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Antônio Xerxenesky mergulha no terror em 'As Perguntas'

Livro foi encomendado como parte de possível coleção do gênero

Por Mateus Baldi
Atualização:

Um dos grandes lançamentos de 2017, ainda que estranhamente pouco comentado, As Perguntas confirma o talento de Antônio Xerxenesky como um dos mais talentosos escritores da atualidade. Retornando ao romance após o ótimo F, em que uma assassina de aluguel precisava matar o cineasta Orson Welles, Xerxenesky faz neste livro uma espécie de ensaio sobre existir nas sombras. 

Escritor Antônio Xerxenesky durante entrevista na redação do'Estado' Foto: Daniel Teixeira/Estadão

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Escrito sob encomenda de Joca Reiners Terron como parte de uma possível coleção de livros de terror sob o selo principal da Companhia das Letras, As Perguntas tenta descobrir a história de Alina, editora de vídeos que desde pequena enxerga vultos e sombras. Historiadora com ênfase no estudo do ocultismo, a protagonista se acostumou ao cinismo cotidiano de conseguir explicar tudo através da ciência. Extremamente cética, Alina só começa a perceber o sinistro do dia a dia quando é procurada pela polícia. Subitamente, jovens de classe média estão surgindo desorientados pela capital paulista, seus corpos marcados por tatuagens. 

Muito mais que um simples exercício de gênero e estilo, As Perguntas parte de um plot banal para decifrar a existência da juventude. À beira do abismo dos 30 anos, sua protagonista é insegura, descontente com seu trabalho e frequentadora assídua de festinhas insossas. Colaborar com a polícia é mais um refúgio do que oferta de perigo. E é nesse refúgio que o brilho de Xerxenesky se revela. Em um caminho de divagações filosóficas, a obsessão de Alina envolve o leitor não por sua voz, infelizmente camuflada numa terceira pessoa durante a primeira parte da narrativa, mas sim pelo potencial niilista em detrimento de algum vestígio de esperança. 

Desde a capa, As Perguntas já diz se tratar justamente disso, os vestígios. Percorrendo uma cidade fria e cinza, as quase 200 páginas do romance se dividem em dia e noite para retratar vinte e quatro horas na vida desse Leopold Bloom às avessas. Apesar do flerte explícito e bem construído com James Joyce, o que se encontra aqui é o desejo de mapear não uma cidade e uma vida, mas toda uma geração. Lentamente deixando de lado o gênero terror e abraçando o avesso das ilusões que tanto pautaram Nietzsche e Camus, Antônio Xerxenesky acerta ao tomar para si as rédeas da situação e devolver a Alina todo o seu potencial narrativo com a primeira pessoa. Fazendo referências à cultura pop sem cair no conforto do óbvio, As Perguntas dá voz a uma mulher que poderia ser qualquer uma. Alina, ponto sozinho na Avenida Paulista enquanto um curta é rodado perto da Fiesp, se torna legião. Dito isso, é assombroso o talento de Xerxenesky para criar boas protagonistas femininas; mais ainda, é motivo de alegria para qualquer leitor pegar um livro que consiga destrinchar geração e invencionices de gênero. 

A certa altura do livro, Xerxenesky escreve que a “angústia nunca é compartilhável”. Mesmo sendo As Perguntas seu livro mais pessoal – o próprio autor enxerga vultos desde pequeno –, traduzir essa angústia em páginas, logo, compartilhá-la, exige que se dedique um nível obsceno de disposição à megalomania. Poucos conseguem tamanha entrega. E não digo isso porque o livro sai do gênero – o próprio F, policialesco do início ao fim, já demonstrava o conforto de Antônio nas fórmulas prontas. O trunfo dessas perguntas que tanto incomodam Alina – e por fim o leitor – é justamente trazer para si reflexão sobre tempos sombrios. 

Espécie de manual de sobrevivência no século 21 – para os desiludidos, claro –, As Perguntas não deve ser lido à luz de um livro de terror, tampouco de gênero algum. Se há uma certeza em meio às dúvidas é o fato de não pertencer a nada específico. Mesmo com a rica bibliografia ocultista, os sustos que suas páginas dão, o sangue, a polícia – tudo é motivo para que se desconfie das reais intenções de um Antônio Xerxenesky cada vez mais afiado. Ao fim desse dia, quando o sol já tiver nascido e uma casinha se iluminar de sombras, tudo que o bom leitor deve fazer é reorganizar o livro e pensar. 

Eis que surge o verdadeiro terror. 

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*Mateus Baldi é escritor e roteirista. Fundador da plataforma literária 'Resenha de Bolso', foi editor de cultura da revista 'Poleiro' 

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