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Operação acha 532 pessoas em trabalho escravo; vítima de 90 anos é a mais idosa já resgatada no País

Equipes encontraram ainda crianças e adolescentes, entre elas uma menina grávida

Foto do author José Maria Tomazela
Por José Maria Tomazela

Uma idosa de 90 anos foi resgatada após trabalhar 16 anos sem carteira assinada, durante uma operação contra o trabalho escravo, coordenada pelo Ministério do Trabalho e Emprego. A vítima, encontrada na residência de uma empregadora ainda mais idosa (101 anos), no Rio de Janeiro, é a pessoa de mais idade já resgatada em condições de escravidão no Brasil contemporâneo. As equipes encontraram também crianças e adolescentes em trabalho escravo, entre elas uma menina grávida.

A Operação Resgate III, realizada durante o mês de agosto, retirou 532 trabalhadores das condições de trabalho escravo contemporâneo em 15 dos 22 Estados brasileiros visitados, além do Distrito Federal. Foi a maior ação conjunta de combate ao trabalho escravo e tráfico de pessoas, segundo o MTE, reunindo também agentes do Ministério Público do Trabalho (MPT), Ministério Público Federal (MPF), Defensoria Pública da União (DPF), Polícia Federal (PF) e Polícia Rodoviária Federal (PRF). Em todo o ano passado, foram registrados 2.575 resgates no País.

Sede do Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro. Foto: Divulgação

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Nesta operação, o maior número de ocorrências foi registrado em Minas Gerais, com o resgate de 204 pessoas. A maior parte das vítimas trabalhava em lavouras de café e plantações de alho, batata e cebola. Goiás, com 126 resgates, São Paulo (54), Piauí (42) e Maranhão (42) completam a lista de unidades de federação com mais trabalho análogo à escravidão.

Na área urbana, foram registrados casos em restaurantes, oficinas de costura, construção civil e trabalho doméstico. Além da idosa, outras seis mulheres e três homens faziam trabalho doméstico em condições precárias e irregulares.

Outros Estados que tiveram resgate de trabalhadores foram Acre, Bahia, Espírito Santo, Mato Grosso, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rondônia e Rio Grande do Sul e Tocantins.

As equipes flagraram 26 crianças e adolescentes submetidos a trabalho infantil, das quais seis estavam em condições semelhantes à escravidão. Ao menos 74 pessoas do total resgatado também foram vítimas de tráfico humano, quando pessoas em situação de vulnerabilidade são levadas para trabalhar sob agenciamento, ficando à mercê dos empregadores.

Comendo tamanduá

Em um dos casos que mais chamaram a atenção das equipes, 97 trabalhadores atuavam na colheita de alho em Rio Paranaíba, interior de Minas Gerais. Entre eles estavam seis adolescentes, incluindo a menina grávida.

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No ambiente de trabalho não havia banheiro suficiente, nem cadeiras para as pessoas se sentarem e as refeições eram consumidas frias. Os trabalhadores não tinham carteira de trabalho assinada, nem receberam equipamentos de proteção individual. Os responsáveis chegaram a ser presos e foram liberados após prestar depoimentos.

No município de Batalha, no Piauí, os 13 trabalhadores encontrados em situação análoga à escravidão estavam preparando um tamanduá para comer, por falta de alimentação adequada. Eles atuavam no corte de palha de carnaúba e moravam em localidades próximas.

De acordo com o procurador do Trabalho José Wellington Soares, em todas as frentes de trabalho a situação era precária. “Alojamentos completamente improvisados em casebres no meio do mato, alimentação preparada sem condições mínimas de higiene, trabalhadores se alimentando de caça, tudo fora do que diz a legislação”, descreveu.

Idosa cuidadora

No Rio, a idosa, uma mulher negra que não teve o nome divulgado, trabalhava para a mesma família havia 50 anos, no bairro Grajaú. Há 16, ela passou a ser a doméstica da casa e, ainda, a cuidadora de outra idosa, de 101 anos, que é mãe de sua antiga empregadora.

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A idosa dormia em um sofá para que pudesse estar mais perto da anciã, caso ela precisasse de cuidados. Para ela, era reservado um banheiro na parte externa da casa. Submetida a jornada excessiva, ela não voltava para a própria casa desde dezembro de 2022. Os empregadores foram indiciados pela PF.

Conforme o MTE, os trabalhadores resgatados já receberam cerca de R$ 3 milhões em verbas rescisórias e foram pagos R$ 2 milhões em danos morais coletivos. O valor total será maior, pois muitos pagamentos ainda estão em processo de negociação com os empregadores ou serão apurados judicialmente.

O mês da operação é marcado pelo Dia Internacional para a Memória do Tráfico de Escravos e sua Abolição, instituído em 23 de agosto pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). A data lembra a morte do abolicionista Luís Gama, patrono da abolição da escravidão no Brasil.

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