Rosa Montero: ‘Jornalismo é arma contra o caos, dogmatismo, extremismo e manipulação’, diz na Flip

A escritora espanhola, autora de ‘O Perigo de Estar Lúcida’, retorna a Paraty após 21 anos para participar da Flip 2025. Ao ‘Estadão’, ela falou sobre democracia, ter leitoras jovens, obsessão pela morte e literatura

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Foto do autor Julia Queiroz

Rosa Montero lembra participação na Flip 2004 e morte do marido

Escritora espanhola participa da edição de 2025 da Festa Literária Internacional de Paraty. Crédito: Julia Queiroz/Estadão

Foto: Julia Queiroz/Estadão
Entrevista comRosa MonteroEscritora

Quando esteve no Brasil em 2004 para a segunda edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Rosa Montero era uma autora ainda pouco conhecida no País. Naquela época, se divertiu muito por aqui ao lado de escritores como Paul Auster (1947-2024), Siri Hustvedt (1955) e Martin Amis (1949-2023).

Agora, aos 74 anos, ela retorna ao evento não apenas como uma autora consagrada, mas também com uma legião de leitores, muitos dos quais foram a Paraty apenas para vê-la. “A Flip me impressionou com o calor, com o carinho, com a festa que tomava conta de toda a rua”, lembra ela, em conversa com o Estadão na pousada onde está hospedada na cidade histórica.

“Foi uma viagem especialmente bonita, me lembro como se estivesse iluminada pelo sol. Foi a primeira vez que eu vim a Paraty e é um lugar mágico”, disse. Ela lembra de ser um período especial da vida, quando o marido, Pablo Lizcano, morto em 2009, ainda estava vivo. Rosa volta à programação oficial da Flip 2025 neste sábado, 2, às 19h, em conversa mediada por Paulo Roberto Pires.

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A mesa será transmitida ao vivo pelo canal oficial da Flip no YouTube e deve abordar alguns dos principais livros da autora, como A Louca da Casa, que ela divulgava naquela Flip e foi reeditado em 2024 pela Todavia, A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver, que escreveu após a morte do marido, e o recente O Perigo de Estar Lúcida, em que divaga sobre a relação entre a loucura e a criatividade.

“Desde a última vez que vim, já foram 21 anos. É um terço da minha vida”, comentou Rosa. Muita coisa mudou, é claro, mas principalmente o público que aguarda ansioso por seus livros e que é, em grande parte, formado por mulheres que eram crianças ou adolescentes quando ela esteve na Flip em 2004.

Ao Estadão, a escritora revelou se considera uma responsabilidade ter tantas jovens leitoras, refletiu sobre a juventude atual e os desafios do jornalismo - ela foi por anos editora-chefe do jornal El País -, além de falar sobre envelhecimento, felicidade e literatura. Confira como foi a conversa:

Aqui no Brasil, você tem muitas leitoras jovens, entre seus 20 e 30 anos. Você considera isso uma responsabilidade?

É uma coisa interessante porque é assim no Brasil e em todas as partes. Na Espanha, também tenho muitíssimas leitoras muito jovens. Parece-me uma bênção, um presente da vida, mas não quero pensar que seja uma responsabilidade porque me paralisaria e me aterrorizaria. Já me assusta bastante a responsabilidade da minha própria vida. Tento viver minha vida da maneira mais honesta e mais verdadeira possível e espero que com isso baste.

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Além disso, a vida é muito complexa. Coisas que você pode dizer em um livro com determinada intenção, há pessoas que podem entendê-las com uma intenção completamente distinta. Vivo há muito anos escrevendo e já vi isso. Tento fazer a minha literatura de forma honesta e com o maior rigor possível, mas o que pensam não depende de mim.

Convidada da Flip 2025, Rosa Montero reflete sobre ter leitoras jovens

Escritora espanhola participa da edição de 2025 da Festa Literária Internacional de Paraty. Crédito: Julia Queiroz/Estadão

O que você pensa sobre a juventude de hoje? Tem alguma opinião sobre a forma como se comportam?

Uma das coisas que eu acredito que marcam e deixam mais claro, de imediato, a velhice mental de uma pessoa é quando ela começa a dizer: ‘Ah, os jovens de agora…’. E os da sua época? Sempre houve, em cada geração, gente idiota, inteligente, frívola, profunda, triste, alegre, há de tudo em cada geração. O que você pode levar em conta são os conflitos concretos que enfrenta cada geração. Quando eu tinha a sua idade, em todo o mundo havia esperança no futuro. Agora, em todo o mundo há medo do futuro. Essa é uma diferença enorme.

