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Cinema, cultura & afins

Opinião|Mostra de Gostoso 2023: bom início, com o emocionante drama 'Saudades fez morada aqui dentro'

Foto do author Luiz Zanin Oricchio

SÃO MIGUEL DO GOSTOSO - Na primeira noite de exibição da Mostra de Gostoso um belo filme bateu no telão montado na Praia do Maceió - o baiano Saudades fez morada aqui dentro, de Haroldo Borges. Verdade que começou tarde, depois das 23h30, e foi terminar na madrugada de sábado. Mesmo assim o público ficou para ver a história do garoto Bruno, que vive feliz da vida em sua pequena cidade do interior até receber o diagnóstico de doença degenerativa que o fará perder a visão pouco a pouco, até se tornar cego.

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O risco seria que, com uma história dessas, o longa jogasse com a emoção fácil e mesmo com a pieguice. Nada disso acontece. O diretor mantém o tom naturalista, quase neutro, ao acompanhar o drama de Bruno. O elenco, composto em quase totalidade por novatos, funciona muito bem nesse sentido. O filme beneficiou-se do trabalho da coach Fátima Bezerra, que andou na berlinda durante algum tempo, mas felizmente manteve-se na profissão. Os efeitos do seu trabalho, quaisquer que sejam seus métodos, se fazem sentir quando envolvem elenco jovem e inexperiente, desde o já longínquo Pixote, de Hector Babenco.

Enfim, Saudades fez morada aqui dentro é um filme de muitas qualidades, que não paga pedágio, senão de maneira lateral, a pautas contemporâneas. Simplesmente contempla um drama humano e a capacidade de recuperação através da amizade, do apoio por parte de pessoas que se interessam de fato pelo outro. Não oferece consolo fácil. Mas o fato de ser duro, o torna ainda mais emocionante porque trata de emoções verdadeiras e não de sentimentos e pautas de planilha como tem sido uma constante no cinema brasileiro contemporâneo.

O curta apresentado na mesma sessão, As Marias, um doc de Dannon Lacerda, fez um bom par com o longa baiano. Tem por foco as tias trigêmeas do diretor, que vivem na cidade de Guia Lopes de Laguna (MS). Através de depoimentos simples, as senhorinhas evocam um tempo em que as mulheres eram preparadas para a igreja, o matrimônio e a criação de filhos. Nem todas seguiam o plano social para elas traçado. Em desenho seco, também sem discursos moralizantes, elas dão o seu recado sobre um tempo que passou, sem ranço de nostalgia. Muito bom.

O programa foi aberto pelo documentário Nós do Audiovisual, que fez um balanço da entidade que funciona desde o princípio da Mostra de Gostoso e funciona em articulação com esta. Com dez anos de percurso, já é momento para um balanço, que não deixa de ser crítico, trazendo avanços e alguns percalços desse coletivo formado por jovens de São Miguel do Gostoso, que participam dos cursos de formação técnica e audiovisual.

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De resto, as características da Mostra de Gostoso, continuam inalteradas após dez anos de caminhada. O diferencial é a "sala" de cinema, montada nas areias da Praia do Maceió, com projeção ao ar livre em telão montado para o evento. A qualidade tanto dos filmes como dos cursos é garantida pela dupla de curadores e criadores do evento, Eugênio Puppo e Matheus Sundfeld.

MOSTRA COMPETITIVA

LONGAS-METRAGENS

O Dia Que Te Conheci

ficção, 70 min, MG, 2023, 14 anos

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Direção: André Novais Oliveira

Estranho Caminho

ficção, 83 min, CE, 2023, 12 anos

Direção: Guto Parente

Quando Eu Me Encontrar

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Ficção, 77 min, CE, 2023, 10 anos

Direção: Amanda Pontes e Michelline Helena

Saudade Fez Morada Aqui Dentro

Ficção, 110 min, BA, 2022, 12 anos

Direção: Haroldo Borges

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MOSTRA PANORAMA

LONGAS

Crowrã (A Flor do Buriti)

Ficção, 124 min, TO, 2023, Livre

Direção: Renée Nader Messora e João Salaviza

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Pedágio

Ficção, 101 min, SP, 2023, 14 anos

Direção: Carolina Markowicz

Sem Coração

Ficção, 93 min, PE, 2023, 14 Anos

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Direção: Nara Normande e Tião

Tudo o Que Você Podia Ser

Ficção, 82 min, MG, 2023, 12 anos

Direção: Ricardo Alves Jr.

Opinião por Luiz Zanin Oricchio

É jornalista, psicanalista e crítico de cinema

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