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‘É difícil deixar para trás traumas e injustiças do passado’, diz autor irlandês John Boyne

Escritor de ‘O Menino do Pijama Listrado’ lança a continuação do best-seller, ‘Por Lugares Devastados’, que trata da adoção do silêncio egoísta pelos alemães em relação à guerra

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Por Ubiratan Brasil
Foto: Rich Gilligan
Entrevista comJohn BoyneEscritor irlandês

O escritor irlandês John Boyne esperou 16 anos até voltar à trama de seu livro mais famoso, O Menino do Pijama Listrado. “Eu queria ter mais experiência como escritor e na vida”, diz ele ao Estadão. O motivo da conversa é a continuação daquela obra, Por Lugares Devastados, também lançado aqui pela Companhia das Letras. Era um romance muito aguardado, pois O Menino do Pijama Listrado conquistou um estrondoso sucesso desde que foi lançado em 2006, com 11 milhões de cópias vendidas até hoje, além de uma versão para o cinema.

O escritor John Boyne, autor de 'Por Lugares Devastados' e 'O Menino do Pijama Listrado'. Foto: Rich Gilligan

O que encantou os leitores foi uma poderosa fábula que se passa durante a Segunda Guerra Mundial sobre dois meninos de nove anos - Bruno, o filho do comandante de um campo de concentração, e o recluso judeu Shmuel, que lá aguarda o momento da morte. À medida que a amizade entre eles se intensifica, Bruno descobre aos poucos a responsabilidade do pai e sua inocência aos poucos se dissolve diante de uma realidade terrível.

Em Por Lugares Devastados, Boyne amarra os fios que deixou soltos a partir da história da irmã mais velha de Bruno, Gretel. Agora viúva, aos 91 anos ela vive em Londres desfrutando de uma pequena fortuna e zelando pelo silêncio que cerca o venenoso passado envolvendo seu pai, o que tortura sua consciência. Quando ela conhece um menino de 9 anos que se muda para seu prédio e descobre que a criança é abusada pelo pai, Gretel sente a necessidade de ajudá-lo. A tarefa, porém, pode revelar sua verdadeira identidade e seu passado. Sobre o livro, Boyne, hoje com 52 anos, respondeu as seguintes perguntas.

Você teve a ideia de contar a história de Gretel poucos dias depois de terminar o primeiro rascunho de ‘O Menino do Pijama Listrado’. Por que demorou tanto para escrever?

Embora soubesse que queria escrever este romance desde 2004, queria esperar até ficar mais velho e ter mais experiência como escritor e na vida. Eu sabia que Gretel seria uma mulher idosa, então decidi escrever o romance em 2021, quando ela estaria com 90 e poucos anos, mas ainda potencialmente viva. Sinto que a passagem do tempo entre os dois romances me permitiu, como escritor, explorar a diferença entre juventude e velhice na compreensão da história.

Cena do filme O Menino do Pijama Listrado Foto: Lukács Dávid

Como foi o processo de criação da personagem?

Para mim, há características simpáticas e antipáticas em Gretel. Por um lado, ela nasceu em um tempo, lugar e família sobre os quais não tinha controle e não teve escolha a não ser viajar com essa mesma família para o campo de concentração retratado em O Menino do Pijama Listrado. Ela era muito jovem para entender completamente o que estava acontecendo do outro lado da cerca. Também perdeu um irmão e um pai que amava e passou a vida lidando com o reconhecimento de quem seu pai realmente era e seus crimes hediondos. Por isso, Gretel merece simpatia, pois não trouxe nada disso para si mesma. Por outro lado, ela toma uma decisão consciente depois da guerra, quando já é um pouco mais velha, de não se apresentar aos Aliados quando cada pequena informação que pudesse dar sobre os campos poderia ter sido útil para montar os últimos dias de tantos prisioneiros judeus que ali foram assassinados. Ela faz isso por motivos puramente egoístas: porque sabe que, se revelar ao mundo, será passar a vida inteira exibindo sua vergonha publicamente. Gretel poderia fazer a coisa certa, mas opta por não fazê-lo. Por isso, merece nossa condenação.

Como lidou com a mudança dos sistemas de valores, ao escrever um romance ambientado ao longo de quase um século?

Esse é um dos elementos mais interessantes de escrever um romance ambientado em um longo período de tempo. Tive a oportunidade de explorar a personagem de Gretel tanto como uma jovem ingênua e traumatizada quanto, mais tarde, como uma velhinha sábia e problemática. Através de seus olhos também podemos ver como o mundo mudou durante esses anos. Vemos o antissemitismo no início do romance, o racismo na década de 1950 e a mudança de valores no início do século 21. Com isso, tentei permanecer fiel à época e dar ao leitor uma compreensão de como era a vida naqueles dias.

