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Quem é o CEO de 19 anos que está por trás de mostras imersivas que vão de Da Vinci a Hello Kitty

Mohamad Rabah, jovem empreendedor que comanda a Multiverso Experience, acaba de entrar na faculdade, ouve reggaeton, admira Elon Musk, considera experiências interativas tão arte quanto exposições tradicionais e afasta rótulo de nepo baby

Foto do author Simião  Castro
Por Simião Castro
Atualização:

Quem chegasse ao café decorado com neon e visse o discreto jovem sentado abaixo do letreiro passaria direto. Por ali, nada mais comum que universitários com espressos, notebooks ou — a exemplo dele — ao celular com um copo d’água numa tarde de segunda. Mas era Mohamad Nassib Rabah. Aos 19 anos, o rapaz é CEO de uma das produtoras de exposições e experiências imersivas de arte e entretenimento em São Paulo, com um investimento de milhões de reais.

O cabelo na régua acompanhado da camisa estilo polo preta simples e calça jeans transmitiam uma sobriedade reforçada pela personalidade tímida expressa a seguir. Muito embora um olhar mais atento note o contraste: apenas a peça superior do look custa US$ 385, conforme o site da marca — a Moncler. Talvez uma demonstração prática de quiet luxury, das roupas básicas de grife, popularizado pela série Succession?

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Com esse jeito reservado, porém assertivo, desde janeiro de 2023 é ele quem define os rumos da Multiverso Experience. Rabah tem dois sócios, Zol Israel, que cuida da produção de conteúdo (as imagens) e Vinicius Diettrich, responsável pela parte técnica de sistemas para fazer tudo funcionar. A empresa já tem quase 20 anos, operava em Porto Alegre e veio para São Paulo competir no ramo das exposições interativas e imersivas.

Com a chegada de Rabah, eles criaram experiências com cenografia e projeções de obras de artistas como Da Vinci, Van Gogh, Monet e Michelangelo. Mas também utilizaram de nomes mais pop, como a Hello Kitty e o reality Masterchef. A opção por começar com gênios da pintura não foi por acaso: a matéria que ele mais gostava na escola era história da arte.

Mohamad Rabah mal iniciou a faculdade de Administração, mas desde ano passado já comanda uma empresa de experiências imersivas. O objetivo a longo prazo é ter uma unidade em cada estado Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Herança empreendedora de imigrantes

O copo cheio até a borda e a garrafinha pela metade de aspectos intocados sinalizavam as origens do jovem. A família vem do Líbano. Nossa conversa, em 25 de março, ocorreu em pleno ramadã: quando muçulmanos precisam manter um jejum absoluto desde o nascer até o pôr do sol. Nem água pode.

Os avós de Rabah vieram para o Brasil no final dos anos 1940, mas por decisões familiares e profissionais, os pais dele foram criados no Líbano. Um dos avós de Rabah morreu quando o pai — do qual herdou o nome, Nassib Rabah — tinha apenas seis anos. Ele voltou então para a terra natal com o resto da família. Já o avô por parte de mãe não conseguiu conciliar trabalho e criação, enviando a filha mais velha, Amal, para morar com o tio no Oriente Médio.

Entre o fim dos anos 80 e início dos anos 90 os pais de Rabah voltaram ao Brasil. Nassib começou a trabalhar vendendo roupas numa loja de um tio, mas queria mais. Abriu a própria loja, depois outras, cresceu e diversificou. Agora, se dedica a importações e exportações no segmento de eletrônicos. E a trajetória influenciou fortemente o filho.

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Referências unem passado e futurismo

Além de ter o empreendedorismo no sangue, Rabah conta que a área sempre foi um interesse próprio. “Desde pequeno sempre li muito livros sobre negócios e investimentos. Sempre gostei muito do assunto. Eu ficava apaixonado vendo filmes de bolsa de valores. A Grande Aposta, que é o filme que eu mais gosto, já vi umas 30 vezes e nunca perde a graça”, ilustra. A série preferida, no entanto, é Prison Break.

Mas sem histórico de trabalho (“nunca tinha trabalhado na minha vida”) nem recursos próprios (”não tinha dinheiro”), como Rabah saiu direto da escola para o cargo mais alto em uma empresa? “Meu pai também sempre me incentivou a empreender, a abrir minha própria empresa. Na questão financeira, meu pai sempre me ajudou. Dinheiro é sempre um problema”, explica.

Aos 19 anos, Mohamad Rabah se tornou sócio de empresa graças a investimento feito por seu pai, que acompanha os resultados de perto Foto: DANIEL TEIXEIRA

Ele aponta também semelhanças entre os dois e especula que o tino do pai para os negócios também tenha pesado na decisão de financiá-lo. “Ele sabe o que precisa ser feito, sabe que eu não conseguiria trabalhar para outra pessoa e que eu gostaria de ter minha própria empresa”, diz. Nassib acompanha os resultados com olhos de lince.

