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Centrão já prepara ‘day after’ da disputa no Congresso com ocupação de cargos

Expectativa de vitória de Arthur Lira na Câmara provoca a ‘divisão’ da Esplanada por líderes do grupo

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Foto do author Vera Rosa
Por Vera Rosa
Atualização:

Caro leitor,

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O Centrão já se prepara para o “day after” da disputa que vai renovar a cúpula do Congresso, na próxima segunda-feira, 1.º. A expectativa de vitória do deputado Arthur Lira (Progressistas-AL) na eleição para a presidência da Câmara começou a provocar a “divisão” da Esplanada por líderes do grupo. O maior objeto do desejo é o Ministério da Saúde, comandado pelo general Eduardo Pazuello, com orçamento estimado em R$ 136,7 bilhões para 2021. Integrantes da equipe da Saúde na época em que Ricardo Barros era ministro têm recebido telefonemas de possíveis “nomeados”, curiosos em saber como funciona a estrutura da pasta.

Além do organograma dos ministérios, os que já se consideram a um passo de assumir os cargos tentam descobrir, nesses contatos, com quantos funcionários podem contar em cada secretaria. Outro alvo da cobiça do Centrão é o Ministério da Cidadania, responsável pelo programa Bolsa Família e hoje nas mãos de Onyx Lorenzoni (DEM), que, ao que tudo indica, será transferido para a Secretaria-Geral da Presidência.

Deputados aliados do governo dizem que a promessa do Palácio do Planalto, nessa reta final da campanha, prevê “porteira fechada”. O jargão político é usado para se referir à “entrega” de um ministério, com a ocupação de todos os seus postos, para os apadrinhados por um mesmo partido.

Com apoio de Bolsonaro e do Centrão, Arthur Lira (Progressistas-AL), ao centro, é candidato à presidência da Câmara Foto: Gabriela Biló/Estadão

Ricardo Barros comandou a Saúde na gestão de Michel Temer e hoje é líder do governo de Jair Bolsonaro na Câmara. A indicação de Barros para ajudar na articulação política do Planalto foi patrocinada por Lira, no ano passado. Filiado ao Progressistas, mesmo partido de Lira, o líder do governo também está empenhado em angariar votos para o candidato do Centrão, mas nega que seu nome integre a lista dos cotados para substituir Pazuello. O general enfrenta um desgaste atrás do outro diante das falhas cometidas na condução da crise de covid-19. “O meu foco é a Câmara”, costuma repetir Barros.

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Bolsonaro planeja uma reforma ministerial após a troca de comando no Congresso, mas o tamanho da dança das cadeiras ainda está sob análise. O ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, deve continuar à frente da articulação com o Legislativo. 

Uma ideia em estudo prevê a recriação do Ministério da Indústria e Comércio para contemplar o Republicanos. O partido abriga dois filhos de Bolsonaro (o vereador Carlos e o senador Flávio) e é presidido pelo deputado Marcos Pereira (SP), que já foi titular da pasta no governo Temer. Pereira é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

Apoiadores do deputado Baleia Rossi (MDB-SP), principal adversário de Lira, se queixam cada vez mais de pressão do Planalto para que mudem seus votos. O racha no DEM fez o grupo de Lira comemorar antecipadamente a vitória, mas uma operação de emergência montada pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), tenta manter o partido no bloco de sustentação de Baleia. A tarefa é complicada e governadores, como João Doria, de São Paulo, foram acionados para ajudar, mesmo porque também há dissidências no PSDB.

O ex-prefeito de Salvador ACM Neto, presidente do DEM, desembarcou em Brasília nesta quinta-feira, 28, dois dias depois de Lira ter sido recebido com festa na capital baiana por deputados da sigla, e participou de reunião na casa de Maia. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e o vice-governador de São Paulo, Rodrigo Garcia – ambos do DEM – também estavam presentes. Ali foi desenhada uma ofensiva para atrair os desgarrados, que inclui insistentes telefonemas em busca de adesões e até atendimentos de demandas estaduais.

“Nada justifica que o DEM vire coadjuvante do MDB e do PSDB na Câmara pensando na eleição presidencial de 2022”, argumentou o deputado Elmar Nascimento (DEM-BA), que rompeu com Maia, numa referência à aliança articulada para derrotar Bolsonaro. “Vamos fazer toda essa operação e, em 2022, ser coadjuvantes de novo?”. 

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A prioridade da cúpula do DEM é eleger Rodrigo Pacheco (MG), candidato do partido à sucessão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). A falta de apoio à campanha de Baleia por parte de ACM Neto irritou Maia. Detalhe: no Senado, o DEM conta com o respaldo do Progressistas de Lira, seu principal rival na Câmara. Ainda na Casa de Salão Azul, o MDB presidido por Baleia chegou a lançar Simone Tebet (MS). Mas agora, às vésperas da eleição, rifou a senadora para se aliar a Pacheco, em troca de postos de destaque na Mesa Diretora.

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O Planalto dá a eleição de Pacheco como fato consumado e, nos últimos dias, aumentou o pacote de ofertas a deputados para tentar emplacar Lira na Câmara, embora oficialmente negue o “toma lá, dá cá”.

A disputa virou um jogo de "tudo ou nada" para o governo porque Bolsonaro avalia que, se Baleia vencer, será pressionado por aliados, principalmente por Maia e partidos de esquerda, a aceitar um dos 59 pedidos de impeachment hoje parados na Câmara. 

Eleitor declarado Baleia, o deputado Hildo Rocha (MDB-MA) disse que houve uma ordem do Planalto para demitir o superintendente da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) no Maranhão, João Francisco Fortes Braga, em retaliação a seu posicionamento. “O meu indicado para a Codevasf está lá desde o governo Temer. É um técnico. Aí, como apoio Baleia, resolveram tirá-lo de lá”, contou Rocha.

O apadrinhado do deputado do MDB somente conseguiu sobreviver porque houve um abaixo-assinado da bancada do Maranhão pedindo sua permanência e declarações de voto de muitos ali em Lira. “Agora, ele é o indicado da bancada, não meu”, resumiu.

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Rocha afirmou, ainda, que a abertura de programas federais com repasse de recursos para municípios também tem hoje caráter “seletivo”, de acordo com a posição de deputados contra ou a favor de Lira. “O governo abriu a programação para uns e não abriu para outros. Isso fere a isonomia prevista na Constituição. É o mesmo que dizer que o auxílio emergencial, por exemplo, só será pago para brancos. Por que um município do Maranhão vai receber recursos e outro, não?”, protestou.

Para o deputado Professor Israel Batista (PV-DF), o governo não deveria interferir na disputa no Congresso. Bolsonaro avisou, porém, que “se Deus quiser” vai “influir na presidência da Câmara” daqui para a frente. “Essa é uma eleição em que muitos não estão declarando apoio a Baleia por temer retaliações, assustados com a voracidade do governo na negociação de cargos e emendas”, observou o deputado.

Nesse jogo de casamentos, traições e divórcios litigiosos, “tudo pode acontecer, inclusive nada”, como diria o ex-vice-presidente Marco Maciel, expoente das fileiras do antigo PFL, hoje DEM.

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