Morre Paulo Nogueira Neto, pioneiro da proteção ambiental

Criador das primeiras unidades de conservação do País, professor foi o primeiro secretário de meio ambiente do País, cargo equivalente ao de ministro, durante regime militar

Por Giovana Girardi
Atualização:

SÃO PAULO - O professor emérito de Ecologia da USP Paulo Nogueira Neto, considerado um dos patronos do ambientalismo no Brasil, morreu nesta segunda-feira, 25, aos 96 anos.

Secretário especial de Meio Ambiente entre 1973 e 1985, órgão criado pelo governo militar e que seria o embrião do Ministério do Meio Ambiente, Nogueira Neto foi responsável por introduzir no País a agenda da conservação da natureza, criando 26 estações ecológicas e áreas de proteção ambiental (APAs), num total de 3,2 milhões de hectares protegidos, em uma época em que o discurso oficial era desenvolvimentista e pregava o avanço, em especial sobre a Amazônia.

Paulo Nogueira Neto no jardim de sua casa no Morumbi em 2004 Foto: Sergio Castro/Estadão

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Foi com ele que se criou, por exemplo, a primeira versão da Estação Ecológica da Jureia, ainda sob o governo federal, antes de virar estadual, e a do Jari, na Amazônia. Nogueira Neto também deu origem a alguns marcos regulatórios do País na área, como a Política Nacional do Meio Ambiente, de 1981, que criou o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e o Sisnama. Ainda na década de 1980 foi um dos dois únicos representantes da América do Sul na Comissão Brundtland, da ONU, onde foi cunhado o conceito de desenvolvimento sustentável.

Com formação em Direito e História Natural, o pesquisador, que criaria o Departamento de Ecologia da USP, iniciou sua carreira na área investigando abelhas sem ferrão, após ganhar uma colmeia do sogro. "Ele se interessou pelas abelhas e aí entra o viés do profissional. Ele entendeu qual era o problema científico intocado que estava naquele material", contou o zoólogo e amigo Paulo Vanzolini (1924-2013) na ocasião em que Nogueira-Neto foi agraciado com o Prêmio Professor Emérito – Troféu Guerreiro da Educação em 2005. A distinção é concedida desde 1997 pelo Estado e pelo Centro de Integração Empresa Escola (Ciee).

Em seu discurso de agradecimento, Nogueira Neto lembrou o momento em que foi chamado a Brasília pelo então ministro do Interior, Henrique Manoel Cavalcanti, logo após a publicação do decreto que criou a Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema). "Falei que era muito fraco, não dava poder de multar, era um decreto criando uma entidade que tinha um nome importante, mas na prática era uma entidade missionária, porque não tinha poderes para agir." Ele pôde mudar os termos e foi convidado para dirigir o novo órgão.

Convencimento

O ambientalista contou que para lidar com os freios impostos pelos militares, sempre se valeu da estratégia de muita conversa e trabalho de convencimento. "Nessa luta toda nós procuramos fazer com que as pessoas fossem realmente convencidas. A impressão era que o Brasil deveria se desenvolver primeiro e depois cuidar do meio ambiente. Depois que o Brasil começou a se desenvolver mais, evidentemente que a gente teria de cuidar ao mesmo tempo da poluição", disse.

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Paulo Nogueira Neto (de cadeira de rodas) acompanha Carlos Minc, Marina Silva, Sarney Filho e Rubens Ricupero, todosex ministros de Meio Ambiente, para entregar à então presidenteDilma Rousseffum manifesto contra mudanças no Código Florestal em 2011 Foto: ANDRE DUSEK/ESTADÃO

Foi com essa política que ele conseguiu se contrapor ao programa nuclear do regime militar e ainda proteger a Jureia, como contou ainda em seu discurso de 2005.

"Um dia me chamaram no Palácio do Planalto e falaram que tinham uma boa notícia: 'Vamos fazer oito usinas nucleares e cada uma vai ser estabelecida dentro de uma estação ecológica'. Aí pus a mão na cabeça, né? E disse a eles que era contra, que nenhum país tinha isso, mas eles não desistiram e graças a isso hoje nós temos a Estação Ecológica da Jureia, que é a joia da coroa em São Paulo em matéria de unidades de conservação. (...) No momento que o Brasil fez as pazes com a Argentina, cancelaram o programa nuclear", contou. "Aí, para proteger a Jureia, fundamos a SOS MataAtlântica", continuou.

Quem acompanhou esse trabalho de perto foi José Pedro de Oliveira Costa, primeiro secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo e ex-secretário de Biodiversidade do governo Temer. “Foi ele quem me convidou para trabalhar na Estação Ecológica da Jureia, em 1979 e concordou sem pestanejar que não deveríamos sair de lá mesmo depois do decreto que transformou toda aquela área em zona para usinas nucleares", conta. 

"Ele me dizia: 'Estamos numa guerra em favor do meio ambiente, precisamos calcular cada batalha sem perder a visão do conjunto da luta. Podemos perder algumas batalhas mas precisamos ganhar a guerra'".

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

Segundo Costa, Nogueira Neto apoiou a criação do Parque da Serra do Mar, em 1976, a criação do Parque do Tumucumaque em 2002 e das grandes áreas protegidas marinhas no ano passado. "Além de sua importância como pioneiro da militância e governança ambiental, mostrou a todos seu amor e dedicação tanto os homens como à natureza. De forma simples, profunda e fértil."

Durante a premiação de 2005, o diretor do Estado, Ruy Mesquita (1925-2013) lembrou a importância da atuação do ambientalista na criação de uma consciência ambiental no Brasil. "Sobretudo com suas pesquisas sobre a influência das culturas humanas na natureza e a influência da natureza nos comportamentos humanos, resume ele o que de melhor as novas gerações podem aprender em termos de consciência ambiental", disse, antes de entregar-lhe o troféu.

"Faleceu nosso mais antigo e respeitado ambientalista", publicou no Instagram o atual ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

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Clima

Nogueira Neto também foi um dos primeiros no Brasil a falar abertamente sobre o risco das mudanças climáticas. "Ou se controlam as emissões de gás, ou teremos problemas seríssimos daqui para frente, não só com as tempestades. O nível do mar vai subir. As inundações serão cada vez maiores durante as ressacas." E dava a receita: "Só há uma maneira prática de parar esse processo, que é plantar floresta, que é capaz de retirar carbono da atmosfera. E o custo do reflorestamento é de quem gera carbono."

Imagem de 1974 de Paulo Nogueira Neto com uma anta Foto: Arquivo Estadão

TRAJETÓRIA

Governo federal Foi secretário especial de Meio Ambiente entre 1973 e 1985, em órgão criado pelo governo militar e que seria o embrião do Ministério do Meio Ambiente.

Marcos regulatórios Deu origem a alguns marcos regulatórios do País, como a Política Nacional do Meio Ambiente, de 1981, que criou o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e o Sisnama.

Comissão Brundtland Foi um dos dois únicos representantes da América do Sul na comissão da ONU, onde foi cunhado o conceito de desenvolvimento sustentável. 

Prêmio Professor Emérito Ganhou a premiação Troféu Guerreiro da Educação em 2005, distinção concedida pelo Estado.

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