‘Um Completo Desconhecido’ tenta desvendar Bob Dylan pelas beiradas; leia entrevistas

No filme dirigido por James Mangold e estrelado por Timothée Chalamet, que tem oito indicações ao Oscar e estreia esta semana no cinema, as amizades, amores, locais e a época são fundamentais para entender o cantor e compositor; leia entrevistas

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Com oito indicações ao Oscar, 'Um Completo Desconhecido' foca na vida do cantor e compositor Bob Dylan entre 1961, quando ele chega a Nova York, e 1965, em que faz seu primeiro show com instrumentos elétricos, deixando a folk music para trás. O diretor James Mangold destaca a genialidade de Dylan, interpretado por Timothée Chalamet, e sua relação com o estrelato. O filme também aborda o ativismo da época, refletindo um período de sonhos e mudanças sociais. O longa estreia esta semana no cinema.

Cinebiografias costumam fazer sucesso no Oscar – no ano passado, Oppenheimer, de Christopher Nolan, levou sete estatuetas. Na cerimônia do próximo domingo, 2, há dois exemplares do gênero que concorrem a melhor filme: o brasileiro Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e Um Completo Desconhecido, de James Mangold, que estreia nos cinemas do País na próxima quinta-feira, 27. O longa disputa oito Oscars, incluindo melhor filme, direção, ator (Timothée Chalamet), atriz coadjuvante (Monica Barbaro) e ator coadjuvante (Edward Norton).

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Um Completo Desconhecido é baseado na biografia Dylan Goes Electric!, de Elijah Wald, e foca na vida do cantor e compositor Bob Dylan entre 1961, quando ele chega a Nova York aos 19 anos, e 1965, em que ele faz seu primeiro show com instrumentos elétricos, deixando a folk music para trás.

Não é a primeira cinebiografia de Mangold. Antes, ele fez Johnny & June (2005), sobre a conturbada vida de Johnny Cash (Joaquin Phoenix) – personagem que, aliás, volta a aparecer aqui, agora interpretado por Boyd Holbrook –, e Ford vs. Ferrari (2019), sobre Ken Miles (Christian Bale) e Carroll Shelby (Matt Damon) em sua tentativa de fazer um carro de corrida para a Ford capaz de desafiar a Ferrari nas 24 Horas de Le Mans em 1966.

“São todos artistas em busca de um sonho”, disse Mangold em entrevista coletiva com a participação do Estadão. Para ele, a genialidade é algo interessante de explorar no cinema, citando o que seu mestre Milos Forman fez em Amadeus (1984). “Esse filme me serviu como inspiração porque aprendemos menos sobre Mozart e mais sobre Salieri, sua mulher, o rei, a corte, sua família. Conhecemos Mozart pelo rastro que ele deixa nos outros.”

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Timothée Chalamet é Bob Dylan em 'Um Completo Desconhecido', indicado a oito Oscars. Foto: Macall Polay/Searchlight Pictures/Divulgação

Mesmo sendo um filme clássico e interessado na trama, Um Completo Desconhecido não pinta um retrato definitivo de Dylan, deixando espaço para os mistérios que sempre o cercaram.

“Eu sempre fico me perguntando o que faria com que as pessoas sentissem que ele é um conhecido”, disse Mangold, agora em entrevista ao Estadão. “O que procuram? Uma confissão de seus maiores medos, uma declaração do que ele mais ama no mundo, uma confissão de um trauma de sua infância? De qualquer maneira, muito está dito em sua música. E ela serve quase como um monólogo dentro do filme. São palavras que vêm dele. Ele fez 55 álbuns de gravações originais. Quanto mais podemos pedir de sua alma?”

O diretor estava interessado em explorar o peso da genialidade. “Sua maior luta é ser um dos maiores compositores de todos os tempos. Ele também tem uma relação ambivalente com o estrelato e com o público e quanto os fãs se sentem no direito de possuir o artista 24 horas por dia. Ele me disse que uma das razões pelas quais fez a transição de artista solo para membro de uma banda foi sua inveja da camaradagem e amizade que enxergava nos grupos que admirava.”

