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Alice Ferraz: Por que eu não estava conseguindo apoiar meu filho em sua nova jornada?

‘Que absurdo era aquele agora? A vida dele estava ótima! Um jovem adulto, morando sozinho já havia quatro anos, com emprego fixo, em um lugar ótimo, dentro da área que escolheu’

colunista convidado
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Por Alice Ferraz

– Mãe, bom dia. Vou pedir demissão, estou ligando só para te contar.

– Mas, filho, por quê? Está indo tudo tão bem. É sua área de atuação, como você vai pagar as contas? Que absurdo é esse?

– Não é absurdo nenhum, mãe. Quero empreender.

– O quê? Como assim, por quê? Não inventa. Não tenho tempo para isso. Estou trabalhando. Tchau, falamos depois.

'Fiquei triste, preocupada e nervosa. Eu, uma mulher que incentiva mulheres a empreender, a viver a vida que querem… não estava conseguindo apoiar meu filho nessa jornada.' Foto: NaruFoto - stock.adobe.com

Desliguei o telefone. Que absurdo era aquele agora? A vida dele estava ótima! Um jovem adulto, morando sozinho já havia quatro anos, com emprego fixo, em um lugar ótimo, dentro da área que escolheu.

Deve ter acordado em um dia ruim. E eu não ia nem me preocupar nem dar corda para essa loucura.

Dois dias depois.

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– Bom dia, mãe, vamos falar?

– Bom dia, filho. Falar do quê?

– Mãe, eu só quero te dizer que vou empreender e está decidido.

– Ah, Gabriel, não é possível. Esse assunto de novo. Por que isso? Está tudo ótimo na sua vida. Você quer confusão?

– E quando você foi empreender não estava tudo ótimo? Você fez o que queria e assumiu seus riscos. Deu errado tantas vezes, deu certo outras. Por que eu não posso fazer a mesma coisa?

Gelei!

– Porque é diferente e fim.

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– Diferente de quê?

– Eu queria uma outra vida e não tive escolha.

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– Você não teve escolha de viver uma vida que não fosse a de uma empreendedora? Mãe, eu só liguei para avisar e, se você quiser saber mais, você me liga.

– Não vou ligar e não vou apoiar. Meu caso não tem comparação com o seu.

Mas era claro que tinha. Fiquei triste, preocupada e nervosa. Eu, uma mulher que incentiva mulheres a empreender, a viver a vida que querem… não estava conseguindo apoiar meu filho nessa jornada.

Por quê?

Medo.

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Fiquei firme e não liguei, quem sabe ele ia desistir?

Duas semanas depois, meu filho embarcou para a China, onde está agora, passando uma temporada, pesquisando no país que é líder no assunto que será o seu novo negócio.

Continuo com um medo inexplicável por ele. Não quero que sofra, apesar de saber que sofrer me transformou na mulher que eu sou hoje e que isso – no meu caso – foi bom.

– Mãe, você tem de conhecer a China! Você vai amar. São muito parecidos com você.

– Como assim, filho?

– São supertrabalhadores, sérios, estão criando coisas incríveis!

Nesse dia, chorei muito.

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A visão de meu filho sobre quem sou e a minha falta de visão sobre quem ele já é.

– Gabriel, quando voltar vamos fazer uma reunião? Adoraria contribuir na área de comunicação, se você quiser...

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