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Coluna quinzenal do escritor Ignácio de Loyola Brandão com crônicas e memórias

Opinião|Envelhecer é levar susto, depois rir

Envelhecer, entre outras, é não perceber a mudança do tempo, as mutações. Vemos pela morte dos outros que estamos velhos. Ryan O’Neal com 82 anos. De repente?

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Certa manhã de 1970, mensagens correram pelas redações da Abril na Rua João Adolfo, centro de São Paulo. Convocando: “Sessão de Love Story, às 10 horas no cine Metrópole”. Não havia celulares, computadores, rede social, era tudo pelo telefone.

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A editora esvaziou. Caminhamos duas quadras e nos posicionamos nas filas gigantescas. Tinha sido avassaladora a promoção do filme. Tanto que a certa altura rolaram sessões contínuas, noite e dia. O filme chegou embalado pelo sucesso da canção, cantada por Andy Williams. Todos sabiam a letra que provocava lágrimas: “Where do I begin. To tell the story of how great a love can be”. Logo veio a versão em português, com Wanderley Cardoso. Saibam que a canção Love Story, criação de Francis Lai, nada tem a ver com a atual Love Story de Taylor Swift e sua imensidão de seguidores.

Como se fosse hoje, na plateia ainda vejo Lu Rodrigues, Thomaz Souto Correa, Isabel Montero, Mona Gorovitz, Carola Whitaker, Attilio Baschera, Luis Lobo, Edith Eisler, Lindolf Bell, Olga Krell, Paulo Paulista, Edmar Salles, Marisa de Braud e Nina, da revista Manequim, Oscar Colucci, Darci Reis, Luis Carta, o big boss. Foi impossível conter as lágrimas, quando Ali MacGraw morreu. No filme, claro. Ainda está viva, com 84 anos. Para mim ela continua a ter a idade que tinha quando fez o filme. Como esquecer a frase que viralizou? “Amar é nunca ter de pedir perdão.” Um lugar-comum, clichê. Repetida milhões de vezes, até se esgotar. Se hoje eu disser a sério a frase, serei cancelado. Ouvirei uma gargalhada ou eu mesmo vou rir de mim. Repeti-la agora nos envergonha.

Ali MacGraw e Ryan O'Neal em filme dos anos 1970 

Envelhecer, entre outras, é não perceber a mudança do tempo, as mutações. Vemos pela morte dos outros que estamos velhos. Ryan O’Neal com 82 anos. De repente? Foram décadas e décadas. Vejam só as que passaram pela cama dele: Ursula Andress, Bianca Jagger, Anouk Aimée, Jacqueline Bisset, Barbra Streisand, Joan Collins, Diana Ross, Anjelica Huston (que o acusou de assédio), Melanie Griffith, Farrah Fawcett. Tinha fôlego.

Envelhecer é levar susto, depois rir. Envelhecer mal é não absorver o que se cria e se recria a cada instante. Terminada a lacrimejante sessão fomos para o bar do hotel Cambridge, que ainda mantinha resquícios de grande luxo. O club sandwich foi criado ali. Hoje, o lugar está ocupado por famílias em situação de rua. Naquele hotel, final dos anos 1950, entrevistei a superstar sensual Jane Russell. Lembrando dela ao lado de Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Loiras. Um megassucesso. Depois andamos pela avenida para uma foto diferente. Nem sei como a convenci a caminhar. Bom ter vivido esses momentos. A felicidade de fazermos o que gostamos.

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Opinião por Ignácio de Loyola Brandão

É escritor, membro da Academia Brasileira de Letras e autor de 'Zero' e 'Não Verás País Nenhum'

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