Apesar do apoio do pai de mais de R$ 1 milhão — ele reluta em revelar o valor exato, mas admite que “para montar um espaço destes é um investimento alto” —, Rabah desvia do rótulo de nepo baby: “Eu vejo como uma oportunidade, que nem todo mundo tem, mas eu agarrei e não soltei mais”, argumenta.

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Com tempo livre após o Ensino Médio e a garantia do empurrãozinho da família, o jovem tratou de buscar algo em que teria prazer de trabalhar. Foi apresentado aos sócios por um amigo e viu que a Multiverso alia vários interesses que ele possui. O jovem diz ser amante das artes — ele, no entanto, não conhece o Museu do Louvre, embora já tenha ido à França — e muito ligado a tecnologia e inovação.

Esse é um dos motivos de escolher um bilionário do setor como inspiração nos negócios, não sem antes mencionar alguém mais próximo. “Primeiro o meu pai, pelo fato de ele ter saído de onde saiu e ter conseguido conquistar tudo sozinho. De figura pública, o Elon Musk”, revela. Mas não pela riqueza:

Todas as empresas dele têm o propósito de conservar a raça humana, o planeta Terra. São sempre focadas em ESG. Então o Elon Musk por ele estar fazendo empresas futurísticas, ele está inovando.

Visão de negócios de Elon Musk gera admiração em Mohamad Rabah Foto: Tingshu Wang/Reuters

Engordar o gado com o olho

Rabah agora busca o break even, termo do mercado para quando a empresa alcança o retorno do investimento. “Nos próximos capítulos já vamos atingir. Nos próximos meses, eu diria”, diz. Se depender da mão dele, o lucro sairá logo.

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Com a tradicional filosofia de que olho do dono é que engorda o gado, ele acompanha de perto o negócio. Tão logo inaugurou o espaço no Shopping Vila Olímpia onde realiza suas exposições, fez questão de ficar no caixa da lanchonete para sentir a rotina dos funcionários. “A primeira coisa que eu fiz foi procurar a cadeira mais confortável, porque meus colaboradores não iam ficar ali em pé o dia inteiro”, afirma.

Ele também tem o hábito de acompanhar as montagens das exposições, inclusive ajudando no que for necessário. Seja carregando caixas, elementos cenográficos ou saindo para resolver pepinos no meio da madrugada — o shopping restringe obras e montagens aos horários em que está fechado ao público.

Para decidir por essa conduta, se espelha no exemplo do pai no momento em que construía a empresa da família. “O CEO não é só aquela pessoa de terno engravatado o dia inteiro. Colocar a mão na massa também é ser CEO. Como você vai cobrar alguma coisa do seu colaborador se você não souber fazer o que ele faz e o que ele passa?”, questiona.

Vida pessoal em segundo plano

A faculdade só está chegando agora. O jovem cursa Administração desde o início de 2024 na Link, uma faculdade sediada em São Paulo com ênfase em empreendedorismo. “Ela tem muito meu perfil. A metodologia de ensino é diferente, é para aquela pessoa que quer abrir empresa. Os professores são todos empresários. Ter essa liberdade de conversar com eles sobre a minha empresa é uma experiência muito importante para mim, pelo desenvolvimento tanto pessoal, quanto profissional”, explica.

E, embora ele mesmo tenha iniciado a carreira primeiro, Rabah defende o ensino superior. “Todo mundo que tiver oportunidade de ir para a faculdade tem de ir. Esse negócio de ‘Bill Gates não fez faculdade’ não funciona. Conhecimento nunca é demais”, aconselha.

O pior erro do homem é achar que ele sabe tudo. Se você está aberto a aprender, você se torna cada vez mais sábio

afirma Rabah

De acordo com o site da instituição, a mensalidade desde janeiro deste ano é de R$ 11.536. O curso de Administração dura quatro anos, como praxe em outras faculdades, e os módulos são divididos em semestres. Só o que ele ressalva é que desde que teve de conciliar trabalho e estudo, o tempo para sair ficou escasso.

O empresário relembra que antes de entrar no negócio se divertia bastante em barzinhos e com os amigos. Mas, desde então, o objetivo tem sido se dedicar à Multiverso durante todo o tempo que não está em aula. Ele diz que quando a organização estiver caminhando com as próprias pernas, poderá voltar a pensar mais em lazer. “Vai demorar um pouco”, reflete.

