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Bienal de Veneza: Brasileiros vencem Leão de Ouro da arquitetura pela 1.ª vez

Gabriela de Matos e Paulo Tavares trouxeram temas afro-indígenas ao Pavilhão do Brasil, que conquistou pela 1.ª vez o prêmio

Por Marcelo Lima
Atualização:

Pela primeira vez na história, o Pavilhão do Brasil na Bienal de Arquitetura de Veneza é ganhador do Leão de Ouro de Melhor Participação Nacional. A conquista, confirmada neste sábado, 20, consagra a proposta curatorial dos arquitetos e urbanistas Gabriela de Matos e Paulo Tavares, que, partindo de uma reflexão sobre o Brasil de ontem, o de hoje e o do amanhã, coloca o elemento terra no centro dos debates. Tanto como poética, quanto como elemento constituinte do espaço expositivo.

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Para tanto, todo o pavilhão brasileiro, projetado por Henrique Mindlin e construído em 1964, foi aterrado, colocando o público em contato direto com a tradição dos territórios indígenas, quilombolas e dos terreiros de candomblé.

“Nossa proposta parte da ideia de pensar o Brasil enquanto terra. Terra como solo, chão e território. Mas também em seu sentido global e cósmico, como planeta e casa comum a toda a vida. Terra como memória, como patrimônio, mas também como futuro”, resume Gabriela.

“Nós não estávamos esperando, foi uma surpresa”, afirmou Paulo nesta manhã, ainda em Veneza. “Estamos muito honrados com esse prêmio e a resposta do público também tem sido muito entusiasmante. Todos se sentem bastante conectados com a história que nós trazemos no pavilhão”, complementa o arquiteto, para quem o reconhecimento advém também do fato de o projeto falar de reparação e de restituição. “Tanto que o júri que seleciona o Leão de Ouro citou esse aspecto ao pronunciar o resultado”, afirma ele.

Diáspora

Com todos os holofotes voltados para a África, a 18.ª Bienal de Arquitetura de Veneza, aberta oficialmente neste sábado, 20, prossegue até 26 de novembro. Ocupando, além de suas habituais locações do Arsenale e do Giardini, edifícios do centro histórico da cidade italiana.

Eixo central das discussões, o tema deste ano, Laboratório do Futuro, pretende abordar a diáspora africana no mundo, tendo como pano de fundo as questões da descolonização e descarbonização. Em 2023 serão 63 as participações nacionais, 27 delas concentradas nos pavilhões dos Giardini, 22 no Arsenale, e as demais espalhadas pela cidade.

“Um ato necessário”, nas palavras da curadora da presente edição, a arquiteta,educadora e romancista ganesa-escocesa, Lesley Lokko, para quem a bienal representa uma oportunidade única de enriquecer ou alterar uma história ainda a ser contada. “O impacto das mostras e das discussões de Veneza se percebe para muito além das paredes e dos espaços físicos dos edifícios que a encerram. O que dizemos publicamente ali é fundamental, porque é o terreno sobre o qual se constróem as verdadeiras mudanças. Tanto as pequenas, quanto as grandes”, resume a curadora.

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Confira a seguir os principais trechos da entrevista que os curadores do pavilhão brasileiro deram ao Estadão:

A quais fatores vocês atribuem a conquista do Leão de Ouro?

Gabriela de Matos: Achamos que, fundamentalmente, há um momento mundial que nós entendemos existir na arquitetura que busca reconhecer outras produções e perspectivas, um momento de valorizar um outro olhar.

Nesse sentido, acreditamos que nosso projeto e proposta curatorial não poderiam ser mais apropriados, considerando a proposta de Lesley Lokko, a conclamação dela para descobrirmos essas experiências em territórios diaspóricos, como o Brasil.

Paulo Tavares e Gabriela de Matos com o Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza 2023. Foto: Instagram/@pauloxtavares

Como o projeto da representação brasileira se liga ao tema da Bienal deste ano, Laboratório do Futuro?

