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'A Serpente de Essex' ambienta paixão em tempos monstruosos

Romance adaptado recentemente para a Apple TV mostra protagonista empoderada já no século 19

Por Cristhiano Aguiar
Atualização:

Em A Serpente de Essex (Intrínseca), romance da escritora inglesa Sarah Perry, o monstruoso tem dupla face: desejo e silêncio. Convenções sociais, criaturas míticas, ciência vitoriana, luta de classes e a exuberância cega, indiferente, da paisagem natural da região de Essex, na Inglaterra, são alguns dos ingredientes que contribuem para a peculiar atmosfera deste romance. No coração da trama reside menos a caça a um monstro – a serpente que supostamente aterroriza a região de Essex – e sim a relação entre o casal de protagonistas, a recém-viúva Cora Seaborne e o pastor casado Wiliam Ransome.

Pântanos e frias praias são cenários recorrentes no livro de Perry. Estes são universos fronteiriços, onde o mineral, o vegetal e o animal se confundem. Da mesma maneira, Cora e William iniciam um relacionamento no qual amizade e paixão se entrelaçam e se misturam. Há bruto desejo no coração deste relacionamento, assim como genuína admiração e companheirismo. 

Claire Danes em cena da série 'A Serpente de Essex' Foto: Apple TV+

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Sarah Perry trilha uma carreira que concilia sucesso de público e de crítica. Finalista de diversos prêmios literários, a autora ganhou o Waterstones Book of the Year Awards e o British Book Awards com A Serpente de Essex (romance originalmente publicado em 2016), tendo sido também finalista do Women´s Prize for Fiction e do Costa Book Awards, entre outros. A Serpente de Essex, recém-adaptado como minissérie para o AppleTV, estrelando Claire Danes e Tom Hiddleston, foi um best-seller no Reino Unido. 

Recém-viúva, liberta de um casamento sem amor, no qual sofria diárias violências psicológicas, Cora Seaborne, mulher de consideráveis posses, decide se mudar para a região de Essex com seu filho Francis e a sua criada (e amiga) Martha. Ao se estabelecer no local, ela passa a conviver com a população do lugar, em especial com o reverendo William Ransome e seu esposa, Stella. Logo, Cora descobre que um fato estranho aterroriza a provinciana população local: um monstro, uma serpente mítica, seria responsável por uma morte recente, o que cria um clima de medo sufocante no local. Cora passa a investigar o fato, pois considera começar uma carreira de paleontóloga amadora. Enfrenta, porém, a resistência de Ransome, por quem logo se apaixona. 

A Serpente de Essex faz parte de uma trilogia de romances, escrita por Perry, no qual há um forte diálogo com a rica tradição da literatura gótica dos séculos 18 e 19. O “gótico” se encontra, aqui, não só na atmosfera de parte do romance, nem na possibilidade do monstro sobrenatural, mas em especial no não dito, no reprimido, nas sombras pelas quais caminha o silêncio de seus personagens, em especial o casal de protagonistas.

A Serpente de Essex é principalmente um romance de temática amorosa, que também procura ser uma reconstituição histórica, de aguçada análise social, da última década do século 19

O insólito, neste caso, e a sedução do gótico, não residem no compromisso com sustos ou com a exploração de cenários sombrios, ou de personagens monstruosos e de suas perversões. Isto porque A Serpente de Essex é principalmente um romance de temática amorosa, que também procura ser uma reconstituição histórica, de aguçada análise social, da última década do século 19 na Inglaterra. A Serpente de Essex é menos Drácula e Frankenstein e muito mais Jane Eyre e A Inquilina de Wildfell Hall, portanto. 

O romance acerta sempre que foca nos dilemas existenciais e amorosos de Cora e William. Cora é uma mulher inteligente e que busca reencontrar a si mesma após o seu casamento falido. Sua busca por autoafirmação abraça a ciência, a leitura e a racionalidade. William, por outro lado, embora seja um homem de fé, convida a ponderação e o racionalismo a fazerem parte de sua prática como sacerdote.

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Claire Danes e Tom Hiddleston em cena da série 'A Serpente de Essex' Foto: Apple TV+

Deste modo, A Serpente de Essex nunca cai em clichês na caracterização dos protagonistas, porque explora a dimensão intelectual da vida de ambos, flertando, deste modo, com o romance de ideias. Quase uma personagem também, a paisagem natural de Essex, com suas névoas, líquens, aromas e lama, é narrada de uma maneira poética e luxuriante, outro dos pontos altos do livro. Perry, porém, se perde nas tramas paralelas com seus outros personagens, que embaralham bastante o fio narrativo principal, em especial no meio do romance. 

Silêncio e desejo, portanto, são a tônica. Cora e William vivem uma amizade amorosa cheia de interditos e tabus; é silencioso, também, o mundo natural, que nunca se revela totalmente às investigações da protagonista do romance, sendo igualmente misterioso e ameaçador para seu amigo-amante. Entre olhar o mundo e os próprios sentimentos, entre fósseis e espartilhos, há, em A Serpente de Essex, o mistério das paixões e do reencontro com si mesmo. Assim, é da ambiguidade das sombras, do sexo e dos mitos que A Serpente de Essex retira boa parte do seu fascínio, se tornando, apesar dos percalços, uma fascinante leitura. 

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