Por outro lado, temos agora o problema da crise de valores democráticos, das fake news, das redes, do que podem fazer de bem e de mal. Isso é um conflito muito grande. Na Espanha, 75% das pessoas menores de 25 anos se informam por meio das redes. Isso é desinformar-se. Isso é realmente ser objeto da manipulação política. Não é um problema das gerações, é um problema da sociedade tal como está estruturada, do momento tecnológico.

E eu acredito que os 25% dos jovens que não se informam por meio das redes já estão tentando fazer algo. Me pergunto, na minha geração, que porcentagem de jovens havia que realmente queriam mudar o mundo? Pois não acredito que fosse maior do que 25%, não. Mas nós tínhamos outros problemas.

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Você trabalhou muitos anos em redações de jornal e mencionou agora a questão das redes sociais. Acredita que esse é o maior desafio do jornalismo hoje?

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Não é apenas o maior desafio do jornalismo hoje. É um dos maiores desafios da sociedade. O problema é que o jornalismo está em crise há 20 anos. Primeiro, foi uma crise de adaptação à mudança tecnológica. Começaram a surgir os digitais e, a princípio, todos nós acreditamos que com os digitais se ganharia dinheiro com os anúncios, mas logo se viu que não seria assim. Então, primeiro, foi uma crise do modelo de mercado.

Agora, é uma crise social, pelo que eu digo das redes e da crise do sistema democrático. Estamos agora em uma crise de credibilidade e de legitimidade do sistema democrático no mundo. E os meios de comunicação estão muito ligados à democracia. De fato, não pode existir uma democracia forte sem meios de comunicação fortes.

E não é por acaso que quando há uma crise democrática tão grande como a que estamos passando haja uma crise grande de meios de comunicação também, porque são dois valores que vão juntos. Temos primeiro que refundar a democracia e, depois, continuar lutando como jornalistas para que o jornalismo permaneça, porque ele é uma das últimas armas contra o caos, a confusão, o dogmatismo, o extremismo, a manipulação. Seguir lutando pelo jornalismo hoje é uma tarefa política extraordinária.

Durante sua participação no ‘Roda Viva’, você disse que o escritor não escreve para ensinar, ele escreve para aprender. O que sente que mais aprendeu escrevendo seus livros?

É impossível responder isso, porque é como se escrever fosse uma maneira de viver. E é uma maneira de viver especialmente intensa e boa. É muito complicado explicar o que fomos aprendendo na vida. Você vai aprendendo tudo. Uma coisa da qual sou consciente é que, quando você escreve um romance, tem que se colocar na vida dos personagens. Sempre digo que escrever um livro é a permissão para a esquizofrenia. Você entra e vive dentro do protagonista, masculino ou feminino.

Entrando nos meus personagens masculinos e vivendo dentro deles, entendi e aprendi muito mais sobre os homens do que na minha relação com eles, por mais íntima que seja. Mesmo tendo vivido 21 anos com Pablo, não importa, porque sempre, na sua relação, você os vê do seu ser mulher.

Rosa Montero participa de mesa da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip 2025, neste sábado, 2 de agosto. Foto: Julia Queiroz/Estadão

Você me parece sempre uma pessoa muito alegre, feliz. Você se vê assim? O que te faz carregar essa leveza?

Tenho a virtude da alegria, o que não é um mérito meu. Ela é uma força animal das células, que te permite dançar um sapateado de prazer e de alegria pelo simples fato de estar vivo. É uma virtude que todos os animais possuem. Além disso, tenho uma empatia muito grande e tenho uma capacidade de entender o sofrimento. Vivi muitas coisas que foram muito dolorosas na minha vida, mas a energia está aí para continuar vivendo.

É comum as pessoas terem medo de envelhecer. Você lida bem com a passagem do tempo?

Sempre fui obcecada com a passagem do tempo. A imensa maioria dos seres humanos vive como se fossem eternos. Há um punhado de neuróticos, como Woody Allen e como eu, que desde muito pequenos questionam a morte. Penso na morte desde que tinha oito ou nove anos. Lembro-me de, com nove anos, dizer a mim mesma: ‘Rosita, que tarde tão bonita, aproveite, porque logo o tempo passará, você terá envelhecido, o tempo passará e seus pais terão morrido e, mais tempo passará, e você terá morrido’.

