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Coluna semanal do historiador Leandro Karnal, com crônicas e textos sobre ética, religião, comportamento e atualidades

Opinião|Leandro Karnal: O que explica um bebê nascer com tudo e outros com nada?

Há diversas respostas, como a religiosa, a metafísica, a biologizante ou a dos críticos da desigualdade

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Foto do author Leandro Karnal

Minha afilhada Ava é linda e saudável. Encaminha-se para fazer 2 anos, em dezembro. Nasceu com um sinal nem sempre comum: os pais, Gabriela e Thiago, amam-se e desejaram muito o surgimento dela. Ela é central na vida de ambos. Ava veio ao mundo em um lar de fartura e tem todos os cuidados que a ciência e o dinheiro podem proporcionar. Vive cercada de afetos em uma casa bonita. Bela e inteligente, tudo lhe sorri na aurora da existência.

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Todos sabemos: há crianças derivadas de outras realidades. A gravidez nem sempre foi planejada. O dinheiro escasseia. O casal briga com intensidade. As despesas podem acender discórdias, porque um filho é caro. Algumas crianças nascem com características físicas e psíquicas fora do padrão idealizado pelos genitores. Sabemos que há filhos rejeitados e abandonados.

Um bebê nasce com tudo; outros, com pouco ou nada. O que explicaria? Posso dar uma resposta religiosa geral: todo filho é um presente de Deus; a pobreza não é um defeito; a riqueza não é uma virtude; toda criança merece a vida. Se ela enfrentar problemas, isso servirá para que saibamos exercitar a paciência e a caridade. Aos olhos de Deus, importa apenas nossa atenção com os que sofrem; existe uma vida eterna além desta que dá a devida perspectiva ao que parece um problema grande neste vale de lágrimas.

Há uma possibilidade distinta no espiritismo kardecista. O fio das reencarnações é um aprendizado constante. Nascer em lar opulento ou miserável faz parte de uma enorme educação para todos. Acumulam-se dívidas e merecimentos, carma positivo e negativo, em outras existências. Assim, uma mãe que foi desatenta com um filho poderia, em hipótese, reencarnar em um lar onde ela, como filha, avaliasse a dor de pais ausentes. Para os espíritas, a caridade é fundamental. Fora dela, diziam os próceres da doutrina, não existiria salvação.

Muitos críticos da desigualdade ignorariam as duas explicações anteriores. Para eles, o sistema produz disparidades que condenam alguns recém-nascidos à fome. Dizer que isso faria parte de um plano espiritual seria uma forma de anestesiar e de justificar a morte de crianças pobres. A desigualdade pode buscar explicações em Rousseau ou em Marx. Para ambos, ela é uma construção humana, não natural, apenas disfarçada pelo manto da tradição, da história ou da fé.

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‘Maria Antonieta e Seus Filhos’, de Elisabeth Vigée-Lebrun: desigualdades são caminho para revoltas Foto: Museu de Versalhes/Creative Commons

Há uma leitura mais biologizante: um certo darwinismo social que traria para o plano das diferenças de classe uma explicação a partir da seleção das espécies. Machos hábeis e fortes buscariam sucesso material, boa aparência para atraírem fêmeas mais aptas e, assim, gerarem filhos melhores. Como alguns pássaros machos constroem ninhos intrincados e alguns mamíferos lutam entre si, o sucesso material e a aparência indicariam uma melhor escolha para a futura mãe. Gente forte (econômica e fisicamente) atrairia gente robusta, mas Darwin – que nunca imaginou algo assim – seria invocado para explicar que dinheiro atrai dinheiro e sucesso combina com sucesso.

Explicada em plano metafísico, construída a partir da ganância de um grupo ou definida em nosso instinto genético, a desigualdade existe. Se eu abrir mão das explicações anteriores, como eu poderia quebrar o anel de ferro da desigualdade?

Detalhe: a partir de quais argumentos? Ava terá acesso a boas escolas, viagens, vacinas e alimentação. Viverá em condições de formar redes neurais estáveis e receberá estímulos de dois pais inteligentes para abstrair. Conviverá com livros e quadros, avós, tios e padrinhos. Será uma menina brilhante e estável? Esse é nosso desejo, pois tudo indica que as sementes foram todas oferecidas e regadas. Haverá um jardim bonito na biografia dela?

Se mais gente tiver acesso a boas sementes, aqui metáfora de plenas condições iniciais, aumentaremos nossa possibilidade de talentos.

Serviços robotizados, algoritmos e outras tecnologias mostram que o trabalho braçal tende a diminuir. Necessitamos de mentes criativas e pessoas capazes de provocar rupturas positivas em todos os campos. A pobreza extrema, com défice alimentar e educacional, diminui a chance numérica de massa crítica. Importante: ricos não são mais brilhantes do que pobres, mas pessoas com acesso a alimentação e vacinas, na idade certa, podem tornar-se mais inteligentes do que as que não tiveram a mesma condição. O grande capital do futuro está no conhecimento. Não cuidar de comida e de educação é esterilizar o solo dessas possíveis possibilidades, desperdiçando talento e criatividade.

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Desigualdades sociais geram revoltas. Nossa sociedade conectada faz desta geração um grupo de sans-culottes assistindo a Versalhes em tempo real. Mulheres pobres ficaram ainda mais irritadas quando invadiram a sede da monarquia francesa, em outubro de 1789. Hoje, todo pobre pode ver que a metragem do closet de fulana supera o total do lar da maioria. Exposição constante de luxo diante de massas despossuídas, historicamente, tem resultado violento.

Em resumo, há algo a debater. Como bom padrinho, desejo que Ava viva em um mundo melhor do que o nosso atual. Tenho esperança e... ela não está em Luís XVI.

Opinião por Leandro Karnal

É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros

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