Gabriela de Matos: Falamos de arquiteturas da diáspora africana no Brasil, que, junto a outras arquiteturas ancestrais do nosso território, reproduzem organizações espaciais próprias. Também apresentamos representações patrimoniais indígenas e afro-brasileiras, que intitulamos de “Lugares de Origem, Arqueologias do Futuro”. Assim, procuramos olhar para tecnologias ancestrais que nos mostram a possibilidade de um mundo novo, mas já presente, onde reparação e restauração compõem uma mesma utopia arquitetônica, local e global.

Por que a escolha do tema terra para ocupar o centro dos debates?

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Paulo Tavares: É interessante notar que a palavra “terra” denota diversos elementos, em diferentes escalas. Terra é território, é chão, é solo. É lugar de pertencimento e o que gera toda a vida existente. É portanto planetária, universal, cósmica.

Por tudo isso, é a terra que conecta todos os projetos no pavilhão brasileiro. Na primeira sala, questionamos o imaginário moderno de conquista e colonização representados por Brasília. Na segunda, focamos em tecnologias e práticas espaciais, afro-brasileiras e indígenas. Além disso, a terra entra como componente material, recobrindo todo o piso do pavilhão.

Como esse “aterramento” dialoga com a arquitetura do pavilhão?

Gabriela de Matos. Ao apresentarmos um questionamento sobre a visão colonial da terra, não poderíamos deixar de contestar a neutralidade do pavilhão modernista que representa o Brasil no Giardini. Não podemos esquecer que ele foi desenhado por Henrique Mindlin, um dos expoentes do movimento moderno no Brasil, que colaborou para a afirmação da ideia de que a tradição arquitetural brasileira tinha matriz europeia, portanto, colonial.

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Como estamos falando de patrimônio – e o pavilhão é um patrimônio reconhecido pelo Iphan [(Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] e pela Unesco [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura] –, nos pareceu importante questionar, por meio de diversas intervenções, a neutralidade de sua arquitetura e das ideologias que ele carrega.

E como vocês enfocaram essa aparente contradição?

Paulo Tavares. Na primeira galeria, ao ser convidado a pisar sobre a terra, a ideia é que o público possa reconhecer o Brasil como território ancestral. Além disso, ao entrar em contato com o solo, ele também é convidado a refletir sobre sua condição de habitante planetário.

Já na segunda, bandeirolas confeccionadas por tecelãs baianas com panos da Costa, pretendem evocar os barracões de candomblé.

Por fim, na parte exterior, um conjunto de gradis com desenhos Sankofa – um tipo de grafismo da África Ocidental que reproduz conceitos filosóficos –, vai reconfigurar a fachada do pavilhão, trazendo para o edifício um elemento significante na constituição do imaginário das ruas brasileiras.

O projeto se propõe também a abordar a atual crise climática. Acreditam que, de alguma forma, ela se conecta a estruturas herdadas do passado?

Gabriela de Matos: Sim, em muitos aspectos. Na sala “Lugares de Origem, Arqueologias do Futuro”, por exemplo, apresentamos uma série de práticas e tecnologias afro-brasileiras e indígenas que, em essência, são formas de arquitetura fundamentais para enfrentar a crise ecológica e climática. Práticas que reconhecidamente apontam para um futuro mais sustentável.

É só pensar, por exemplo, nos Sistemas Agroflorestais do Rio Negro, com sua imensa biodiversidade. Reconhecer essas práticas, enquanto desenho da paisagem, requer um processo de descolonização do nosso entendimento do que é arquitetura, patrimônio. E, no limite, da nossa própria ideia de civilização.

Exposição Terra

La Biennale di Architettura di Venezia (Bienal de Arquitetura de Veneza)

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Endereço: Giardini Napoleonici di Castello, Padiglione Brasile, Veneza, Itália

Data: 20 de maio a 26 de novembro de 2023

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