E como foi descrever o sofrimento causado pelo silêncio?

Isso é algo que explorei em vários romances. Estou sempre interessado naqueles que se sentam e permitem que o mal ou a injustiça aconteçam. De muitas maneiras, estou mais interessado nisso do que nos monstros que cometem esses atos em primeiro lugar. Explorei essas ideias pela primeira vez em A History of Loneliness, meu romance sobre os escândalos de abuso infantil na Igreja Católica na Irlanda, mas parece ter se tornado um tema crescente em todo o meu trabalho.

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Você está mais interessado em como o passado é diferente do presente ou em como as diferentes épocas podem ser semelhantes?

Estou interessado em ambos. Estou interessado no efeito que o passado tem sobre o presente e como, para muitos de nós, é difícil deixar para trás os traumas e as injustiças do passado. Embora muitas pessoas tenham de trabalhar arduamente para deixar de lado as dificuldades que podem ter enfrentado na juventude ou na história da família, nem sempre é fácil fazê-lo. Certamente é algo que Gretel tem que enfrentar neste livro. Mas um dos trabalhos do romancista é encontrar a verdade autêntica do que é sofrer e sair desse sofrimento, seja isso levando o personagem a um lugar de recuperação ou mais dor.

Capa do livro Por Lugares Devastados, de John Boyne, que traz a continuação do romance O Menino do Pijama Listrado Foto: Companhia das Letras

Qual a importância da perspectiva do narrador? Existe uma conexão entre perspectiva e verdade? A propósito, você achou difícil escrever do ponto de vista feminino?

Quase todos os meus romances adultos têm um narrador em primeira pessoa. Prefiro escrever assim porque me oferece a oportunidade de explorar o mais profundamente possível a psicologia de um único personagem. Não é mais difícil escrever do ponto de vista de uma mulher do que escrever do ponto de vista de alguém cujas experiências eu não compartilho. A maioria dos meus livros tem um personagem central cuja experiência é muito diferente da minha e meu trabalho é imaginar como seria ser essa pessoa. Em Por Lugares Devastados, a questão para mim não é que Gretel seja uma mulher ou que ela tenha 91 anos, é que eu tenho que imaginar como seria ser filha de um comandante em um campo de concentração e o efeito que isso teria na própria psique.

Acredito que sua ficção se tornou cada vez mais urgente, mais subjetiva e mais preocupada com os detalhes externos deste mundo. Estou errado?

Sim, acho que isso é verdade. Meus primeiros romances, que eram muito baseados na história, tinham um sentido mais tradicional, quase como um tipo de narrativa do século 19, que é um período da literatura que eu amo. Mas, nos últimos 12 ou 13 anos, minha ficção se tornou muito mais pessoal e explorei muitos temas que são centrais para minha própria vida, como homossexualidade, abuso infantil e as injustiças que são impostas aos jovens por figuras de autoridade. Talvez seja porque fiquei mais velho, mais confiante como escritor e mais experiente. Isso me deu a oportunidade de mergulhar mais profundamente nas verdadeiras experiências da vida, em vez de simplesmente escrever histórias sobre o passado. Comecei a me ver como um escritor muito mais político do que quando tinha trinta anos.

Você acredita que os romancistas têm uma obrigação moral com seus personagens e com seus leitores?

Acho que a obrigação do romancista é contar uma história interessante para que seus leitores, que gastaram dinheiro com os livros e passaram tempo lendo-os, não se sintam enganados. Nem sempre conseguimos acertar. Nem todo livro que produzimos vai agradar a todos, mas a intenção sempre tem que ser tentar produzir algo de valor, algo que faça o leitor pensar sobre o mundo e seu lugar nele, algo que desafie, algo que divirta e algo que tem o potencial de durar mais que todos nós.

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Faço aqui uma pergunta que tenho apresentado a vários escritores: estariam os autores mais cautelosos ou temerosos após o ataque a Salman Rushdie?

Sim. Acho que neste período de mídia social, quando as pessoas se sentem capazes de dizer as coisas mais odiosas online sobre alguém que não conhecem e que nunca conheceram, temos que ser um pouco mais cuidadosos. Certamente recebi muitos tipos de ataques ao longo dos anos de pessoas que parecem profundamente desequilibradas. Pode ser perturbador e é preciso tentar ignorá-las, mas sempre há o medo de que haja uma pessoa louca por aí que possa atacar alguém na vida real. Estou consciente disso e acho que qualquer escritor que tenha experimentado controvérsia em seu trabalho está ciente também. A maior parte disso é culpa das mídias sociais, que trazem à tona o que há de pior nas pessoas.

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