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Coluna quinzenal do escritor Ignácio de Loyola Brandão com crônicas e memórias

Opinião|A ressurreição dos mortos: E se levar parentes queridos ao banco para cavar um auxílio virasse moda?

Ignácio de Loyola Brandão imagina uma situação em que, inspiradas no caso da mulher que levou o tio ao banco, onde foi constatada sua morte, as pessoas saíssem à caça de parentes provocando caos e desespero com ares de guerra civil

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Foto do author Ignácio de Loyola Brandão

Tudo aconteceu depois que se viu a jovem levando o tio – talvez já morto – para conseguir empréstimo. Viralizou, provocou efeito cascata. Acendeu uma luz em cada cabeça. Levar parentes queridos aos bancos para cavar um auxílio usando a malandragem brasileira. Em um átimo estavam caçando parentes. Tem tosse? Vem comigo? Disenteria? Refluxo? Urina solta? Flatulência? Redes sociais funcionaram. Maioria dos políticos não se importou, vive de emendas parlamentares, rachadinhas.

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Assim, desde o show da Taylor Swift não se tinha visto tanta ansiedade, desespero, congestionamentos, desmaios, enfartes. Semáforos no amarelo, trombadas, cruzamentos fechados, situação de guerra civil nas imediações de agências bancárias. A Faria Lima e a Bolsa alucinadas. Parentes iam aos advogados exigindo recuperação financeira com solicitações do dinheiro bloqueado pelo Collor, exigindo revisão de vida na Previdência, fim dos juros nos cartões, baixa da Selic nos juros. Parte lamuriava, inconsolável: não tenho nenhum morto querido nesta cidade. Cemitérios foram saqueados, covas abertas, vinham esqueletos de décadas, pedaços de braço com a mãos empunhando canetas, prontas para assinar. Circo de horrores.

Todos procuravam um meio de chegar a um posto, se inscrever, pegar o que desse, levando seu ente querido nos braços, nas costas, em carrinhos de mão. Muitos se remoíam, parentes que poderiam render estavam mortos. Foram pedidas exumações. Buzinação, sirenes, carros de som, ambulâncias paralisadas, portas de aço baixadas. Filas gigantescas levando parentes para assinar com uma caneta amarrada na mão. Todos aos gritos: estou aqui há quatro semanas, sabe se chamaram minha senha? Há quantos meses o senhor espera? Você pagou para passar à frente? Já tem mercado paralelo? Na terceira semana, estava o País imobilizado. E as filas empurradas pelos parentes. Apareceram vendedores de água, refrigerantes, sanduíches, sucos. Começaram a se engalfinhar, socos, facas, polícia chegava (sem câmeras, claro) e tentava empurrar a massa. Para onde? Não havia em nenhum ponto do País, um só espaço. Gente desmaiava, pisoteada.

Cena do filme 'Ensaio Sobre a Cegueira', em que pessoas de uma hora para a outra perdem a visão e passam a viver no caos Foto: Focus Features

Lamentos, choros, desesperos, cabelos arrancados, “meu tiozinho, minha madrinha, minha amante!”. “Me deem o dinheiro, eles estão prontos para assinar.” Gasolina faltou em todos os postos. Há meses, acampados esperam sua senha ser chamada. O País está paralisado, há falta de água, comida, energia elétrica, gasolina, carne, inteligência artificial. Todos esperam pela ressurreição dos mortos pra levá-los aos bancos. E o Lira e o Pacheco rindo à socapa.

Opinião por Ignácio de Loyola Brandão

É escritor, membro da Academia Brasileira de Letras e autor de 'Zero' e 'Não Verás País Nenhum'

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