Bom, já estou nessa progressão, na última parte do caminho. Meus pais já morreram. É claro que é um pensamento bastante incomum para uma criança, mas, por outro lado, repito o que te disse sobre a capacidade de “devorar a vida a mordidas”, [tenho] uma vitalidade imensa. Quando você está muito preenchido pela ideia da morte, você está muito preenchido pela ideia da vida, pela consciência da vida.

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E eu pago o preço. Tive crises de pânico dos 16 até os 30 anos. Eu tinha medo. Com 20 anos, olhava ao redor com horror para as pessoas mais velhas. Não só me pareciam muito velhos, mas iam ao cinema, tomavam café no bar, davam risada, conversam tão contentes. Eu pensava: ‘Como podem fazer tudo isso quando estão tão perto da morte? Se eu tivesse a idade deles, estaria debaixo da cama uivando de medo’.

Bom, agora tenho bem mais de 60 anos e não estou debaixo da cama. Algo eu fiz bem e esse algo é, sem dúvida, escrever. Eu escrevo contra a morte, contra a obsessão pelo passar do tempo, pelo que o tempo nos faz e desfaz. E tenho me dado bem.

Você já disse que gostaria de ler mais. O que você costuma ler?

Leio de tudo. Primeiro, me esforço para ler todos os amigos que escrevem, que são muitos, em todos os países. Também leio manuscritos que amigos me mandam, um pouco para corrigi-los. Assim como eu mando meus manuscritos para amigos escritores antes de publicá-los. Depois, vem a leitura pessoal, pois me esforço para ler os contemporâneos de todas as línguas. Faço um esforço para ler de vez em quando alguns dos clássicos que ainda não li.

Além disso, leio muita divulgação científica. Também adoro livros raros, como, sei lá, livros de viagem. Livros como os meus artefatos literários - livros como memórias, mas de mentiras. Leio biografias e livros de memórias convencionais. Leio muita pouca poesia, mas leio.

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Você acha que ler é um ato de resistência na sociedade em que vivemos?

A questão é que nós escritores somos todos leitores apaixonados. E acredito que, para nós, a leitura foi, sem dúvida, um ato de resistência frente a uma vida que não víamos claramente, mas um ato de resistência prazeroso. Ler salvou minha vida. Ter um livro que você está ansioso para voltar para casa e continuar com ele... é como um amor. Você quer correr para vê-lo.

Pode ser um ato de resistência, mas é muito prazeroso. Isso é fantástico. Isso é o que eu amei na Flip quando vim. Acho que é algo que os festivais literários tentaram fazer, mas nunca conseguiram tão bem quanto a Flip. Chegar aqui e ver que ler é uma festa, que é uma festa física, que você coloca todo o corpo nela. É uma maravilha.

O que você mais gosta na literatura hoje? E o que desgosta?

Acredito que vivemos em um momento que continua a ser pós-moderno, por assim dizer, ou seja, vale tudo. Cabem todas as direções. Há pluralidade e há modas que o mercado fomenta, que irão aparecer e cair. Por exemplo, há uma ‘minimoda’ de terror feito por mulheres. Acho que já está terminando, na verdade.

Depois, há algo que é mais profundo e que me preocupa um pouco, que é a autoficção. A autoficção é um subgênero que é muito adequado ao tempo em que vivemos, que é cada vez mais híbrido. A realidade se mostra cada vez menos confiável. A autoficção cultiva muito essa fronteira. Eu gosto. Em alguns livros meus, uso autoficção. Parece-me uma ferramenta excelente.

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O que me preocupa um pouco é que a crítica mundial e alguns autores tenham a elevado como se fosse o melhor do melhor. Para mim, quando se faz apenas autoficção, parece indicar uma falta de nervo criativo. Uma falta, muito preocupante, de criatividade de verdade. Como uma ferramenta a mais, tudo bem. Mas que a elevem desta forma, me parece fatal.

Livros de Rosa Montero publicados no Brasil

Rosa Montero tem cinco livros publicados no Brasil, todos pela editora Todavia: A Louca da Casa, O Perigo de Estar Lúcida, A Boa Sorte, Nós, Mulheres e A Ridícula Ideia de Nunca Mais te Ver.