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Tem o hábito de comer rápido demais? A ciência está atrás da explicação

Pesquisadores identificaram, em camundongos, células cerebrais que controlam a rapidez com que esses animais alimentam e quando param de comer; próximo passo é testar isso em humanos

Foto do author Giovanna Castro
Por Giovanna Castro

Por que algumas pessoas sentem mais fome do que outras? E por que algumas comem tão rápido, enquanto outras se alimentam devagar? Um estudo publicado na revista científica Nature nesta quarta-feira, 22, pode trazer as primeiras pistas para termos essas respostas. Os pesquisadores descobriram, em camundongos de laboratório, células cerebrais que controlam o quão rápido esses animais comem e quando param de comer. Ainda serão necessários testes para entender se esse comportamento se replica em humanos.

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Os cientistas já haviam descoberto que nervos do intestino, chamados nervos vagais, detectam a quantidade de alimento que os camundongos estão consumindo e quais são os nutrientes captados. Agora, entenderam que esses nervos vagais usam sinais elétricos para passar essas informações para uma pequena região do tronco cerebral que influencia quando os roedores param de comer.

Esta região cerebral, chamada núcleo caudal do trato solitário, contém neurônios liberadores de prolactina e GCG, ligados à sensação de fome e de saciedade.

Descoberta científica pode ajudar a desvendar como funciona o apetite humano. Foto: Jacob Lund/Adobe Stock

Segundo o fisiologista Zachary Knight, da Universidade da Califórnia, em São Francisco (EUA), e seus colegas, responsáveis pelos estudos, foram implantados sensores de luz no cérebro de camundongos para que esses neurônios liberassem um sinal fluorescente quando ativados por sinais elétricos transmitidos ao longo do corpo.

Em seguida, eles infundiram um alimento líquido chamado Garanta – que contém uma mistura de gordura, proteína, açúcar, vitaminas e minerais – nos intestinos desses animais. “Durante um período de dez minutos, os neurônios tornaram-se cada vez mais ativados à medida que mais comida era infundida. Esta atividade atingiu o pico alguns minutos após o término da infusão”, afirma o estudo.

Esses mesmos neurônios não foram ativados quando a equipe infundiu solução salina, demonstrando sua relação exclusiva com os alimentos. Além disso, quando a equipe permitiu que os roedores comessem alimentos líquidos livremente, os neurônios foram ativados segundos depois que os animais começaram a lamber a comida, e desativados assim que pararam de lamber.

Os resultados mostram que os neurônios respondem de forma diferente, dependendo se os sinais vêm da boca ou do intestino, e sugere que os sinais da boca substituem os do intestino, afirma Knight.

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“Ao usar um laser para ativar neurônios PRLH (prolactina) em camundongos que comiam livremente, os pesquisadores puderam reduzir a rapidez com que os eles comiam. Outras experiências mostraram que os neurônios não foram ativados durante a alimentação em camundongos que não tinham a maior parte da sua capacidade de sentir o sabor doce, sugerindo que o sabor ativou os neurónios”, diz o estudo.

Os pesquisadores também descobriram que os neurônios GCG, ativados pelos sinais do intestino, controlam quando os roedores param de comer. “Os sinais da boca controlam a rapidez com que você come, e os sinais do intestino controlam o quanto você come”, diz Knight.

O neurocientista Chen Ran, da Universidade de Harvard, em Boston, Massachusetts (EUA) disse à revista Nature estar “extremamente impressionado com este artigo”. Segundo ele, o trabalho fornece ideias originais sobre como o sabor regula o apetite e as descobertas provavelmente também se aplicam aos humanos, porque estes circuitos neurais tendem a ser bem conservados em ambas as espécies.

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