O filme mostra como seus amigos (como Pete Seeger, interpretado por Norton) e namoradas (a artista Suze Rotolo, chamada Sylvie Russo no filme e vivida por Elle Fanning, e a cantora Joan Baez, papel de Barbaro) foram trocas fundamentais para a formação de Dylan e também como ele influenciou – e às vezes infernizou – essas pessoas. Para Fanning, sua personagem torna Dylan mais humano. “Suze o conheceu antes da fama. E influenciou demais o ativismo político dele.”

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Mangold não queria falar de um semideus, mas de um gênio em formação, muito focado em sua música, a ponto de negligenciar todo o resto, inclusive as pessoas que ama. “Sou filho de artistas e tenho interesse em artistas”, disse o diretor, cujos pais trabalham com artes plásticas. “Dylan, Cash, Ken Miles são pessoas difíceis, geniais, que pouca gente compreende. Acho fascinante como esses indivíduos únicos e talentosos têm tanta dificuldade de existir no nosso mundo.”

Preparação dos atores

Em todos os seus filmes, Mangold espera que os atores se tornem os personagens criados no roteiro, mas também tragam uma parte de si mesmos. “Se eu quisesse uma cópia de Dylan, há 55 álbuns e diversos documentários”, disse. “Mas estávamos buscando algo que não dá para encontrar nos documentários ou na música, que é ver como tudo aconteceu e assistir como ele se formou enquanto artista. Por isso a primeira cena é sua chegada a Nova York, porque realmente é ali que Bob Dylan nasce. Para mim não era tão importante Timothée soar exatamente como ele ou ser idêntico a ele, mas que capturasse sua essência, a intimidade de estar com ele.”

O diretor e roteirista teve chance de mostrar o roteiro para Dylan, que fez um pedido: que ele trocasse o nome de Suze Rotolo, para preservar sua memória. Mas o ator não chegou a encontrar Dylan.

Monica Barbaro como Joan Baez e Timothée Chalamet como Bob Dylan em 'Um Completo Desconhecido'. Foto: Searchlight Pictures/Divulgação

Chalamet acabou tendo muito mais tempo do que esperava para se preparar para o papel, primeiro por causa da pandemia, depois por causa da greve de atores e roteiristas. “Obsessão nem é a palavra certa, ele se tornou parte da minha vida”, disse o ator em entrevista coletiva. Ele tinha sua experiência com teatro musical no ensino médio, mas treinou muito para poder cantar e tocar as 26 músicas que aparecem no filme. “Me apaixonei perdidamente por sua obra.”

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Já Barbaro sentiu uma conexão imediata com Joan Baez, que passou bastante tempo na região de São Francisco, onde a atriz nasceu. As duas se falaram por telefone, mas a preparação para o papel consistiu em, primeiro de tudo, aprender a tocar violão. “Treinei sem parar, porque para um músico seu instrumento é uma extensão de seu corpo”, disse Barbaro, que levava o violão para todo lugar. “Passei incontáveis horas praticando para encontrar minha voz também, cantando sempre que podia.”

Para Edward Norton, além do treinamento para viver Pete Seeger, foi fundamental coletar pequenos detalhes. Por exemplo, ele perguntou a Joan Baez se o músico costumava abraçar as pessoas. A resposta foi: não, ele era muito reservado. “Isso é ouro, não está em nenhum filme, nenhum livro.”

Os anos 1960

Mangold nasceu em 1963 e cresceu em Nova York. Portanto não é muito difícil entender seu fascínio pelo período. Porque a época, a cidade e o mundo são tão personagens quanto Bob Dylan em si.

O ativismo de Pete Seeger, Suze Rotolo, Joan Baez e Bob Dylan é parte fundamental daqueles tempos. E, de alguma forma, o final do filme, em 1965, já aponta para um período em que a utopia vai ser desfeita, com o assassinato de líderes como Malcolm X, Martin Luther King e Robert Kennedy e os horrores da Guerra do Vietnã.

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O diretor James Mangold e Timothée Chalamet no set de 'Um Completo Desconhecido'. Foto: Macall Polay/Searchlight Pictures/Divulgação

“Foi um período glorioso na história mundial”, explica o diretor. “É um momento em que as pessoas sonhavam com um mundo diferente, após a Segunda Guerra e o conservadorismo dos anos 1950. Era uma era de otimismo e ansiedade, com a corrida armamentista. Mas as pessoas lutavam por um globo unido, pela igualdade de direitos entre todas as raças, entre homens e mulheres. Sonhavam com algo novo que nunca foi alcançado.”