biologia, a jovem ativista é comunicadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e uma lideranças da iniciativa Uma Concertação pela Amazônia, rede formada por 500 membros da sociedade civil, setor privado, governos e academia que une esforços para promover um desenvolvimento sustentável na floresta amazônica.

Além da COP 26, a bióloga participou da COP 27, em Sharm El Sheikh, no Egito, no ano passado, e foi uma das conferencistas no Brazil Climate Summit, evento realizado em Nova York, nos Estados Unidos, também realizado em 2022.

Samela também marcou presença na Conferência Estocolmo+50, na Suécia, e compõe, desde 2019, o quadro brasileiro do Fridays For Future, movimento ambientalista fundado pela sueca Greta Thunberg.

A jovem vê como fundamental a chegada de figuras como Sônia Guajajara ao poder e defende uso das redes sociais para ampliar a comunicação de pautas indígenas com a sociedade civil. Foto: Nathalie Brasil/Concertação pela Amazônia

‘Nunca mais um Brasil sem nós’

Foram necessários 34 anos para o Brasil ter, desde a redemocratização, o seu primeiro Ministério dos Povos Indígenas (MPI). À frente da pasta está Sônia Guajajara, hoje a principal representante dos povos originários em uma posição de poder dentro do governo federal.

Acompanhar esse processo de ascensão de um Guajajara a um posto de influência em Brasília, assim como a chegada de Joenia Wapichana à cadeira da presidência da Fundação Nacional do Índio (Funai), fazem Samela Sateré Mawé ter a esperança de que a ocupação de indígenas em espaços de decisão no Distrito Federal seja um ponto de não retorno.

“Nunca mais um Brasil sem nós”, disse a jovem ao Estadão quando a reportagem lhe perguntou sobre quais reflexões o País precisa fazer para entender a importância das pautas defendidas pelas comunidades originárias. “É importante falar de um futuro ancestral e que nunca mais (se tenha) um Brasil sem nós. Que agora, a gente vai participar dos processos estruturais e governamentais do País”, diz.

Sobre esta o que simboliza esta quarta-feira, ela adota um tom firme: “Não é um dia de comemoração, visto o passado de violação, negação, preconceito que tivemos. É um dia de luta e resistência.”

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