Alice Ferraz: Parece fácil, mas não é

Claro que uma cena não pode ser símbolo de um bom casamento. Mas o momento captado parecia mesmo suave e em sintonia, embora saibamos que nenhuma relação está livre de conflitos

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Por Alice Ferraz

Em entrevista recente, o escritor Paul Auster disse que nunca escreveu rápido e que, normalmente, demora um dia inteiro para escrever uma página, indo e voltando entre frases e palavras, até encontrar o ritmo natural delas, suavemente e sem esforço. “O trabalho duro é fazer parecer que foi fácil”, disse. Considero Paul Auster um gênio da escrita e nunca imaginei que as palavras de seus livros não brotassem rápidas como água pura em uma nascente.

O bolo do casamento do príncipe Harry e Meghan Markle que foi servido aos convidados para a recepção que aconteceu logo após a cerimônia. Foto: Twitter/@KensingtonRoyal

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O esforço sempre foi uma constante na minha vida, profissional ou pessoal, e era visto na casa de meus pais como um valor sólido a ser conquistado. Bonito era alguém que se esforçava e nada mais ofensivo do que a frase “deitar em berço esplêndido”. Esforço era sinônimo de caráter. Mas o que me causou contentamento na frase de Auster foi ele dizer que “tenta parecer que foi fácil”. Já escutei diversas vezes que minha vida, viagens, trabalho e casamento parecem simplesmente fluir, acontecer.

Em um vídeo postado recentemente, andando ao lado do meu marido, recebi comentários como “vocês dois juntos flutuam suavemente” ou “almas gêmeas, quando se encontram, tudo fica fácil”. Claro que uma cena não pode ser símbolo de um bom casamento. Mas o momento captado parecia mesmo suave e em sintonia, embora saibamos que nenhuma relação está livre de conflitos.

Não pareço, à primeira vista, alguém que está se esforçando, talvez muitos duvidem que faço parte da turma “trying hard”, como gostam de dizer os americanos em tom de elogio. Nada mais longe da verdade. Assim como Paul Auster – e que privilégio pensar que tenho algo em comum com ele –, eu me esforço para que pareça sem esforço. E por quê? Não é porque não quero expor as dores do caminho. Não. Porque, talvez, como ele, eu goste da qualidade de ser suave, da beleza contida que se desvenda lentamente. Gosto de pensar e agir em camadas, sem estardalhaço. Tudo está sendo construído com esforço por dentro para que o resultado pareça natural e contínuo por fora. Já ouvi que isso não é natural, que é uma estratégia que encobre minha real personalidade. Tenho agora um álibi na frase de Auster e quero mesmo o melhor resultado – e não a repercussão ou o interesse que meu esforço diligente possa oferecer.

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