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Coluna semanal do historiador Leandro Karnal, com crônicas e textos sobre ética, religião, comportamento e atualidades

Opinião|O mundo mudará por conta de um abaixo-assinado?

Causa boa, documento elaborado, nomes famosos...

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Muita gente tenta. A pergunta percorre a história: como mudar o mundo? Os céticos apostam no imobilismo; os otimistas e românticos revolucionários falam de um mundo novo possível. Quem pode mudar o mundo? Como fazer isso?

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Parece que as mídias sociais aumentaram nossa crença no abaixo-assinado. Que instrumento é esse? Um cabeçalho que identifica a primeira do plural (nós), uma causa explicitada e um conjunto expressivo de assinaturas: eis a fórmula.

Funciona? A história é boa para ser estudada, porque fornece qualquer argumento a qualquer convicção. Exemplo de sucesso? Para convencer o príncipe regente Pedro a ficar no Brasil e contrariar as ordens das Cortes de Lisboa, surgiu um abaixo-assinado. Frei Francisco de Sampaio redigiu e José Clemente Pereira entregou o documento. Oito mil assinaturas pediam que o Regente desobedecesse à ordem de retorno à Europa. Funcionou! O Dia do Fico, 9 de janeiro de 1822, surgiu de um abaixo-assinado.

Imperador D. Pedro I teria decidido ficar no Brasil após um abaixo-assinado. Foto: Simplício Rodrigues de Sá/Reprodução

Foi mesmo? A elite brasileira, os grandes senhores de terras e de escravizados, a maçonaria, uma parte importante do clero e muitas camadas urbanas desejavam a permanência de D. Pedro. O documento foi apenas um arabesco para uma decisão já tomada?

Resta algo a debater: o abaixo-assinado funciona, mas seria desnecessário? O simbolismo de 8 mil assinaturas seria apenas um teatro para um fato já decidido? Se houvesse um documento concorrente ao histórico, com 12 mil assinaturas pedindo que D. Pedro partisse, ele teria optado pelo numericamente mais forte?

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A internet está cheia de abaixo-assinados. Tenho experiência que nem sempre são entregues. Reúnem dezenas de milhares e até milhões de assinaturas, sobre uma causa, divulgada em grupos específicos. Os amigos, irmanados nela, questionam: você já assinou?

Sentado no meu sofá, recebo a mensagem sobre um drama real que me comove. Vejo que há nomes de peso (fulano já assinou!) e coloco minha identidade a serviço daquilo em que acredito. Relaxo. Fiz parte da mudança. O mundo está melhor ou, ao menos, aquele do abaixo-assinado. O silêncio seria abominável, a omissão, criminosa! Minha consciência pede pela Amazônia, pela mudança na lei ignominiosa ou pelo fim da violência policial em tal lugar. Causa boa, nomes famosos, documento elaborado: tudo foi feito. E agora? O mundo mudará? A resposta é sempre complexa. Digam ao povo que fico, com esperança, para o bem de todos e felicidade geral da nação.

Opinião por Leandro Karnal

É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros

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