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Opinião|Mostra de Gostoso 2023: 'Sem coração', quando a memória vira ficção

Foto do author Luiz Zanin Oricchio
 

Vale a pena desenvolver um curta de sucesso e transformá-lo em longa? Essa é a pergunta que Sem Coração pretende responder. Ou pelo menos colocar em pauta. Dirigido por Nara Normande e Tião, evoca passagens biográficas do crescimento de Nara em uma praia alagoana. Mescla ficção e elementos de fantástico, que dão coloração diferente à obra. Termina com um plano de muita força (que não direi qual é) e que levantou a galera presente à Sala Petrobras, nova aquisição da Mostra de Gostoso. Trata-se de um domo geodésico, plantado na Praia do Maceió, e que abriga as sessões vespertinas da mostra. Cabem cento e poucas pessoas e tecnicamente é muito bom (tela, áudio e refrigeração). 

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E o filme? Tem muitas qualidades, a meu ver. Típico coming of age, registra a passagem para a idade adulta de Tamara (Maya de Vicq). Ela se prepara para deixar sua querida praia alagoana para estudar em Brasília. Vive rodeada de amigos e mostra certo fascínio pela filha de um pescador, apelidada de "Sem Coração" (Eduarda Samara), que dá título ao longa. 

Há muito de juvenil na história e esse espírito se reflete no estilo de narrativa - enérgico, muitas vezes alusivo, envolvente e com toques de humor e fantástico. Questões identitárias são de rigueur em nosso cinema jovem. Estão em pauta, assim como oposições geracionais e questionamentos a figuras patriarcais ou de autoridade. Cada geração precisa fazer - a seu modo - esse percurso de questionamento. 

Mesmo assim, o filme parece seguir um curso mais livre, inspirado e desimpedido que congêneres, muto travados pela agenda das "questões que é preciso tratar para não estar fora do grupo". 

Normande - aqui em companhia de Tião - trabalha muito bem seu material de memória e o transforma em massa ficcional, portanto extensiva às outras pessoas, que nele podem se mirar. "De te fabula narratur", etc. A fábula fala de ti. E essa fábula jovem tem potencial para falar à sua geração e também às mais velhas. 

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Opinião por Luiz Zanin Oricchio

É jornalista, psicanalista e crítico de cinema

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