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A Mesquita Mohammad Al-Amin, no centro de Beirute, Líbano Foto: Marinadatsenko/Adobe Stock

Passaporte movimentado e o gosto por ritmos latinos

Embora tenha sido criado a vida toda no Brasil, a ligação do jovem com o Líbano é ainda muito forte e ele é fluente em árabe. Quando finalmente a noite caiu, ele virou o copo cheio d’água de um gole só. E contou como gosta de passar o ramadã no país árabe, lembrando com carinho da atmosfera do lugar.

“Quando você faz um jejum, por exemplo, e que quando você pode comer, é o horário da reza. Você escuta o anúncio nos alto-falantes na cidade inteira. É uma experiência diferente. Eu gosto muito de jejuar lá, porque é importante para mim”, observa. A viagem para visitar os parentes é cativa, anual.

Mas um dos rituais islâmicos mais sagrados ele ainda não cumpriu: o de ir à Meca. Conforme as escrituras, Maomé recomenda que todo fiel que puder deve fazer a peregrinação à cidade ao menos uma vez na vida. Essa é uma viagem que ele mantém no horizonte. “Já fui à maioria dos países árabes”, ressalva.

Muçulmano, empresário lembra com carinho de passar o ramadã no Líbano, país dos ancestrais dele Foto: DANIEL TEIXEIRA

Aos Estados Unidos, que visita com frequência, ele vai para passear, tendo como lugar preferido as praias de Miami. Lá, ele curte principalmente o clima e a vibe, com influências latinas que reproduzem muito o estilo de música favorito dele. “Eu gosto bastante de reggaeton. E o clima de Miami é extraordinário”, confidencia. No passaporte, coleciona também passagens por Turquia, Argentina e Paraguai.

‘Experiências imersivas são tão arte quanto’

Ele diz que um dos motivos que o move a viajar é conhecer outras culturas. E esse é também um dos objetivos que guia a empresa: democratizar o acesso a cultura e arte. Mas projeções de obras famosas é arte?

“Depende muito da experiência. Se você só projetar a Mona Lisa e não fizer nada, é só a projeção de uma pintura. Mas fazemos a pessoa entrar numa pintura, com uma animação. A experiência é totalmente diferente de você estar no museu”, considera.

Além da animação, os espaços concebidos por Rabah agregam ainda cenografia, com construção de cenários e réplicas, sonoplastia, com trilhas específicas para cada ambiente, estímulos táteis, permitindo o toque ou a manipulação de objetos, e olfativos, com aromas diferentes em cada atmosfera. E há, ainda, tour em 3D com uso de óculos de realidade virtual.

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“Na minha opinião, é tão arte quanto, que vai impactar um público maior. Porque quem gosta de arte não vai deixar de ir nessa exposição. E quem não gosta, [frequenta] porque é mais animada, ativa os sentidos, é imersiva. Você mistura, por exemplo, a tecnologia de uma China e Estados Unidos com a beleza natural de história, de cultura, de uma Itália, de pintores grandiosos como Da Vinci e Michelangelo”, defende.

O empresário também diz buscar praticar preços tão acessíveis quanto possível, para permitir que pessoas dos mais diferentes extratos sociais frequentem o espaço — inclusive por ficar em uma região nobre de São Paulo, o que poderia desestimular a ida de uma parcela do público. A exposição da vez, sobre os 50 anos da Hello Kitty, tem ingressos a partir de R$ 25, a meia-entrada.

Turistas de pernambucanos visitam a exposição 'Pincelando a História', criada pela Multiverso Experience em janeiro de 2024 Foto: Taba Benedicto/Estadão

“Para futuro, pensamos em fazer sistemas de doação de ingressos, para tornar mais acessível. Por exemplo, com lei de incentivo e contrapartida social. Porque podemos não afetar tanto nossos resultados e trazer arte e cultura para pessoas que não conseguiriam consumir. Já está em projeto. E recentemente fechamos uma parceria com a Prefeitura de São Paulo para doar ingressos para educadores, mas eu pretendo fazer mais em larga escala”, afirma.

Para as próximas edições, no entanto, a arte está um pouco de lado. Ele não fala abertamente de todos os projetos que serão executados a seguir em razão de impedimentos contratuais, mas já garante que uma das próximas será com personagens do canal Cartoon Network. E deixa no ar a magia que em breve pode ocupar o espaço no shopping, com figuras dignas de monarquia.

Para a empresa, o desejo é ousado. “O objetivo mesmo é, se Deus quiser, daqui a uns anos, um Multiverso em cada estado”. Além das unidades em Porto Alegre e São Paulo, ainda esse ano vai inaugurar uma unidade focada em turismo religioso em Encantado (RS). A cidade inaugurou em 2022 uma estátua do “Cristo Protetor” com 43 metros de altura. Rabah também estuda expandir para Fortaleza, Foz do Iguaçu e Curitiba, mas sem planos concretos por enquato.

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