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E se músicas brasileiras virassem musicais? Geração Z dramatiza letras de antigos hits no TikTok

Canções de Blitz, Roupa Nova e Legião Urbana são reimaginadas por jovens atores e transformadas em cenas curtas musicadas e imaginadas para os palcos

Foto do author Sabrina Legramandi
Por Sabrina Legramandi

Já pensou transformar suas músicas brasileiras favoritas dos anos 1970, 1980 ou 1990 em pequenos projetos de musicais para os palcos de teatro? A ideia saudosista faz sucesso entre jovens que interpretam e entoam hits clássicos em vídeos no TikTok.

O conceito de gravar cenas musicadas inspiradas em canções do Brasil faz parte de uma “trend” – nome dado às tendências da plataforma – e virou sinônimo de sucesso entre a Geração Z. Hits como Você Não Soube Me Amar, do Blitz, Whisky a Go Go, do Roupa Nova, e até Eduardo e Mônica, do Legião Urbana, ganharam uma nova interpretação e comandam postagens que chegam a ultrapassar 8 milhões de visualizações.

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Tudo começou com Você Não Soube Me Amar, música que praticamente pedia uma versão para os palcos. “Essa música é maravilhosa. Eu acho que é uma das canções que mais tem representação de um teatro musical, porque é uma conversa dentro da música”, comenta o ator Tomás Santa Rosa, de 20 anos, que viralizou com uma versão do hit e inspirou outras na plataforma.

Hoje, o vídeo publicado por Tomás tem 4,6 milhões de visualizações e o trecho do hit do Blitz usado por ele já embala quase 7 mil publicações na rede. Tomás, quando fez sua conta no TikTok, não imaginava a repercussão: ele criou um perfil falso durante o ensino médio e, à época, o escondeu até dos amigos.

Aluno do curso de Atuação Cênica na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Tomás diz ter sido inspirado por um projeto de teatro musical na universidade. A ideia de publicar o vídeo veio de uma vontade de democratizar o acesso a essa modalidade de teatro.

“O teatro musical e o teatro, no geral, podem ser muito elitistas. [...] Eu já vi alguns musicais com o meu pai, com a minha família, mas, às vezes, os ingressos eram muito caros ou eram em teatros em que a gente não conseguia voltar para casa”, comenta ele, que diz ter entrado em contato mais ativamente com musicais na faculdade. “Muitas vezes, a rede social veio nesse lugar de democratizar.”

Algo bem brasileiro

Tomás inspirou a também atriz Júlia Franco, de 19 anos, que resolveu ir ainda mais além: fez um desafio com 31 dias consecutivos de cenas musicadas até o final do ano passado. Valia tudo: peruca para mudar de personagem, usar roupas dos pais, transformar a sala da casa em uma boate. Os únicos critérios eram que as músicas fossem brasileiras e as roupas fizessem referências às épocas das canções.

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“Eu queria poder fazer algo bem brasileiro para poder representar o nosso País”, diz. “E o que melhor do que músicas brasileiras, que vão ser nostálgicas e que, de alguma forma, vão fazer a pessoa voltar para a infância ou para algum momento legal da vida?”.

O primeiro vídeo do desafio, uma versão também de Você Não Soube Me Amar, conseguiu ultrapassar os 8 milhões de visualizações. No elenco, apenas Julia, mas a escolha das músicas e a produção das cenas têm “ajudinhas especiais”.

Ao pensar as primeiras publicações, a atriz pediu para que os pais listassem músicas brasileiras de que gostavam muito. O resultado? Vídeos que dão novos ares a canções que vão da chiclete Whisky a Go Go à dramática Dormi Na Praça.

De 50 minutos gravados, Julia precisa transformar os musicais em trechos de apenas um minuto. Ela, que chegou a demorar 12 horas para gravar uma cena de Eduardo e Mônica, disse que se empenhava a fazer três vídeos por dia para dar conta do desafio de 31 dias.

Do passado ao futuro

Quem assiste às postagens pode até pensar que a artista tinha as letras das músicas gravadas de cor havia tempos. Ela, porém, diz ter descoberto grande parte das músicas após o pedido que fez aos pais. “Algumas eu nunca tinha ouvido. Eu comecei a ouvir e, agora, elas estão na minha playlist”, comenta.

Julia Franco relata ter conhecido algumas músicas apenas durante a produção de seus vídeos. Foto: Arquivo Pessoal

Julia cita alguns exemplos de canções que não conhecia e passou a ouvir depois dos vídeos: To Nem Aí, Mulher de Fases, Eduardo e Mônica, Tremendo Vacilão e a própria Você Não Soube Me Amar. Ela não é exceção da regra: relata ter encontrado uma seguidora de 8 anos que começou a cantar Estúpido Cupido, de 1959, ao reconhecer a atriz por conta do TikTok.

Ela conheceu a música pelos meus vídeos. Então olha que legal, sabe? A Geração Z, que não conhecia essas músicas, passando a ouvir e passando a conhecer esses artistas que foram muito marcantes para alguma geração e [eles] podendo se tornar marcantes para essa geração nova também.

Julia Franco

Tomás elenca algumas características de músicas que, para ele, podem se tornar um musical: canções que transmitem “imagens”, que são animadas – de preferência –, e que retratam sentimentos “à flor da pele”. Para o ator, é mais difícil imaginar cenas musicadas com faixas atuais.

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“Atualmente, fica mais difícil ‘pegar’ algumas canções, porque a gente está vendo que a indústria do TikTok começa a [interferir]. As músicas acabam, muitas vezes, ficando sem mensagem”, considera. “E eu acho que tudo bem também, às vezes a gente só quer ouvir uma música para dançar e abstrair”.

Via de dois lados

O crescimento de vídeos com interpretações, para o artista, é uma “via de dois lados”: o TikTok dá mais visibilidade para atores jovens que buscam uma oportunidade, mas, ao mesmo tempo, o número de seguidores passa a ser um dos critérios para um papel nos palcos ou na TV.

“No final, alguém que tem mais seguidores do que você consegue o papel não por conta do talento ou do esforço dela, mas porque a influência dela é maior do que a sua”, diz. Para Tomás, atores na internet também têm um papel: “Eu gosto muito de pensar que, na verdade, a minha missão ali na rede social é me tornar um profissional do teatro capaz de influenciar pessoas”.

Com os musicais, Julia sente uma mudança na visão que as pessoas têm de seu trabalho: seguidores a veem como uma atriz, não como uma tiktoker. “O meu conteúdo nunca havia gerado essa visibilidade para mim como atriz”, comenta.

Segundo ela, diretores de quem gostava e acompanhava passaram a segui-la nas redes sociais e escritoras brasileiras que já fizeram adaptações para o cinema e streaming também passaram a acompanhar a artista. “Eu não quero parar. Quero continuar até conseguir ‘pegar’ uma novela na Globo”, brinca.

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